Entre março e abril, a Emerge Mag realizou uma série de seis oficinas com estudantes de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, com foco em justiça climática e na produção de reportagens de jornalismo de soluções em nível local.
Com raízes na década de 1980, a Justiça Climática tem ganhado força ao conectar desigualdades sociais e raciais aos impactos das mudanças climáticas. Nesse sentido, o conceito reconhece que populações periféricas e grupos sub-representados de países do Sul Global — que inclui o Brasil — têm menos recursos para se proteger e são os que mais sofrem com as consequências do aquecimento global, mesmo sendo os que menos contribuem para as emissões de gases de efeito estufa (GEEs).
Na outra ponta, países ricos, grandes indústrias, o agronegócio e famílias de alta renda — principais responsáveis pela crise climática devido ao alto consumo de recursos naturais — são menos impactados por desastres como secas extremas e alagamentos.
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As oficinas da Emerge na universidade aconteceram em três campi (Butantã, Mooca e Paulista), abrangendo diferentes regiões da cidade de São Paulo, e incluíram duas visitas a cada unidade.
Na primeira visita, foi apresentado o histórico de atuação, a linha editorial e o impacto social da Emerge, além de uma introdução à justiça climática. Os estudantes também foram convidados a responder a uma pesquisa sobre seus conhecimentos a respeito do tema.
Na sequência, os alunos se dividiram em grupos para propor pautas sobre como a justiça climática tem sido abordada por profissionais criativos e ativistas das periferias de São Paulo. Ao todo, cerca de 60 alunos participaram.


PERFIL DE CONSUMO DE NOTÍCIAS E HÁBITOS DE FUTUROS JORNALISTAS
A segunda rodada de visitas nos campi foi dividida em três partes. Primeiro, foram apresentados os resultados da pesquisa, que traçou um panorama sobre o perfil dos futuros jornalistas e seus hábitos de consumo de informação.
Os dados mostram maioria feminina nas salas: 61,5% de mulheres cis, 34,6% de homens cis e 3,8% de pessoas não binárias. Metade dos estudantes já faz estágio e, em relação à idade, metade tem entre 19 e 21 anos.
Quanto aos hábitos de consumo de informação, 96% afirmaram que o Instagram está entre os três principais meios de acesso no dia a dia; o mesmo percentual indicou o celular como principal dispositivo. Por outro lado, redes sociais como X, YouTube e TikTok ficaram atrás de sites de notícias, TV aberta e TV por assinatura como fontes de informação.
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Os estudantes demonstram preferência por notícias nacionais e internacionais (73,1%) e por temas de política e atualidades (65,4%). Em contrapartida, a editoria de meio ambiente e sustentabilidade — mais ligada à justiça climática — apresenta baixa procura (19,2%).
Entre as principais dificuldades para se informar, destacam-se a falta de tempo (65,4%), o excesso de informação (42,3%) e a dificuldade de identificar conteúdos confiáveis (42,3%).

Para Vicente Darde, professor das disciplinas Concepções da Notícia e do Discurso Jornalístico no campus da Mooca, jornalista e doutor em Comunicação, a pesquisa foi importante para compreender o perfil profissional que a universidade está formando.
“Os estudantes dizem que falta tempo para se informar. No entanto, manter-se informado faz parte da rotina da profissão de jornalista.”
Vicente Darde, professor e doutor em comunicação.
Outro ponto de atenção destacado por Vicente é o baixo conhecimento dos alunos sobre sustentabilidade: 38% nunca tinham ouvido falar em justiça climática e 69% não costumam ler notícias sobre mudanças climáticas. Além disso, 77% não conhecem veículos jornalísticos especializados no tema. Apenas 36% souberam dizer se há, em suas comunidades, alguma iniciativa voltada ao combate às mudanças climáticas.
Para o professor, esse cenário reforça a necessidade de ampliar o debate em sala de aula.
“Não é apenas uma questão climática. O clima afeta a economia, a política e o convívio social de um povo”, afirma Vicente. “Precisamos trazer esse debate, cada vez mais, para dentro das universidades.”


OFICINAS AMPLIAM VISÃO SOBRE JUSTIÇA CLIMÁTICA
No segundo ciclo de encontros com os estudantes, eu, Matheus Santino, repórter da Emerge, ministrei oficinas sobre o que é Justiça Climática. Foram explicados os conceitos como Racismo Ambiental, Adaptação Climática, Resiliência Climática, Zonas de Sacrifício, Colonialismo Verde, entre outros. Posteriormente, foram debatidas reportagens de veículos jornalísticos independentes que tem a cobertura climática como um dos pilares da linha editorial.
Pedro Pozzi, 19 anos, aluno da unidade da Mooca, comentou que a oficina trouxe conteúdos, até então inéditos, sobre jornalismo ambiental.
Estudante do campus Paulista, Sarah Luz, 19, destacou a importância de integrar as pautas com a realidade das periferias da cidade de São Paulo. Ela citou que já conhecia o conceito de Racismo Ambiental, por ter sido tema de seus estudos para o vestibular, mas vários termos lhe foram novos.
“Me chamou atenção o fato de como as comunidades vulneráveis são as que mais sofrem com as consequências das mudanças climáticas”
Sarah Luz, estudante de jornalismo.
Na sequência, os alunos debateram pautas, baseadas em jornalismo de soluções, sobre como como iniciativas criativas, criadas por pessoas das periferias da cidade, estão amenizando os efeitos das mudanças climáticas em nível local. Ao término das oficinas, os alunos aumentaram a compreensão sobre Justiça Climática e conseguiram identificar movimentos em bairros periféricos que melhoram a vida da população com soluções originais.
Nos próximos meses, os alunos vão produzir reportagens com base nas pautas sugeridas. Os melhores trabalhos serão publicados pela Emerge a partir do mês de agosto. Nesse sentido, o programa será uma oportunidade para muitos alunos publicarem pela primeira vez reportagens autorais em um veículo profissional.

FORMAÇÃO FORTALECE COBERTURA CLIMÁTICA PERIFÉRICA
A ação na Universidade São Judas Tadeu foi um desdobramento da participação da Emerge no programa de capacitação de jornalistas Justiça Território, idealizado pela organização de distribuição de conteúdo de jornalismo periférico Território da Notícia, com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS).
O programa consistiu em três encontros formativos. Um deles foi ministrado por Thaynah Gutierrez, assessora internacional de clima e racismo ambiental do Geledés Instituto da Mulher Negra. Além de apresentar os conceitos posteriormente abordados nas oficinas com os alunos, Thaynah explicou o que é o regime climático internacional — conjunto de tratados, instituições e normas, estruturado principalmente pela ONU, que propõe a ação conjunta dos Estados diante das mudanças climáticas, abrangendo mitigação (redução de GEEs) e adaptação.
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Os outros encontros do Justiça Território foram conduzidos por Thiago Borges, jornalista, gerente de produtos e cofundador do Território da Notícia e do veículo independente Periferia em Movimento; e por Magno Ozzir, presidente do Conselho da Diversidade de Itapecerica da Serra, que atua na interseção entre tecnologia, gestão, cultura e participação social.
Nas próximas semanas, o Planeta Território realizará um hackathon para discutir os resultados das ações e elaborar soluções voltadas às demandas de informação dos territórios atendidos.

Fotos: Kalinca Maki.







