A cidade de Santos, no litoral paulista, possui a maior favela sobre águas da América Latina. A comunidade Dique da Vila Gilda é um emaranhado de casas de palafitas, que se estende por quase quatro quilômetros de manguezais. São 3,5 mil famílias, que vivem às margens do Rio dos Bugres, o segundo mais poluído por microplásticos do mundo.
Além dos desafios típicos de assentamentos precários, como falta de rede de esgoto e maior risco de incêndios, a comunidade sofre com a força da água. Por baixo, há a instabilidade causada pela maré alta do rio. Acima, estão as chuvas.
Em agosto de 2025, em apenas 6 horas choveu 119,2 mm em Santos. O volume representou quase o total esperado para o mês (122,2 mm). Em anos anteriores, o cenário já havia sido caótico. Entre 2021 e 2024, a cidade registrou 49 inundações, enchentes e ressacas, de acordo com a Secretaria Municipal de Segurança e da Defesa Civil de Santos.
Se dependesse apenas de Camila Santos, 35, e Ykaro Andrade, 32, a situação já estaria sendo mitigada. O casal de engenheiros — ela de produção, ele de software —, desenvolveu o Aqualink, sistema tecnológico que combina análise de dados, automação e comunicação instantânea. O objetivo é facilitar o escoamento de águas e reduzir o impacto nas comunidades.
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O Aqualink utiliza diferentes bases de dados. É possível coletar dados meteorológicos, de histórico de alagamentos e de mapas e ocupação urbana. Via sensores instalados nas comunidades é possível ter, em tempo real, quantidade de chuva, nível de água e fluxo de drenagem.
Há também dados com origem na vivência e inteligência coletiva dos próprios moradores, como pontos de alagamento e acúmulo de lixo.
“Tecnologias que consideram a perspectiva da própria comunidade tendem a solucionar melhor os problemas locais.”
Camila Santos, idealizadora do Aqualink.
Soma-se ao conjunto de dados sistemas de inteligência artificial que geram informações preditivas extremamente úteis. É possível prever a probabilidade de alagamentos, o tempo estimado até o evento e a sua intensidade, as áreas atingidas e o impacto na mobilidade dos moradores.
Via Whatsapp, SMS e painéis luminosos, os moradores são informados e têm mais chances de evitar deslocamentos de riscos, proteger bens e buscar abrigos.

Integradas, as informações chegam até a Defesa Civil, que tem mais tempo para planejar ações de mitigação e remediação. Os dados também podem ser utilizados para automatizar a abertura e fechamento de comportas que regulam o fluxo de água em canais urbanos, rios, reservatórios (piscinões) e sistemas de drenagem.
“Hoje, o sistema de comportadas utilizado em Santos é manual e acionado somente quando o impacto dos eventos climáticos já começou a ser sentido pela população”, diz Camila.
Tecnologias como o Aqualink podem reduzir diferentes transtornos, de perda de vidas a custos econômicos. Interrupções de vias, paralisação do transporte público e congestionamento de veículos causam perda de produtividade nas cidades.
Um levantamento feito em janeiro pela Confederação Nacional de Municípios apontou que as chuvas de verão causam prejuízos de R$ 450 milhões e afetam mais de 880 mil pessoas. A análise foi realizada em 244 municípios que sofrem com inundações, enxurradas, alagamentos e deslizamentos.
No entanto, na história do Aqualink, há um grande “porém”. Hoje, a solução ainda é um protótipo. Os testes mais recentes indicam a viabilidade de prever alagamentos e gerar alertas com até duas horas de antecedência. A próxima etapa será implementar um piloto no território para validar a eficiência operacional do sistema.

UMA SOLUÇÃO SEM “MATCH” COM O CAPITAL
O Aqualink foi concebido durante um uma maratona de inovação (hackathon) focado em soluções ambientais, sociais e de governança (da sigla em inglês ESG). O evento foi realizado pela Autoridade Portuária e Parque Tecnológico de Santos, sendo que este último é onde a startup está incubada atualmente.
Nos últimos meses, Camila e Ykaro têm buscado incessantemente recursos financeiros para avançar com o desenvolvimento do Aqualink. No entanto, por enquanto, só obtiveram apoio moral e mentorias.
Camila diz que o principal desafio tem sido a falta de visão sobre a urgência da adaptação climática. Para ela, o setor corporativo foca em mitigação reativa e não entende como o clima impacta na economia da região.
“Em comparação com o setor corporativo, o governo compreende melhor a dor do território, mas não tem recurso ou tempo para olhar para as pessoas das palafitas”, diz ela. “Há um ponto cego ali”.
Para Frederico von Ah, consultor de estratégia e inovação, o conceito de ESG ganhou força durante a pandemia. A Covid-19 escancarou a enorme desigualdade social no mundo. No Brasil, o cenário foi ainda pior, com imagens de pessoas disputando ossos para comer sendo exibidas em rede nacional.
O cenário de calamidade pública fez com que os consumidores se tornassem mais conscientes das mazelas da sociedade, e exigissem mais práticas de impacto social positivo das empresas.
No entanto, o foco mudou. Com as guerras na Ucrânia e Oriente Médio, o fluxo global de investimentos se desestabilizou. Desde então, os investidores estão ainda menos propensos à riscos. Um efeito prático é o apreço por ativos mais estáveis, como o ouro. O metal teve valorização histórica em 2025.
“Os governos enfraqueceram suas metas de sustentabilidade e, nas empresas, o ESG perdeu um pouco do brilho. O ritmo e o volume dos investimentos têm sido menores”.
Frederico von Ah, consultor de estratégia e inovação.
Num cenário já bastante complexo, há mais desafios para pessoas como Camila, Ykaro e outras de grupos sub-representados.
Geralmente, o investimento em empresas emergentes de base tecnológica se dá naquelas com soluções capazes de trazer retorno em até médio prazo. Entre esses modelos estão os de tecnologia digital, como aplicativos e softwares — e não aquelas baseadas em conhecimentos científicos profundos ou tecnologias sociais.
“Negócios de impacto social geralmente envolvem pessoas que querem mudar o mundo, mas têm menos recursos e, por isso, têm menos apetite ao risco. Elas não têm salvaguarda caso o negócio dê errado.”
Frederico von Ah, consultor de estratégia e inovação.
O consultor diz ainda que, quem faz parte de grupos minorizados se esforçam mais para conseguirem aparecer aos olhos de quem tem poder de decisão. Num primeiro momento, elas entregam uma boa performance. Porém, precisam gastar muita energia apenas para se estabilizarem num mundo hostil onde não cabem perfeitamente.
Por outro lado, pessoas que estão no topo da pirâmide social, majoritariamente brancas, heterossexuais e de alta renda, conseguem focar mais energia no negócio e tomar riscos que as demais não podem.
“E são essas pessoas que lideram as startups que costumam receber investimentos”, afirma Fred.
No entanto, há esperanças. Uma delas é a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Como empresa pública brasileira, a Finep fomenta a ciência, tecnologia e inovação em empresas, universidades e institutos de pesquisa. Regularmente, são lançados editais de fomento e fundos de investimento para empresas de sustentabilidade.

AS LIDERANÇAS DE STARTUPS E SUAS RELAÇÕES COM TERRITÓRIOS
O Mapeamento do Ecossistema Brasileiro de Startups 2025, publicado pela Associação Brasileira de Startups, mostrou que apenas 34,8% das 3.650 empresas consultadas já receberam investimento. Dentre o rol de fundadores, apenas 24,3% são pessoas pretas e pardas.
Além do Aqualink, Camila e Ykaro têm outros negócios. Ela é fundadora da Margem Viva, estúdio de soluções de tecnologia social aplicadas em territórios urbanos e periféricos. Já Ykaro é fundador da Bloco, consultoria de serviços em nuvem e transformação digital para o terceiro setor. O Aqualink surgiu da junção das expertises dos dois, e se tornou um projeto da Margem Viva.
Camila foi criada em Ermelino Matarazzo, na zona Leste de São Paulo. “Minha infância foi brincando entre escadões e vielas”, recorda. Ykaro é natural do Morro do Marapé, de onde só saiu quando conquistou uma bolsa de graduação na Universidade Federal do Paraná. Lá, houve um choque de realidade.
“Era uma turma de 44 pessoas com apenas dois negros. Enfrentei um racismo sofisticado de professores que ignoravam a base precária de quem veio da escola pública”.
Ykaro Andrade, idealizador do Aqualink.
De 2018 a 2025, Camila trabalhou numa consultoria de diversidade e inclusão. Nos dois últimos anos, tornou-se mentora em duas organizações referências no tema (Yunus e Quintessa).
Para Ykaro, antes de discutir sobre tecnologia no Brasil, é necessário falar de infraestrutura básica. “Como falar de tecnologia se, dentro das metrópoles, ainda há locais em que falta energia elétrica?”, diz ele.
É o caso do bairro São Manoel, na divisa de Santos com Cubatão. O território é um dos que podem ser beneficiados pela tecnologia do Aqualink.
Marco Antonio, que aparece na foto que abre esta reportagem, é presidente da associação de moradores do bairro. Ele explica que, assim como a Dique da Vila Gilda, a comunidade está sobre um mangue e tem casas de palafitas. “Não há urbanização planejada, água potável ou rede de esgoto”, diz ele.
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De acordo com Marco, o bairro tem cerca de 16 mil habitantes, que lidam constantemente com a truculência policial e o descaso por parte da prefeitura e do governo estadual. Vale lembrar que o o Governo do Estado de São Paulo reduziu em mais de 50% a verba dedicada a combater enchentes em 2026.
Marco lembra que a situação é dramática há muitos anos. “Em 2017, a construção de uma ponte no tampou as galerias que escoavam água para o mangue”, diz ele. “A prefeitura gastou horrores em estações elevatórias que não funcionavam e o bairro inundou”.
O líder comunitário diz que o Aqualink é uma iniciativa viável e necessária, mas prevê dificuldade para a implementação. Nesse sentido, a zona noroeste de Santos, longe das praias e dos pontos turísticos, não tem sido uma prioridade de investimentos.
Apesar dos percalços, Camila e Ykaro consideram ser essencial que pessoas negras consumam cultura e tenham pensamento crítico, para não serem apenas “batedores de prego”, seja em empregos precários ou no mercado de tecnologia.
Para eles, a lógica eurocêntrica e individualista criou a figura do “negro que venceu”, aquele que ascende economicamente e esquece da sua ancestralidade e da comunidade de origem.
Cabe a nós, manter a nossa história viva e forte e criar uma lógica em que tecnologia, empoderamento econômico e sustentabilidade não sejam palavras rivais.
Fotografias: Kalinca Maki.
*Esta reportagem integra a série Cientistas diversos criam soluções originais para desafios reais de sustentabilidade urbana, proposta da Emerge Mag participante da Seleção Petrobras de Jornalismo Ciência e Diversidade.







