Mais do que um sistema de representação, constituído por palavras e pelas regras que as combinam em frases, a língua também é um conceito político, social e histórico: é uma forma de se fazer existir e se fazer pertencer.
A língua carrega a história, os conhecimentos, as crenças e os valores de um povo, que são repassados de geração em geração. Em culturas de tradição oral, como as indígenas, a língua tem ainda mais peso para revelar origens, identidades, religiosidades e saberes da fauna e flora do território.
Atualmente, há 295 línguas indígenas registradas no Brasil. Elas são mantidas viva por 433.980 falantes, de 391 povos. Os dados foram divulgados no final do ano passado pelo IBGE, e tem origem no Censo Demográfico 2022.
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Os números são bem diferentes de quando os portugueses começaram a ocupar as terras do que hoje chamamos Brasil. Na época, havia mais de 1.200 línguas e dialetos indígenas, de acordo com estimativas do linguista Aryon Rodrigues.
Nesse sentido, os povos indígenas também usam a língua para resgatar e honrar a memória de seus ancestrais. É uma questão de legado.
Saiba quais são as quatro línguas indígenas mais faladas no Brasil e detalhes de seus povos.

TIKÚNA
É a língua do povo indígena mais numeroso da Amazônia Brasileira, que vive principalmente no Alto Solimões, microrregião do sudoeste do estado do Amazonas, e em territórios fronteiriços do Peru e Colômbia.
É uma língua isolada, ou seja, não possui parentesco comprovado com nenhuma outra língua e, assim, forma a sua própria família (Família Tikuna). Também é uma língua tonal: altura da voz ao pronunciar uma sílaba muda completamente o significado da palavra.
Uma das características do povo Tikúna, ou Ticuna, é produção artística. São exemplos as máscaras cerimoniais, feitas de entrecasca de árvores, como a tururi (Bertholletia excelsa, popularmente castanheira). As máscaras representam seres míticos e animais e são usadas em rituais, como o Worecütchiga, que marca a transição das meninas para a vida adulta.
No século 20, os Tikúnas tiveram contato intenso e conflituoso com seringueiros, madeireiros e pescadores que passaram a abundar a região. Somente em 1990 que houve reconhecimento oficial da maioria de suas terras. Atualmente, o povo enfrenta o desafio de garantir sua sustentabilidade econômica e ambiental. Além das antigas ameaças, o povo enfrenta um novo inimigo. A região Alto Solimões e a tríplice fronteira sofre com o narcotráfico.
São 51.978 falantes, sendo 88% em Terras Indígenas, 9% em áreas urbanas e 4% localidades rurais.
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GUARANI KAIOWÁ
Considerada um dialeto, ou variante, da língua guarani, possui similaridade e inteligibilidade mútua com o guarani paraguaio, que, ao lado do espanhol, é língua oficial no Paraguai. Pertence ao tronco (conjunto de famílias) Tupi-Guarani.

Embora não tenha uma grafia unificada no Brasil, é crucial para a identidade e cultura do Guaranis Kaiowá, que reside no Mato Grosso do Sul, principalmente, no Paraná e em áreas vizinhas do Paraguai e Argentina. A língua é ensinada em escolas da região, além de ter com status de cooficial em algumas cidades brasileiras, como Amambai.
As primeiras reservas para o povo Guarani Kaiowá foram criadas na década de 1910 e somavam 18 mil hectares. No entanto, com a pressão de fazendeiros e grupos políticos, as áreas foram reduzidas, o que fez a população ou se mudar para o Paraguai ou ter que conviver em superlotação.
Por exemplo, a Reserva Indígena de Dourados abriga 20 mil indígenas numa área de apenas 3,5 mil hectares. A reserva também sofre com escassez hídrica.
Em 2009, moradores da reserva criaram o Brô Mc’s, considerado o primeiro grupo de rap formado por indígenas do Brasil. As músicas, que misturam português e guarani, abordam os desafios e demandas dos povos originários. Em 2025, o grupo se apresentou no Festival The Town, em São Paulo.
No Brasil, são 38.658 falantes, majoritariamente em Terras Indígenas (82%).
GUAJAJARA

É um dialeto da família linguística tupi-guarani, falada pelo povo Guajajara, que habita a margem oriental da Amazônia, principalmente no estado do Maranhão.
Os falantes chamam a língua de ze’egete (a fala boa), e ela é mutuamente inteligível com o Tembé, que é falado pelos indígenas Tembé, outro povo da etnia Guajajara que reside no Pará.
Os indígenas Guajajara se autodenominam Tenetehara, que significa “gente de verdade”. A personalidade mais famosa da etnia é Sonia Guajajara, atual Ministra dos Povos Indígenas do Brasil. Por sua vez, artista e ativista Zahy Tentehar, ganhadora do Prêmio Shell de Melhor Atriz em 2025, também pertente a etnia.
Também em 2025, indígenas e professores, estudantes e técnicos do Instituto Federal do Maranhão criaram o aplicativo Zane Ze’eg, que facilita o aprendizado e compreensão de termos e expressões da língua Guajajara.
De acordo com o Censo 2022, a língua Guajajara possui 29.212 falantes. Desses, 90% residem em Terras Indígenas.
Fotografia de abertura: povo Tikúna, por Michael Dantas.







