Miss Tacacá, a DJ Rainha do Tecnomelody

23/07/2025

De Belém do Pará, Miss Tacacá funde ritmos amazônicos com música eletrônica contemporânea e exalta sonhos e beleza para corpos trans.

A carreira musical de Taka Furtado, 26 anos, começou de maneira inusitada. Natural da periferia de Belém do Pará, ela decidiu comemorar o aniversário de 18 anos com uma festa em que ela mesma seria a DJ. Alugou um salão num clube local e fez divulgação via redes sociais e boca a boca. No entanto, os convidados se entusiasmaram com a música e acabaram chamando mais e mais pessoas.

Para a alegria da aniversariante, mais de 300 pessoas compareceram. O sucesso rendeu para Taka um convite do dono do clube para se apresentar outras vezes. Nascia a Miss Tacacá, a DJ Rainha do Tecnomelody.

Mais do que um estilo musical, tecnomelody é um fenômeno cultural de Belém. Com batidas aceleradas (160 a 180 bpm), é fusão entre ritmos amazônicos e música eletrônica contemporânea. As apresentações são repletas de luzes e com cenografia inspirada na cultura indígena, além da fauna e flora da região. O resultado são festas intensas e criativas.

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Como é de se imaginar, as apresentações de Miss Tacacá são uma experiência singular. Há sons de gêneros caribenhos, como calypso, merengue e salsa; vocais típicos de festas de aparelhagem do technobrega; guitarradas e batidas de sintetizadores.

Tudo é envolto uma grande valorização de expressões culturais da periferia. Nesse sentido, seus sets também contam, por exemplo, com músicas de brega funk, originário da capital pernambucana.

“Eu sempre bato na tecla de ser uma travesti de Belém do Pará, que trabalha com cultura e tem extensa pesquisa em música eletrônica periférica”.

Miss Tacacá, DJ, ativista e produtora cultural.

As escolhas musicais de Miss Tacacá não são aleatórias. Elas nascem de um território marcado por contrastes sociais, culturais e econômicos.

Ao longo de sua história, Belém se destacou pela posição estratégica no comércio entre a Amazônia e a Europa, ainda no século 17. No século 19, viveu o período áureo da exploração da borracha, o que consolidou uma elite econômica cosmopolitana na região. Em 1878, por exemplo, foi inaugurado o Theatro da Paz, o primeiro teatro de ópera da Amazônia e um dos primeiros teatros líricos do Brasil.

Mais recentemente, a cidade se tornou conhecida por ser berço de cantoras famosas, como Fafá de Belém, Gaby Amarantos e Dona Onete; que, embora não tenha a naturalidade, foi criada em Belém.

Porém, ao mesmo tempo que é uma das regiões mais ricas em biodiversidade e recursos naturais do mundo, a Amazônia é marcada pela desigualdade.

De acordo com uma recente pesquisa do Instituto Trata Brasil, a Amazônia Legal abriga 29 dos 50 municípios com os piores indicadores de saneamento básico do Brasil. Num ranking de 100 cidades, Belém ocupa a 95ª posição. Já dados do IBGE mostram que cerca 80% da população da cidade não tem acesso à rede de esgoto.

Ou seja, a criatividade das periferias da região nasce da resistência, que transforma dificuldades em potência sonora. No caso de Miss Tacacá, além das questões sociais, há ainda os desafios raciais e de gênero.

EFERVESCÊNCIA: Amazônia é um território marcado por contrastes sociais, culturais e econômicos (foto: Pedro Lacerda).

A FORÇA E O ORGULHO DE SER UMA TRAVESTI AMAZÔNICA

Miss Tacacá conta que desde criança desejava ser artista. Na adolescência, estudou teatro por quatro anos, e descobriu a potência da performance. Sendo uma travesti com descendência indígena, a arte foi um espaço onde ela pôde existir de forma plena.

Em 2017, deixou o Pará rumo a São Paulo. Sozinha e corajosa, buscava não apenas oportunidades profissionais, mas também mais liberdade. Para superar os desafios, ela destaca que foi fundamental a psicoterapia, que deu início a um processo de autoconfiança.

Miss Tacacá aprendeu a se olhar com mais cuidado e a valorizar sua identidade, compreendendo que sua vivência enquanto travesti amazônica é fonte de força e orgulho.

“Havia dúvidas, preconceitos e momentos difíceis. Sentia que as pessoas me desacreditavam. Mas eu nunca deixei isso me abalar. Eu acreditava em mim, e era o que bastava.”

Miss Tacacá, DJ, ativista e produtora cultural.

Nos primeiros anos em São Paulo, era comum ver Taka em eventos de poesia falada, como o Transarau e o Slam Marginália [já tema de reportagem na Emerge]. Ambos são protagonizados por pessoas trans. Em 2019, Taka também foi uma das DJs da festa de final de ano da Emerge Mag.

Em 2020, a carreira dava sinais de que iria decolar, uma vez que a agenda já contava com festas em outras capitais brasileiras, como Belo Horizonte, e internacionais, em Portugal. Em março, no dia que completou 21 anos, ela tocou numa festa para mais de 8 mil pessoas, no interior de São Paulo.

No entanto, com a pandemia de Covid-19 e a suspensão de eventos musicais, a DJ teve que se retirar dos palcos. Impossibilidade de gerar renda em São Paulo, retornou a Belém.  

De volta a terra natal, ela idealizou um festival online apenas com artistas paraenses LGBTQIA+. Taka afirma que o evento foi um marco na cena cultural amazônica.

“Trouxemos para o centro da discussão expressões artísticas LGBTQIA+ da região Norte, que historicamente, enfrentam invisibilização em espaços institucionais de cultura”.

Miss Tacacá.

O festival também foi um ato de cuidado coletivo e afeto em meio ao isolamento. Produzido via financiamento coletivo, parte dos recursos foi repassada para a ONG Arte Pela Vida, que acolhe pessoas LGBTQIA+ vivendo com HIV em situação de vulnerabilidade.

TAKA: longe dos estigmas de dor e violência (foto: Tony Alvves)

Entre os 42 artistas que se apresentaram, estavam Jean Petra, referência na música eletrônica de Belém com produções autorais que dialogam com o tecnobrega e o pop experimental; Dama Blackout, com performances afirmativas negras e periféricas; Flores Astrais, conhecida por explorar linguagens visuais e sonoras psicodélicas; e Lino Calixto, artista que mistura música, poesia e performance.

“São pessoas que admiro, que são referências artísticas e humanas e que têm contribuído com a minha trajetória”, diz Taka.

Na mesma época, Taka criou um filme para a versão online do festival Burning Man, um dos o maiores eventos de contracultura do mundo, com sede em Nevada, nos Estados Unidos.

De caráter abstrato e autoral, a obra também contou com a participação de artistas nortistas. Posteriormente, o filme foi adquirido pelo Sesc e exibido em diferentes cidades brasileiras.

Outra obra audiovisual da artista é Há um lugar feito por nós, Transamazônicas. Taka retrata a trajetória de travestis de Belém a partir de uma perspectiva poética e simbólica, longe dos estigmas da dor e da violência. A obra foi exibida no Museu da Diversidade, em São Paulo.

ASCENÇÃO PAUTADA NA ESTÉTICA E BOM HUMOR

A partir de 2021, com a retomada gradual do segmento de eventos, Taka voltou para as pistas. Logo de cara, fez a sua estreia na Mamba Negra, festival de música eletrônica feito por e para mulheres e LGBTQIA+ [perfilado duas vezes pela Emerge], onde iria se apresentar novamente em 2022. Ela também tocou em duas edições do paraense Festival Psica e no tradicional Coquetel Molotov.

Taka também participou de festas e festivais da Batekoo, plataforma de entretenimento, empreendedorismo, cultura e comunidade preta, periférica e LGBTQIAPN+. “Foi inesquecível, principalmente porque grandes ídolos estavam na plateia, como Pabllo Vittar, Urias e Matheus Carrilho”, diz ela.

PRODUÇÃO CULTURAL: artista lançou evento de música eletrônica itinerante que mistura rave, ritual e resistência LGBTQIA+ periférica (Foto: Pedro Lacerda).

Desde então, a carreira de Miss Tacacá está em ascensão. Um dos pontos altos se deu no final de 2024. Ela foi curadora da edição do Boiler Room Belém, que reuniu artistas tipicamente amazônicos da cena tecnobrega e tecnomelody. Tudo aconteceu dentro da estrutura do consagrado Tudão Crocodilo, tradicional equipe de aparelhagem da cidade.

Para quem não está familiarizado, Boiler Room é um projeto londrino, criado em 2010, que percorre o mundo para apresentar DJs referências locais, que tem seus sets gravados e publicados na internet. Somente no canal do YouTube, são mais de 4,8 milhões de inscritos.

“Estar em festivais, festas e ser curadora de eventos internacionais tem sido um reconhecimento fantástico após anos de trabalho árduo como artista, produtora e ativista cultural.”

Miss Tacacá.

Falando em produção cultural, a mais nova cartada de Miss Tacacá é a Sucuri Fest. Criada por ela ano passado, é uma festa de música eletrônica itinerante que mistura rave, ritual e resistência LGBTQIA+ periférica.

Com edições realizadas em Belém, Fortaleza e Rio de Janeiro, o evento é uma fusão sonora que vai do technobrega ao afrobeat, passando por acid house, technofunk e minimal techno.

Conhecida por ser uma artista que se conecta com o público não só pela música, mas também pela estética, personalidade e bom humor, que Miss Tacacá continue criando boas conexões, nas pistas e na vida.

FOTO DE ABERTURA: Isabella Dias.

Quem escreveu

Foto de Ester Peixoto

Ester Peixoto

Natural do norte de Minas Gerais, é estudante de jornalismo da Universidade Estadual de Londrina. Tem paixão pela arte e pela comunicação. Autora do livro de poesias Criticando. Militante do movimento negro e feminista, tem as causas como ponto de partida para escrita, pesquisa e olhar para o mundo.

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