Recentemente, a empresa brasileira de eletrodomésticos Britânia lançou uma parafusadeira na cor rosa. A ferramenta é apresentada pela empresa como uma forma de dialogar com mulheres interessadas em atividades de manutenção doméstica e no movimento “Faça você mesma”. O produto integra a linha Pink Lovers, inicialmente focada em itens de cozinha e limpeza.
A parafusadeira rosa (modelo BPFE12R) não apresenta diferenças técnicas relevantes em relação a outros modelos já comercializados pela fabricante. Por exemplo, a tradicional parafusadeira na cor verde (modelo BPFE12M) possui a mesma bateria, mandril, 23 posições de torque e controle eletrônico de velocidade.
As únicas diferenças perceptíveis entre a rosa e a verde são as dimensões, a primeira é ligeiramente menor, e os acessórios. A pink acompanha alicate, chaves de fenda e philips, trena, martelo e estilete — um kit ferramentas similar de marca genérica pode ser adquirido por cerca de R$ 40 na internet. Por sua vez, o modelo verde possui mais brocas e bits de chaves.
Diferenças técnicas analisadas, as principais singularidades são mesmo a cor e o preço. A versão rosa custa 30% a mais, uma diferença de R$ 70. E é na questão preço que começa o problema.
No Brasil, mesmo sendo mais escolarizadas do que os homens, as mulheres recebem cerca de 20% a menos do que eles, de acordo com o IBGE. O dado é corroborado pelo 4º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, lançado em novembro pelo Ministério do Trabalho e Emprego em parceria com o Ministério das Mulheres: a diferença salarial entre os gêneros é de 21,2%, e vem aumentando desde o começo da série histórica, iniciada em março de 2024.
Para as mulheres negras, a realidade é ainda pior: elas recebem 46% menos do que um homem branco.
Também é importante frisar que o Relatório Global sobre a Desigualdade de Gênero 2025, do Fórum Econômico Mundial, posiciona o Brasil na 72ª posição entre 148 economias mundiais. O índice avalia o estado atual e a evolução da paridade de gênero dos países em quatro dimensões: Participação e Oportunidades Econômicas, Nível de Escolaridade, Saúde e Sobrevivência e Empoderamento Político.

A TAXA ROSA
No cenário mundial, há décadas a diferença de preços de produtos rosa é alvo de questionamentos. O conceito foi abordado pela primeira vez nos EUA na década de 1990. No Brasil, um dos primeiros estudos foi lançado em 2017, um ano após o lançamento da linha Pink Lovers pela Britânia. Realizado pela universidade ESPM, em parceria com a consultoria InSearch e coordenação do antropólogo Fabio Mariano.
Naquela época, o estudo Taxa Rosa e a Construção do Gênero Feminino no Consumo identificou que produtos versões “femininas” custam em média 12,3% mais do que os similares de cor neutra ou voltados para os homens. Foram analisadas cinco categorias: corte de cabelo (27% mais caro para elas), brinquedos (+26%), vestuário para bebê e infantil (+23%), vestuário adulto (+17%) e produtos de higiene (+4%).
Já em 2020, uma pesquisa da FGV analisou 138 itens em redes de varejo. Foi identificado que 28% dos produtos tinham valores maiores nas versões destinadas ao público feminino. As camisetas da categoria vestuário adulto apresentaram a maior diferença chegando a custar 54% a mais nas versões femininas.
Detalhe importante: a diferença de preço não se dava por causa de diferenciação técnica ou local de venda. A diferença era somente pelo produto conter elementos associados ao gênero feminino, como a cor rosa e a redação publicitária voltada para mulheres.
A Taxa Rosa, como foi batizada o fenômeno, pode ser entendida como uma violação do Artigo 5º da Constituição Federal, que determina que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”.
O mesmo Artigo 5º também aborda a Isonomia Tributária, que garante igualdade de tratamento fiscal, proibindo distinções arbitrárias entre contribuintes em situações equivalentes. Traduzindo: o valor do imposto cobrado não pode variar de acordo com quem compra o produto. No caso da Taxa Rosa, quando a mulher paga mais pelo produto, consequentemente, está pagando mais impostos — ainda mais no Brasil, onde a carga tributária incide principalmente no consumo.
Em tema é tão sério que, em 2020, o estudo da Reforma Tributária e Desigualdade de Gênero, da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, usou o conceito de Taxa Rosa para analisar como sistemas de arrecadação e despesa do Estado brasileiro contribuem para sustentar e até intensificar a desigualdade de gênero.
Na mesma linha de pesquisa, está o livro Política fiscal e gênero, de autoria da jurista Luciana Grassano Melo, da Universidade Federal de Pernambuco.
“As relações sociais e familiares patriarcais estão refletidas no ordenamento jurídico. E isso também se encontra expresso no sistema tributário”, afirmou Luciana numa reportagem da Revista Pesquisa, da Fapesp, à época do lançamento do livro, em 2020.
No final do dia, as mulheres trabalham mais — porque fazem mais trabalho doméstico e de cuidado não remunerado —, ganham menos e pagam mais pelos mesmos produtos.

MENINAS DEVEM USAR ROSA
Estereótipos de gênero são crenças generalistas e simplificadas sobre as características, papéis e comportamentos esperados de homens e mulheres — e outros gêneros, que são socialmente construídos e impostos, principalmente pela mídia, incluindo a publicidade.
São exemplos de estereótipos afirmar que mulheres são mais emotivas, dóceis, cuidadoras e ligadas ao lar e a aparência. Por não refletirem a individualidade, os estereótipos, na prática, nos fazem julgar e generalizar as pessoas. Por exemplo, no trabalho, mulheres assertivas são vistas como “mandonas”, enquanto a mesma característica, quando presente em homens, é interpretada como sinal de liderança.
Dessa forma, os estereótipos determinam o que é “lugar de mulher”, e aquelas que rompem a norma se tornam mais suscetíveis à violência.
Nesse sentido, há poucos dias, o Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgou um dado impressionante: o Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025. Foram 1.470 casos; quatro mulheres assassinadas por dia. Os números devem crescer mais, pois os dados de dezembro do estado de São Paulo ainda não foram incluídos.
Voltando à Taxa Rosa, não existe no Brasil uma legislação específica que a proíba a prática. O mais próximo é uma diretriz da Secretaria Nacional do Consumidor, de 2023. A nota reforça a defesa da igualdade de gênero nas relações de consumo, a promoção de uma comunicação não sexista e a vedação de práticas discriminatórias.
Ainda assim, a ausência de mecanismos legais objetivos e de fiscalização faz com que estratégias de mercado continuem a reproduzir estereótipos e desigualdades históricas e a colocar sobre as mulheres mais um ônus econômico.
Por sua vez, numa reportagem da Época Negócios publicada no último dia 19, Cristiane Clausen, Diretora Executiva da Britânia, afirmou que a aceitação dos produtos da linha Pink Lovers tem sido positiva e consistente e que a parafusadeira foi um dos produtos mais vendidos em dezembro no site oficial da companhia, respondendo por 60% das vendas da categoria de ferramentas no período.
Aparentemente, a cor do dinheiro é a que mais importa.
Foto de abertura: divulgação.







