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Curta “Primeiro Ato” aborda racismo, ancestralidade e Direitos Humanos

06/09/2022

Pessoa negra olhando para a câmera com olhos bastante expressivos. Usa uma camiseta branca manchada no rosto com uma abertura somente nos olhos

"Primeiro Ato", dirigido pelo multiartista Leonardo Alan, foi lançado no Dia Nacional dos Direitos Humanos e retrata a população preta invisibilizada, marginalizada e que vive em condições insalubres.

Dirigido por Leonardo Alan, curta “Primeiro Ato” foi lançado no Dia Nacional dos Direitos Humanos e retrata a população preta invisibilizada, marginalizada e que vive em condições insalubres

Originário da região do grande ABC em São Paulo, e residente na Bélgica há oito anos, o multifacetado artista Leonardo Alan é conhecido por abordar em seus projetos temas como as liberdades LGBTQIAP+, sexual, política, além da manipulação em massa, intolerância religiosa e racismo. Em seu último curta “Primeiro Ato”, lançado no dia 12 de agosto, Alan escolheu como tema os Direitos Humanos, ao retratar a população preta invisibilizada, marginalizada e que vive em condições insalubres. 

Parte do roteiro do curta foi inspirado em uma edição do programa Fantástico, da TV Globo, sobre a Cracolândia. Incrédulo ao saber que quase uma década depois a situação das pessoas em situação rua e usuários de drogas da região piorou, o artista decidiu incluir no curta-metragem cenas da esquina da Rua Helvétia com a Alameda Cleveland, onde fica localizada a Cracolândia, no bairro Campos Elíseos, em São Paulo. Periférico, Alan afirma:

“Eu demorei para falar sobre a periferia em minha arte, porque quando uma pessoa diz ser da periferia, ela é estigmatizada. Eu não sou um artista que gosta de ser estigmatizado, eu sou várias coisas e isso se aplica não só a maneira como eu trabalho, mas também se aplica em me identificar como um artista que quer falar com diversas pessoas. Porém, percebi que, como artista, falar sobre a periferia se tornou algo urgente para mim”

DIRETOR RESGATA ANCESTRALIDADE EM CURTA “PRIMEIRO ATO”

Para além das questões sobre Direitos Humanos, Alan fez um resgate à ancestralidade no curta. Na Europa, o artista realizou um exame de DNA e descobriu que tem genes de diferentes países da África como Nigéria, Quênia, Serra Leoa e Massai – um grupo étnico africano de seminômades que vive no Quênia e no norte da Tanzânia. A partir daí, optou por incluir imagens da África no projeto. Outro resgate da ancestralidade veio a partir da figura da mãe do artista, de quem ele ficou afastado durante anos.

Em 2022, ela foi passar uma temporada de três meses com Alan na Europa, e esse reencontro foi uma catarse inspiradora para o curta. A ideia partiu da Relações Públicas do artista, a Comunicadora Social e Artista Nega Cléo. Durante uma reunião, viu a mãe de Alan desfazendo suas tranças, cuidado materno que despertou a ideia de uma produção audiovisual em que mãe e filho são os protagonistas.

A partir daí, Nega Cléo e Alan foram desdobrando o roteiro, e chegaram à ideia da cena final do curta, onde a mãe do artista aparece representando todas as mulheres negras brasileiras que apoiam e dão sustentação aos homens pretos marginalizados. Já o cenário, dirigido pelo próprio Alan, se deu de maneira orgânica. Ele explica: 

“A forma como as roupas foram colocadas me remeteu aos corpos pretos invisibilizados, mas óbvio que cada um vai ter a sua própria impressão quando assistir. Já a forma como esse personagem deita no colo da mãe, tem muito de Otelo – peça de William Shakespeare. Eu quis colocar a figura dessa mulher como uma deusa”

ASSISTA AO CURTA “PRIMEIRO ATO”:

CURTA “PRIMEIRO ATO” É NARRADO POR POEMA QUE DENUNCIA RACISMO ESTRUTURAL

Outra ideia que partiu de Nega Cléo, Diretora Criativa de “Primeiro Ato”, foi convidar a poeta Victoria Aparecida, que conheceu em batalhas de poesia, para integrar o projeto. O vídeo é narrado por um poema da artista, que é nascida e criada em Poá, no extremo leste de São Paulo. No texto, ela denuncia o racismo estrutural e enfatiza: “é essa gente (preta) que mantém esse país estruturado” e continua: “quem produz a riqueza da elite é quem segue sendo chicoteado, baleado”. 

Para além do racismo, Victoria faz uma crítica assertiva contra o feminismo branco, que esquece que “quem limpa a sua sujeira é a tia preta da limpeza, sendo ainda tratada como escrava”. Além disso, lembra que o seu povo já praticava o comunismo nas aldeias bem antes de Marx. O poema é um verdadeiro soco no estômago da branquitude e termina com a seguinte frase: “se prepara para a justiça, que hoje ela veio dobrada.”

FOTOGRAFIA: Divulgação/Griot Assessoria

Reportagem produzida em parceria com Griot Assessoria

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