A doutora em química que ajuda mães nas tarefas domésticas

10/02/2026

Fundadora da Greenneat, fabricante de produtos de limpeza sustentáveis, participa de ecossistema de empresas lideradas por mulheres.

Há oito anos, a vida da paulistana Paula Galgano, 40, mudou drasticamente. Após mais de uma década ininterrupta de estudos acadêmicos — ela é doutora em química — e de jornadas de trabalho em grandes empresas do segmento, Paula decidiu dar um tempo na carreira. Em paralelo, saiu de São Paulo para viver em São José dos Campos, cidade interiorana a 100 quilômetros da capital. O motivo da mudança: viver intensamente a primeira infância do filho. 

Nos meses que se seguiram, o novo estilo de vida fez com que ela abandonasse a ideia de voltar a trabalhar no ritmo frenético das corporações. “Não queria deixar meu filho em casa para fazer algo que não via em propósito”, diz ela. 

Imersa nas tarefas domésticas, ela percebeu o quanto os produtos de limpeza duravam pouco, tinham embalagens grandes e contavam com muita água na composição. Somando o conhecimento técnico em química, a exigência de mãe e a necessidade de gerar renda, ela teve uma ideia de negócio.

Entre amamentação e sonecas do filho, Paula fundou a Greenneat, fabricante artesanal de produtos de limpeza sustentáveis.

Cinco anos depois, Greenneat desenvolve uma gama de produtos hipoalergênicos e derivados de fontes naturais e renováveis. Tudo é feito para não agredir o meio ambiente e a saúde de quem usa.

Os produtos mais vendidos são o sabão de coco em pasta, indicado para louças e limpeza geral de superfícies, e o branqueador de tecidos, usado para tirar manchas de roupas. O primeiro é feito à base vegetal e sem ingredientes corrosivos. O segundo é composto apenas por percarbonato e bicarbonato de sódio, e sem cloro. 

PRODUTOS DA GREENNEAT: amigáveis ao meio ambiente e para quem usa (foto: Lucas Lacaz Ruiz).

Outro diferencial dos produtos da Greenneat é a alta concentração. Eles são feitos para serem diluídos pelo próprio consumidor, no momento do uso. Além de ter um custo menor para quem compra, produtos com alto poder de diluição reduzem o uso de embalagens e, devido ao baixo volume, geram eficiência no transporte. Os benefícios estão diretamente atrelados à menor pegada de carbono (emissão de gases de efeito estufa causado por atividade humana). Ainda há outros detalhes que fazem a diferença.

“As fórmulas são minimalistas, sem componentes que só servem para gerar espuma ou deixar o produto mais ‘bonito’ na prateleira, como glitter ou corante. Quando há cor ou cheiro, é do próprio ingrediente, como aroma cítrico do óleo de laranja.”

Paula Galgano, fundadora da Greenneat.

DE MÃE PARA MÃE

Atualmente, os produtos da Greenneat estão disponíveis em marketplaces, como a loja digital vegana Atlantikos, Mercado Livre e Shoppe, e via revendas em lojas físicas de São José dos Campos. Porém, a maior parte do faturamento é proveniente do Whatsapp. 

Foi pelo aplicativo de mensagem que a Greenneat chegou até Mariana Martinson, 44. Orientadora parental, Mariana conheceu os produtos após Paula compartilhá-los num grupo de mães de São José dos Campos. O canal no WhatsApp é autogerido por mulheres que trocam experiências e reflexões sobre maternidade. 

Mariana conta que usa produtos naturais ao lavar as roupas de seu filho. A criança possui asma e laringite, que se tornam mais lesivas devido a processos alérgicos.

“Em uma investigação com uma pneumologista, descobrimos que o meu filho tem alergia a tintura azul usada em sabões (líquido e em pó) e em amaciantes de fabricantes convencionais.”

Mariana Martinson, mãe.

Há três anos, a mãe utiliza somente os produtos da Greenneat. Desde então, o quadro alérgico do filho se mantém controlado e o uso de bombinha para asma já não é mais necessário. 

MARIANA MARTISON: produtos naturais ao lavar as roupas do filho.

“Fiquei fã dos produtos”, diz Mariana. “Eles se encaixaram perfeitamente na minha família”.

Mariana é uma das mais de 170 pessoas que são clientes recorrentes da Greenneat. Hoje, a maior parte dos consumidores são mães e pessoas tutoras de animais domésticos. Para elas, o uso de produtos amigáveis ao meio ambiente evita riscos para quem vive no lar. 

Nesse sentido, cabe um alerta. Embora não seja um evento cotidiano estatisticamente massivo, há um risco real e documentado para mulheres, especialmente trabalhadoras domésticas, de asfixia por causa da inalação de gases tóxicos gerados pela mistura de produtos de limpeza convencionais, principalmente em locais fechados como banheiros. 

Apesar do apreço orgânico das mulheres, Paula não usa estratégias de marketing focadas no público feminino, pois o considera já muito bombardeado por propagandas. 

“Não quero contribuir com uma carga de culpa na vida das mães. Se você usa o sabão convencional com segurança e não te dá alergia, continue usando. Nós, mulheres, fazemos aquilo que cabe na nossa realidade.”

Paula Galgano, da Greenneat.

Além das clientes pessoas físicas, a Greenneat também vende para clínicas médicas, escolas, shoppings e restaurantes. Para este último segmento, recentemente foi iniciada, em formato de teste, um projeto em que a própria Greenneat coleta e trata o óleo usado nas cozinhas dos estabelecimentos. O intuito é transformar o resíduo em insumo para produção de uma linha de sabão focada em uso não doméstico.

“Caso os testes sejam bem sucedidos, será possível ajudar os restaurantes a fazer descarte correto de resíduos e implementar a economia circular em suas operações”, diz Paula. 

Embora o Brasil seja um dos maiores produtores de óleo de soja do mundo, dados compilados pela Greenneat indicam que apenas 1% de todo o óleo de fritura usado no país seja reciclado.

ELAS FAZEM A REDE DE NEGÓCIOS DELAS

O projeto de produtos de limpeza feitos a partir do óleo de fritura foi aprovado no Programa Centelha. Iniciativa liderada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em parceria com outras organizações de fomento, como Finep e Fapesp. O objetivo do programa é estimular a criação de empreendimentos inovadores e fomentar a cultura empreendedora em todas as regiões do país. 

As empresas selecionadas no Centelha recebem recursos financeiros por meio de subvenção econômica, bolsas de apoio técnico, capacitações, suporte técnico e acesso a uma rede de parceiros para transformar ideias em negócios de sucesso.

No caso da Greenneat, o repasse financeiro, o primeiro que a empresa recebeu, foi de R$ 150 mil. O valor é bem diferente do investimento inicial feito por Paula em 2020 — R$ 100 para produção de um lote teste. 

Em anos anteriores, a Greenneat contou com apoios não financeiros do Sebrae, Programa InovAtiva e da Rede Mulher Empreendedora (RME). Hoje, a Greenneat está incubada no Nexus, o Hub de Inovação do Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos. 

“Sempre trabalhei em pesquisa e fomento à inovação. Sabia que entrar em um ecossistema de inovação e obter subvenção econômica facilitariam o meu negócio”, diz Paula. 

Questionada sobre o nível de acesso à capital para empreendedoras mulheres de tecnologia, Paula afirma que, embora ainda estejam longe do ideal, há mais oportunidades do que na década passada. 

Uma das boas oportunidades é a Rede Mulher Empreendedora. Fundada em 2010, a iniciativa contribui com a inclusão econômica de mulheres em situação de vulnerabilidade social, proporcionando liberdade de decisão e independência financeira.

A RME foi criada pela empreendedora social Ana Fontes, após participar de um programa da Fundação Getúlio Vargas que ajudava mulheres à frente de pequenos negócios em gestão e liderança. 

“Em 2010, pesquisava ‘empreendedorismo feminino’ no Google e não aparecia nada. Eu precisava fazer algo para mudar aquela realidade.” 

Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora.

Dezesseis anos depois, a RME é um instituto que oferece educação, mentoria e acesso à capital para mulheres, e já impactou mais de 2 milhões de pessoas. 

ANA FONTES: inclusão econômica de mulheres em situação de vulnerabilidade social (foto: Ana Paula Silva).

Anualmente, a RME publica a pesquisa Mulheres Empreendedoras e seus Negócios, que traz um perfil das empreendedoras brasileiras naquele ano. A edição de 2025 revelou que a maioria das mulheres empreendedoras têm renda mensal média de R$2.400. 

Ana explica que o baixo rendimento está ligado à dificuldade no acesso à capital, o que inclui microcrédito, fundos de investimento e linhas de inovação, como as da FAPESP e FINEP. Há também menor acesso a conteúdo educacional e desenvolvimento de negócios devido à falta de tempo e de modelos que se encaixem na rotina delas.

“A dificuldade de empreender também se dá por causa da economia do cuidado: a mulher é responsável por filhos, idosos e casa, o que tira tempo precioso de foco nos negócios.”

Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora.

A economia do cuidado se mostra presente em outros pontos da pesquisa. A maioria das empreendedoras brasileiras são mães, sendo que uma em cada três entrevistadas era mãe solo. Também existe uma predominância de mulheres empreendedoras a partir dos 30 anos, com uma presença expressiva nas faixas entre 40 e 49 anos.

Para Ana, cerca de 70% das mulheres empreendedoras são “empurradas” a exercer a função por falta de alternativa, geralmente após a maternidade. Uma vez que os ambientes corporativos são hostis para mães de filhos pequenos e existe o estigma de que a mãe não terá tempo para o trabalho, o gatilho para empreender costuma ser a maternidade.

Apesar dos desafios, tanto Paula quanto Ana veem com otimismo o futuro de mulheres à frente de empresas que alinham inovação tecnológica e sustentabilidade. 

O propósito de impacto socioambiental não deve ser romantizado, mas é uma posição estratégica. Por exemplo, estimativas da Euromonitor apontam para um crescimento significativo no mercado mundial de limpeza ecológica, que poderá atingir faturamento global de 11,6 bilhões de dólares em 2029. 

No caso de Paula e da Greenneat, a maternidade tem se mostrado uma chama incandescente de motivação e produtividade. “Você não troca o tempo longe do seu filho por qualquer coisa”, diz ela. “O foco no trabalho se torna muito maior.”

Foto de abertura: Kalinca Maki.

Quem escreveu

Foto de Matheus Santino

Matheus Santino

Jornalista. Foi repórter da Agência Pública de Jornalismo Investigativo. Colaborador da Agência Mural de Jornalismo. Cocriador do site O Novo Getulino, focado em negritude e história da imprensa negra brasileira.

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