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Desmistificando o Veganismo: acessível e sustentável para todos

07/02/2023

Apesar de imagem elitista, influenciadores e ativistas mostram que o veganismo pode ser uma escolha sustentável para as periferias

*Reportagem de Davi Leon Correia, Carolina Vargas, Alessandra Santos, Camilla Fernandes, Sarah Gomes, Tainá Sabaini, alunos do curso de Jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, parceira da Emerge Mag.

Quem vai ao supermercado já sabe, as opções de produtos veganos, aquelas com o famoso selo “cruelty-free”, que atesta que o produto não tem origem ou foi testado em animais, não são nada amigáveis ao bolso da maioria da população brasileira, da qual 70% ganha até dois salários mínimos segundo (dados da Pnad Contínua – Rendimento de todas as fontes 2019, do IBGE), isso quando elas chegam na quebrada – o que é raro.

A equipe desta reportagem apurou que numa rede premium de supermercados da cidade de São Paulo, 270g de carne moída vegetal custava 20 reais. Com os mesmos 20 reais era possível comprar 900g de carne bovina moída.

Parte do acesso à alimentação limpa também passa pela crueldade do capitalismo, mas não precisa ser assim. Ao menos é o que pensa Luciene de Jesus, conhecida como Sapa Vegana nas redes sociais.

“O veganismo não é elitista, eu mesma adoro elaborar receitas usando materiais que compro em feiras orgânicas para justamente economizar no bolso. O veganismo é barato”.

LUCIENE DE JESUS

Em suas redes sociais, a influenciadora ensina a preparar “PF’s (Pratos Feitos) Veganos”, que juntam os principais ingredientes ricos em nutrientes e vitaminas de uma refeição balanceada e o melhor: barata.

Alexandre Melo, fundador do coletivo Perifa Vegana, é outro influenciador que luta para furar a “bolha elitista” que cercou o movimento vegano. O ativista que atua via ações, debates e trabalhos sociais, lembrar que para ter uma alimentação vegana, não é preciso recorrer aos ultraprocessados, basta comer “comida de verdade”, aquela dos pequenos produtores orgânicos, como os que participam da Feira do Produtor Orgânico do Parque da Água Branca, na zona oeste de São Paulo. “Diversos aspectos tornam o veganismo um meio muito mais sustentável de se viver”, afirma.

Para além do bolso, o sacerdote Hare Krishna Milton Mourão, ou como prefere ser chamado, Mahesvara (Mahesh), em indiano, destaca o papel do veganismo na saúde das populações marginalizadas. Sua organização não governamental, a Alimentos Para a Vida Brasil, desde 2014 distribui alimentos orgânicos para pessoas em situação de rua e baixa renda, ajudando principalmente os mais necessitados.

“Deixei de consumir produtos de origem animal aos 16 anos de idade e não só minha saúde mas também minha forma de pensar no consumo de alimentos melhorou”, conta.

Estudos  têm comprovado  menor incidência  em  populações  vegetarianas  de diabetes (quando comparado às onívoras) e melhores resultados no tratamento do diabetes tipo II. Como não há colesterol no reino vegetal, a dieta vegetariana estrita ou a vegana auxiliam na redução dos níveis  dessa substância no sangue,  reduzindo  o risco de doenças cardiovasculares isquêmicas (quando há acúmulo de colesterol e gordura saturada nas artérias) e hemorrágicas.

MAIS QUE UM SELO

Com aproximadamente 30 milhões de brasileiros autodeclarados veganos ou vegetarianos, segundo pesquisa de 2018 do Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), de 2018. É cada vez mais comum que grandes companhias cujo core business é a venda de produtos de origem animal criem um produto ou até mesmo toda uma linha vegana, na tentativa de conquistar o “selo” vegano.

A frente do projeto Vegano Periférico, os irmãos gêmeos Leonardo e Eduardo dos Santos, lutam por um veganismo de verdade, isto é, que vai além do chamado “Vegan Washing” (maquiagem vegana, em tradução livre), isto é, quando indústrias de abate animal massivo tentam conquistar ao oferecer alternativas aos pratos carnívoros, ignorando totalmente a tirania presente por trás de suas marcas. Mesmo os produtos ultraprocessados e elitizados do veganismo devem zelar pelo respeito dos seres vivos.

“Muitas pessoas associam o veganismo a uma mera “etiqueta”, mas não é bem assim. Ser vegano não é sobre marcas, é como você pensa”.

Irmãos levam veganismo de Itajaí, periferia da cidade de Campinas, interior de São Paulo, para as redes

Os irmãos Santos tornaram-se veganos depois de se depararem com a violência e a exploração animal por trás de um pedaço de carne, um copo de leite e uma omelete.

Todos  os  anos  criamos  e  abatemos  mais  de  70  bilhões  de  animais  terrestres, conforme dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, além  de  uma  quantidade  muito  maior  de  animais  aquáticos  para  consumo. A imensa maioria destes animais é criada em sistema de confinamento intensivo e submetida a condições hediondas – impedidos de pastar, mudar de posição, deitar-se, ter contato social com outros membros da sua espécie. Alguns chegam a ser mutilados vivos e sem anestesia, de modo a inibir automutilação e canibalismo por estresse. 

Manter bilhões desses animais como estoque vivo de alimento exerce profunda sobrecarga  ao  meio  ambiente  e  ao  clima.  Cada um desses animais exige determinada quantidade de terra, água, alimento e energia, além  de  produzir  expressiva  quantidade de  dejetos  e  emitir,  direta  e  indiretamente,  poluentes no solo, no ar e na água.

Criado em 1944, o veganismo é definido por um estilo de vida que exclui quaisquer produtos de origem animal, tanto por meio da alimentação, como ainda do vestuário (sem materiais como couro, lã, pérolas etc.) e do uso de cosméticos e outros produtos (como de limpeza da casa, por exemplo), feitos com ingredientes de origem animal ou testados em animais. 

No veganismo, o combate ao especismo (crença de que determinadas espécies são inferiores e, portanto, podem ser exploradas)  começa com a comida, mas não se encerra nela.

Foto de Abertura: Wayhomestudio/Freepik | Edição: Karol Pinheiro

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