Esta reportagem contou com apoio do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.
A Transconvida nasceu em 2020 a partir de uma urgência concreta: a exclusão histórica de pessoas trans, travestis e não binárias do mercado de trabalho. Desde então, a organização social oferece para a comunidade cursos de formação profissional, apoio material e conexão com empresas.
Os números dão uma dimensão do impacto. Entre 2021 e 2025, mais de 900 cestas de alimentos foram distribuídas. Até novembro do ano passado, 103 pessoas passaram pelas turmas de qualificação profissional. Destas, 58 conseguiram emprego com apoio da Transconvida. Entre elas, 11 deixaram a prostituição após ingressarem no mercado formal de trabalho.
Somando atendimentos como apoio psicológico, orientação profissional e retificação de nome, mais de 700 pessoas já foram alcançadas.
Uma das pessoas é a fisioterapeuta Carolina Grejo. Moradora da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, ela trabalha há cinco anos na rede de clínicas de estética Espaçolaser. Hoje, Carolina é líder de equipe e realiza atendimentos especializados.
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A boa fase atual é bem diferente de quando Carolina ainda não havia conhecido a Transconvida. Após a transição de gênero, ela costumava encontrar portas fechadas nas empresas, mesmo com formação acadêmica e qualificação profissional.
“Ao procurar emprego, muitas vezes eu precisava provar o dobro para ser vista como metade”, lembra ela.
Página virada e com a experiência de quem viveu os dois lados da moeda, Carolina afirma que a inclusão real vai muito além de campanhas institucionais de diversidade.
Ao mesmo tempo, reconhece o quanto a rede de apoio e o fortalecimento profissional da Transconvida foi determinante para ampliar a segurança, visibilidade e permanência no mercado de trabalho.
“Inclusão é prática diária e compromisso contínuo. Se dá quando a empresa contrata, desenvolve, promove e escuta pessoas diversas.”
Carolina Grejo, fisioterapeuta.
Embora seja incontestável a importância da sua existência, a Transconvida sobreviveu nos últimos anos, majoritariamente, de doações de pessoas físicas e sem patrocínio fixo de organizações públicas ou privadas. A falta de perspectiva financeira, que colocava em risco a continuidade das atividades e o pagamento de despesas básicas, como o aluguel da sede, foi superada apenas recentemente.
No início de 2026, a Transconvida passou a receber apoio do EY Institute. Fundado em 2015 e braço de investimento social privado (ISP) da empresa de auditoria e consultoria EY, o instituto tem como missão ser um catalisador de transformação e aceleração da inclusão social, por meio da educação.
Diferente da filantropia tradicional, a destinação voluntária e planejada de recursos via Investimento Social Privado se dá de forma estratégica, com metas de longo prazo, monitoramento e foco no bem público.
Nesse contexto, o ISP tem assumido papel cada vez mais estratégico na promoção de direitos humanos e na redução de desigualdades. Para organizações que atuam com diversidade sexual e de gênero, o apoio estruturado das empresas deixou de ser complementar e passou a ser decisivo para a continuidade de projetos de impacto.

De acordo com Maithê Paris, líder em Diversidade, Equidade e Inclusão e Responsabilidade Corporativa da EY para a América Latina, o investimento social privado é tratado como parte central da estratégia da empresa. Em paralelo, Direitos Humanos, ESG e diversidade estruturam tanto a atuação interna quanto os investimentos externos da companhia.
“Entendemos que uma empresa só cumpre seu papel quando contribui diretamente para transformar a sociedade de maneira positiva.”
Maithê Paris, líder em Diversidade, Equidade e Inclusão e Responsabilidade Corporativa da EY para a América Latina.
FILANTROPIA COM GOVERNANÇA E IMPACTO REAL
A área de investimento social privado da EY Brasil foi estruturada ainda em 1990. Ações pontuais deram espaço para iniciativas alinhadas aos pilares globais de responsabilidade corporativa, com foco em educação, empregabilidade, equidade e fortalecimento de comunidades.
Um dos marcos dessa jornada é o apoio à ABCD Nossa Casa, que atua na proteção e inclusão de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Há 25 anos, a organização recebe apoio da EY Brasil. Em 2025, o repasse foi de R$ 400 mil.
Outro ponto de inflexão foi a criação do já citado EY Institute. O instituto representa a consolidação de uma estrutura com dedicação exclusiva ao impacto social e conta com uma base de 1.900 voluntários.
Os recursos destinados às iniciativas sociais vêm de duas fontes principais: aporte direto da EY, por meio de verba institucional, e investimentos realizados via leis de incentivo fiscal. Em 2024, a EY investiu R$ 5,7 milhões por meio de incentivos fiscais federais, direcionados principalmente a projetos enquadrados na Lei de Incentivo à Cultura e na Lei de Incentivo ao Esporte.
No mesmo ano, metade do público atendido se autodeclarou preto ou pardo, evidenciando a interseção entre desigualdade racial e exclusão socioeconômica. Vale lembrar que, na região metropolitana de São Paulo, a renda média mensal domiciliar dos 10% mais pobres é 40 vezes menor do que dos 10% mais ricos, majoritariamente brancos, de acordo com o Seade.

No campo da governança, a seleção de projetos da EY passa por um comitê multidisciplinar interno que avalia aderência à estratégia ESG da empresa; alinhamento com os pilares de tecnologia, diversidade e inclusão; capacidade de gestão da organização proponente e potencial de impacto mensurável.
Não há número mínimo ou máximo de projetos apoiados por ano. Porém a seleção depende da capacidade de atuação estratégica e acompanhamento efetivo.
“Tratamos o investimento social com o mesmo rigor estratégico que aplicamos aos nossos projetos corporativos”, afirma Maithê.
Nesse sentido, um destaque é o EY Empodera. O programa foi criado pelo EY Institute em parceria com a própria EY, com foco na preparação de pessoas em situação de vulnerabilidade social para o mercado de trabalho. Com duração de quatro meses, o programa oferece aulas online em tecnologia, negócios e habilidades comportamentais.
Desde 2020, 1.260 pessoas foram certificadas no EY Empodera. Dessas, 38% conseguiram empregos, sendo que mais de 100 contratações foram realizadas pela própria EY Brasil.
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OS GARGALO NO APOIO À PAUTA LGBTQIAPN+
Desde 2009, a organização estadunidense Global Philanthropy Project (GPP) atua para ampliar o apoio filantrópico ao movimento LGBTI+ no Sul e no Leste Global. Em março de 2025, a organização emitiu um comunicado: após dez anos de crescimento constante, o financiamento para as comunidades LGBTI+ e para os movimentos inclusivos por justiça de gênero está em crise.
“Diversas fundações que historicamente apoiaram movimentos LGBTI+ já reduziram ou planejam reduzir drasticamente seus compromissos”, afirmou a nota da GPP.
A organização estimou em 105 milhões de dólares os cortes previstos no orçamento de assistência internacional à causa. O montante representa 27% do financiamento total destinado às regiões do Sul e Leste Global.
A queda acentuada se dá principalmente por causa dos cortes de agências governamentais estadunidenses, que repassavam recursos para organizações internacionais e para entidades com atuação em nível local.
Aqui, no Brasil, uma das organizações afetadas foi o Instituto Mais Diversidade, que promove o trabalho digno e a geração de renda para pessoas LGBTQIA+. Por dois anos, o instituto obteve financiamento da Organização Internacional do Trabalho, agência da ONU que, por sua vez, recebia apoio financeiro do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
De acordo com Helen Faquinetti (ao centro, na foto abaixo), diretora executiva do Instituto Mais Diversidade, antes do início do governo de Donald Trump, o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos também planejava realizar um investimento significativo no Brasil voltado à pauta de emprego para pessoas LGBTQIA+. O investimento foi encerrado antes mesmo de começar.

Uma vez que, no Brasil, as fontes internacionais representavam uma parcela relevante dos financiamentos voltados à população LGBTI+, o cenário atual do país é bem delicado. Para piorar a situação, Helen cita mais questões.
Primeiro, a pauta de direitos humanos sempre esteve à margem do investimento social privado estruturado no país. Outro problema é que há pouquíssimas organizações prol LGBTI+ com capacidade institucional de buscar recursos de fontes estruturadas, como de agências e fundos governamentais e internacionais. Ainda assim, aquelas que têm capacidade também sofrem com a escassez.
“Quando falamos de direitos humanos, já há escassez generalizada de recursos. Especificamente para a população LGBTQIAPN+, vemos que é uma sociedade civil organizada bastante subfinanciada.”
Helen Faquinetti, diretora executiva do Instituto Mais Diversidade.
Por fim, Helen destaca um movimento de retração também por parte das empresas. Muitas companhias passaram a evitar a exposição pública associada à causa LGBTI+, seja por medo de retaliação ou porque decidiram deliberadamente abandonar a pauta.
Um exemplo é a queda na participação na pesquisa Melhores Empresas Para Pessoas LGBTQIA+ Trabalharem. Realizada pelo Instituto Mais Diversidade e Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, a pesquisa investiga como as empresas atuam na inclusão LGBTQIA+ no local de trabalho. São abordados desde adoção de políticas de não discriminação e treinamento para funcionários e fornecedores até participação em atividades públicas de apoio à causa.
“De um universo de 70 empresas que participaram da pesquisa sobre inclusão LGBTI+ no trabalho em 2024, 20 deixaram de participar no ano passado”, afirma ela.
Especificamente em relação a pesquisa, houve um segundo baque, ligado à já citada retração de recursos internacionais. Até 2024, a pesquisa tinha apoio da HRC Foundation. No entanto, a organização estadunidense encerrou a parceria. Para realizar a edição 2026 da pesquisa, o Instituto Mais Diversidade está em busca de empresas patrocinadoras (saiba mais neste link).
Em todos os casos, a consequência do cenário é o enfraquecimento da sociedade civil organizada. Sem investimento social privado consistente por parte das empresas, muitas organizações que atuam na linha de frente pelos Direitos Humanos deixam de existir, simplesmente. E quando essas organizações fecham, quem mais perde são as pessoas que dependem desses serviços para acessar direitos básicos.







