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A jornada do Menor de Quebrada

30/01/2024

O fotolivro Menor de Quebrada, registro de sutilezas da infância em periferias de São Paulo, faz parte do acervo do Instituto Moreira Salles.

Texto de Rafael Felix, fotógrafo, idealizador do projeto Menor de Quebrada e integrante da Emerge Mag desde 2019.

Você já se perguntou o que aconteceria se a sua infância tivesse sido diferente? Eu já. Morar em outro CEP, talvez até em outra cidade. Uma família e condições sociais diferentes, instruções e companhias outras. De fato, isso mudaria o jogo. A infância que vivenciamos não nos define por completo, mas tem um peso gigantesco em quem nos tornaremos na vida adulta.

Acima de tudo, isso é ciência. Um estudo da Universidade Federal de Pelotas, de 2022, mostrou que a pobreza na primeira infância afeta a saúde e a inteligência de crianças e adolescentes até a vida adulta. Já uma pesquisa publicada em dezembro de 2021, na revista científica European Child & Adolescent Psychiatry, e divulgada pela Agência FAPESP, mostrou uma associação entre um contexto de pobreza na infância e maior propensão a desenvolver transtornos mentais.

Falo de ciência, mas também de vivência. Nasci e fui criado no fundão da Zona Leste de São Paulo capital, entre os bairros Jardim Miragaia, Jardim dos Ypês e Jardim Campos. Assim como em qualquer outra periferia e favela, a perspectiva de futuro era muito limitada.

CRIANÇA BRINCA DE BOLA NA RUA: FOTOLIVRO DE RAFAEL FELIX TRAZ REGISTROS DA INFÂNCIA NA QUEBRADA

Dentro desse cenário e como resultado da minha jornada com a infância, se criou a obra Menor de Quebrada: um fotolivro que reúne registros feitos entre 2016 e 2023, que tentam captar as sutilezas da infância na periferia — selecionado no Festival Photothings e integrante da Biblioteca de Fotografia do Instituto Moreira Salles (IMS).

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MENOR DE QUEBRADA

A reflexão sobre os caminhos que me trouxeram até aqui e sobre a influência das minhas experiências enquanto criança e adolescente — tanto familiares quanto externas (rua, amigos, escola, etc) — na vida adulta é constante. Mas foi a partir do nascimento do meu filho que me debrucei sobre a alegria de ser criança e, ao mesmo tempo, do pesadelo que pode ser essa fase, a depender das condições em que se está inserido.

Quando nasceu, Jordan (3) me fez retornar ao passado. Em síntese, uma injeção de nostalgia e simplicidade. Definitivamente foi muito louco olhar novamente o mundo com brilho nos olhos e enxergar, a partir da inocência de uma criança, uma imensidão de possibilidades.

DEDICATÓRIA DO FOTOLIVRO: JORDAN INSPIROU A CRIAÇÃO DO MENOR DE QUEBRADA

“Mas que possibilidades seriam essas?”, o medo me fazia questionar. Tendo nascido em uma periferia de uma cidade marcada pela desigualdade (com índices de países mais ricos e dos países mais pobres ao mesmo tempo, em diferentes regiões — segundo um levantamento da Rede Nossa São Paulo, de 2023), em uma sociedade que negligencia e tem pouco para oferecer às nossas crianças. 

Com o passar do tempo, essa reflexão se fez mais presente e foi se entrelaçando com vivências que só fizeram reforçar o sentimento. Jordan me inseriu na infância novamente, não só a dele, mas de cada “menor da quebrada” que eu “trombava” quando saia para fotografar. 

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CONGELAR O TEMPO

Sempre me dei bem com crianças, especialmente pelo elo que se cria quando se está com uma câmera. O fascínio dos “menor” é quase que imediato quando se deparam com o aparato capaz de congelar o tempo. Sendo aceito dentro da realidade de cada criança que fotografo, observo com muito respeito e o distanciamento necessário para não ser invasivo e, ao mesmo tempo, não criar um olhar estrangeiro.

As risadas, as brincadeiras e os olhares foram surgindo sem ensaio ou pedido, acontecia e eu ia clicando. A realidade se mostrou despida. O contraste das brincadeiras e sorrisos, inseridos em ruas de terra, barracos, casas mal acabadas, entulho, asfalto, os “menor” descalços, etc; refletem o desafio dessas crianças de exercerem seu direito à infância, de se adaptarem ao concreto, ao barro, às pedras, à pobreza e a todos os obstáculos rústicos que existem nessa trajetória.

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A JORNADA DO FOTOLIVRO

O livro Menor de Quebrada vem de uma gestação de aproximadamente sete anos. A infância e as crianças já eram objetos de fascínio antes mesmo de ser pai, por isso são temas comuns nas minhas fotografias. Com a chegada do Jordan, descobri que estava criando um projeto, algo maior do que o interesse por essa fase da vida. 

No ano de 2022, o projeto foi selecionado em uma convocatória do Festival Photothings e contemplado com a execução de um fotolivro artesanal, um portfólio físico. Uma grande realização na minha caminhada e para a quebrada ser vista de uma forma não pejorativa, mas como potência.

O livro contou com curadoria e edição de Marly Porto, design de Alyssa Ohno, textos de Ronaldo ‘Big’ Sousa, Paulo Marcos de Mendonça Lima e Marly Porto e a encadernação manual do Yume Ateliê. Um time maravilhoso, do qual sou muito grato.

Uma vez com o projeto gráfico em mãos, pude correr atrás e investir em uma pequena tiragem de sete exemplares. Um desses inscrevi na convocatória de Fotolivros da Revista Zum/IMS 2023 e o Menor de Quebrada foi um dos selecionados. Atualmente, o fotolivro integra a Biblioteca de Fotografia do Instituto Moreira Salles, uma das organizações mais importantes de fotografia na América Latina.

Um marco de extrema relevância, de fato. Mas o corre não para. O projeto, além de fotolivro, também resultou em um fotofilme que está disponível no Youtube:

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O FUTURO

O futuro é incerto, mas o desejo é conseguir publicar o Menor de Quebrada em formato comercial, que possibilita (em termos financeiros) uma tiragem maior e doações para as crianças das quebradas que visitei. O último ponto é de extrema relevância: acredito no ciclo e, nesse sentido, tudo que nós produzimos na “perifa”, deve ser acessado por quem a constrói diariamente. Por enquanto, o livro está esgotado, mas segue disponível na Biblioteca de Fotografia do Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista, 2424, em São Paulo/SP. 

UMA MÃO EMPINA UMA PIPA: FOTOLIVRO BUSCA MOSTRAR LEVEZA NA QUEBRADA

Fotos: Rafael Felix
Edição: Teresa Cristina

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