Inteligência Artificial para reduzir o desperdício de água

02/03/2026

No país que joga fora boa parte da água tratada, tecnologia de detecção de vazamentos reduz perdas e pode frear as mudanças climáticas.

Enquanto você lê esta reportagem, água encanada a caminho da sua residência está sendo desperdiçada. E não é pouco. Hoje, mais de 40% da água tratada se perde no Brasil, principalmente em vazamentos nas tubulações.

Com o volume desperdiçado anualmente (3 bilhões de metros cúbicos) daria para abastecer as 17,2 milhões de pessoas que vivem em comunidades vulneráveis no país, por quase dois anos. Os dados são do Estudo de Perdas de Água 2025, do Instituto Trata Brasil.

Num cenário de mudanças climáticas, o desperdício é gota que faltava. A necessidade de captar mais água do que a demanda real aumenta a pressão sobre rios, reduz a disponibilidade hídrica e amplia os custos para pessoas e empresas.

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Na linha de frente para mitigar o problema há mulheres e as suas tecnologias. Uma delas é a administradora Marília Lara, 40. Ela é cofundadora da Stattus4, empresa que digitaliza o caminho da água em diversas cidades brasileiras.

MARÍLIA LARA, DA STATTUS4: equipamento detecta ruído em tubulações para revelar vazamentos (foto: Kalinca Maki).

Uma das soluções da Stattus4 é um sistema de gestão de perdas. São usados sensores, dados e inteligência artificial para acessar informações precisas da rede de distribuição e identificar pontos de vazamento.

O sistema é alimentado por dispositivos criados pela própria Stattus4. Um deles é fixado em hidrômetros para leitura remota de pressão e ruído.

Outro dispositivo é móvel e consiste numa haste metálica que, em contato com a tubulação hidráulica, capta o ruído causado pela passagem da água.

Os dados são transmitidos para uma inteligência artificial capaz de indicar com precisão se aquele som é, de fato, de um vazamento.

“Temos o maior banco de dados de ruído de tubulação do mundo, com 8,5 milhões de amostras. A inteligência artificial aprende com os dados e se torna cada vez mais precisa para indicar vazamentos.”

Marília Lara, cofundadora da Stattus4.

O sistema da Stattus4 também pode ser alimentado com sensores de outras empresas e via acesso a dados brutos das próprias companhias de saneamento. Independentemente da fonte, a inteligência artificial da Stattus4 é capaz de criar mapas urbanos que revelam onde há vazamentos nos bairros.

De acordo com Marília, o sistema não dispensa o trabalho do geofonista, o técnico especializado em encontrar vazamentos. A tecnologia facilita o processo. Em vez do trabalhador gastar sola de sapato andando de rua em rua, o sistema indica os locais exatos onde há problemas.

“O método tradicional leva, em média, 180 dias para achar o vazamento”, diz Marilia. “A IA da Stattus4 faz o mesmo em até 5 dias.”

JORNADA DA ÁGUA: mulheres são as mais impactadas pela escassez hídrica (foto: Arnaldo Sete/Projeto Colabora).

FALTA DE SANEAMENTO É UM PROBLEMA TRANSVERSAL QUE AFETA MAIS AS MULHERES

Embora o Brasil detenha 12% de toda a água doce do mundo, há 34 milhões de brasileiros que ainda não tem acesso à água tratada. Soma-se ao cenário regiões do país que sofrem com secas prolongadas, ondas de calor e alteração no regime de chuvas. O resultado é tendência de agravamento na escassez hídrica.

Para Marília, a falta de água tratada afeta principalmente as mulheres. O resultado é maior precariedade no trabalho e na educação delas. 

“Culturalmente, são as mulheres que costumam ser as responsáveis por buscar água e cuidar de familiares adoecidos por causa do líquido contaminado.”

Marília Lara, da Stattus4.

No lado aposto, há cidade brasileiras que são referência em infraestrutura de água potável. Uma delas é Jundiaí, a 57 quilômetros de São Paulo. Com pouco mais de 440 mil habitantes, a cidade subiu 13 posições no ranking do Instituto Trata Brasil. Hoje, ocupa a 11ª entre as melhores em saneamento.

De acordo com DAE Jundiaí, concessionária que atua na cidade, 99,65% da população urbana e rural é atendida com redes de água. Já as redes de esgotam estão disponíveis para 98,81%.

Desde julho de 2024, a DAE Jundiaí é cliente da Stattus4. De acordo com Gilberto Gonçalves, engenheiro da DAE, a equipe da empresa foi treinada para instalar os dispositivos em campo e usar a plataforma de monitoramento.

“O sistema gera alertas de anomalias nos parâmetros de pressão e vazão e a equipe de gestão de perdas direciona trabalhadores para confirmação em campo e reparo.”

Gilberto Gonçalves, engenheiro da DAE Jundiaí.

Gilberto diz que ainda não é possível mensurar os resultados das soluções da Stattus4 no município. Mas ele afirma que a tecnologia é essencial na prevenção de colapsos devido aos vazamentos e ações corretivas. Segundo engenheiro, os consumidores já conseguem sentir os efeitos da tecnologia por causa da melhora na disponibilidade hídrica.

Além da DAE Jundiaí, a Stattus4 tem como clientes outras concessionárias. Entre elas, a Copasa, que atende 585 municípios em Minas Gerais, e a Rio+ Saneamento, com atuação na zona oeste da capital fluminense e outras 17 cidades do estado.

Num projeto realizado com a concessionária Águas de Niterói, na região Metropolitana do Rio de Janeiro, a Stattus4 identificou 2.563 vazamentos. De acordo com estimativas, foi possível recuperar mais de 27 mil m³ de água por dia.

Outra iniciativa aconteceu em duas regiões da cidade de Curitiba, com a concessionária Sanepar. Em seis meses, o sistema da Stattus4 reduziu as perdas em 70%.

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Além da água, a economia se dá também em energia elétrica e emissão de gás carbônico (CO2), o principal contribuidor para o aquecimento global. Mais eficiente, a rede de distribuição consome menos energia e gera menos resíduos.

Nesse sentido, o Relatório de Impacto e ESG 2024 da Stattus4 aponta que impacto socioambiental positivo gerado pela empresa é transversal. Por exemplo, de acordo com estimativas da OMS, a cada R$ 1 investido em saneamento são economizados R$ 4 em saúde pública. O ganho se dá na prevenção de doenças transmitidas pela água.

Da porta para dentro, um dos pilares da Stattus4 é a diversidade. As mulheres e pessoas negras ocupam, respectivamente, 62,5% e 37,5% dos cargos de liderança. A empresa também mapeou os funcionários autodeclarados LGBTQIA+, que representam 11% da equipe.

DIVERSIDADE DA PORTA PARA DENTRO: mulheres são maioria na liderança da Stattus4 (foto: Kalinca Maki).

O PODER DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE FOMENTO À INOVAÇÃO

A Stattus4 é um caso de sucesso das políticas públicos de financiamento à inovação. A história teve início em 2015. Naquele ano, Marília e o marido, Antônio Oliveira, 45, engenheiro eletrônico, matemático e cofundador da Stattus4, trabalhavam na LDE, empresa de projetos e engenharia eletrônica.

O casal, então, foi contratado para desenvolver um geofone eletrônico, equipamento usado para ouvir ruídos em tubulações. Em campo, Antônio notou que a análise dependia muito da escuta humana. Em locais com barulho, o trabalho era praticamente inviável.

Na época, Antônio já estudava inteligência artificial. Por sua vez, Marília, com experiência em administração de empresas, desejava trabalhar com impacto socioambiental positivo. Juntos, decidiram fundar a empresa.

O capital inicial da empresa veio da venda residência da família, em São Paulo. Na sequência, se mudaram para Sorocaba, no interior paulista, cidade natal de Antônio.

“Sorocaba tem um custo de vida menor do que São Paulo e abriga um parque tecnológico que apoia empreendedores”, diz Marília. “Somado o apoio familiar, a cidade foi ideal para nós.”

Logo no ano seguinte, a Stattus4 participou do InovAtiva Brasil,  um dos maiores programas de aceleração de startups da América Latina, totalmente gratuito e focado em validar e tracionar negócios inovadores de transformação digital da indústria. O programa é realizado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Sebrae.

No mesmo ano, Stattus4 recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por meio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) – Fase 1.

Dez anos depois, a empresa soma R$ 17 milhões captados, entre investimentos, prêmios e subsídios, e tem 40 funcionários.

Assim como a água, que a ciência e a ousadia brasileira continuem sendo fonte de vida para os brasileiros.

Foto de abertura: Sabesp.

Quem escreveu

Foto de Matheus Santino

Matheus Santino

Repórter com cinco anos de experiência em jornalismo investigativo, cultural e local. Em 2021, foi aluno do Curso de Jornalismo Ágil da Emerge. Posteriormente, trabalhou na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, Agência Mural de Jornalismo e O Estado de São Paulo. Cocriador do projeto editorial O Novo Getulino, focado em negritude e história da imprensa negra brasileira.

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