Reportagem de Fábia Medeiros e Sophia Barros, alunas de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, realizada via convênio de ensino dual com a Emerge Mag, sob supervisão de Jaqueline Lemos.
Nas últimas semanas, tem pairado um clima de orgulho e celebração na Terra Indígena (TI) Jaraguá, na zona noroeste da capital paulista. Após 37 anos, e intensa mobilização política, foi firmado um acordo com o governo do estado que reconhece a gestão compartilhada de áreas sobrepostas entre a TI e o Parque Estadual Jaraguá.
Inicialmente homologada em 1987, com apenas 1,7 hectares, o que a qualificava como a menor do país, a TI passou a ter 532 hectares, a partir de último mês de maio. A área abriga oito aldeias de indígenas Guarani Mbya. Além da delimitação do espaço, foi restabelecida a declaração de posse aos indígenas — em 2017, o documento havia sido suspenso por Torquato Jardim, Ministro da Justiça durante a gestão de Michel Temer.
“O povo Guarani existe e resiste neste lugar e hoje se concretiza ‘o Jaraguá é Guarani’”, afirmou Karai Djekupe, uma das lideranças da TI Jaraguá, durante uma cerimônia realizada na aldeia Tekoa Pyau.
LEIA TAMBÉM: Em busca da cura frente ao apartheid das plantas medicinais.
Localizada às margens do Pico do Jaraguá, o ponto mais alto da capital paulista, com 1.135 metros de altitude e cerca de 20 quilômetros de distância do centro, a Tekoa (aldeia) Pyau tem cerca de 700 habitantes.
A aldeia é cercada por muros pichados e relativamente baixos. Da rua dá para ver árvores, casas e animais de estimação (cachorros, gatos e pássaros).
A entrada no local é simples. Há uma escadaria em terra batida, que leva às casas de madeira espalhadas de forma assimétrica por todo o terreno. As crianças conversam em guarani e brincam sem uso de celulares ou brinquedos tecnológicos. Com passos lentos e firmes, idosos fumam cachimbo.
Quem apresenta o local é Anthony Karaí, coordenador de projetos audiovisuais do TI e estudante de direito. Ele mostra o Centro de Convivência, local que acontecem as festas, reuniões, palestras e atividades culturais. Há também a Casa de Reza, espaço sagrado de espiritualidade, e o Centro de Educação e Controle Indígena (CECI), que fortalece as expressões culturais da comunidade.
RESISTÊNCIA E ADAPTAÇÕES CULTURAIS
Na aldeia Tekoa Pyau o idioma usado é, de fato, o guarani. Todos os moradores se comunicam somente na língua ancestral. A oralidade e a contação de histórias, por exemplo, é uma forma de perpetuar a cultura originária para as futuras gerações. Quando os visitantes precisam falar em português, chama-se uma liderança fluente.
“Existem poucas pessoas na Tekoa Pyau que falam português. Todos os moradores da Terra Indígena falam guarani, e poucos desejam aprender o português.”
Anthony Karaí, indígena da Tekoa Pyau.
O Povo Guarani, sobretudo da aldeia Tekoa Pyau, se mostra resiliente mesmo diante dos impactos gerados pelos costumes, hábitos e leis que os cercam, além dos escassos recursos advindos das esferas governamentais, sejam elas municipais, estaduais ou federais.
No entanto, dentro da metrópole paulistana, eles acabam sendo forçados a adaptar ou não realizar algumas tradições. Uma das mais simbólicas entre os Guarani Mbya é o processo de reclusão (iñengue, em Guarani) pelo qual as meninas indígenas passam ao entrar na puberdade.
Durante o período, são realizados rituais que enfatizam a conduta e valores que nortearam as jovens ao longo da vida adulta, com foco num preparo para a possibilidade da maternidade.
Originalmente, a reclusão durava dois meses. Atualmente, o período foi reduzido para 15 dias. O motivo são as regras de manutenção do Bolsa Família. Uma vez que a maioria das famílias aldeadas recebem o benefício, é necessário que as adolescentes mantenham a frequência escolar, sem faltas.
Por sua vez, os meninos do território também são impactados. Devido o TI não ter área grande o suficiente para que os jovens desenvolvam as habilidades de caça e pesca — o rito masculino — os Guaranis se deslocam para territórios do entorno para cumprir com honra a tradição.
Falando em pesca e caça, um desafio para os aldeados é a alimentação. No passado, o TI chegou a ter lagos para criação de peixes. Hoje, só há uma horta. De acordo com Anthony, a prefeitura de São Paulo envia cestas básicas mensalmente para o território. No entanto, são alimentos ultraprocessados.
“Na cesta há arroz, macarrão, feijão, açúcar, óleo e sardinha. Mas, sinceramente, só dá para comer o arroz. No CECI, a merenda das crianças têm biscoito e sucos”, diz ele.
Anthony relata que ONGs também ajudam com doações de comida, mas adianta que o tipo de alimento não difere dos fornecidos pela prefeitura.
Já no Dia das Crianças e no Natal, o recebimento de doações aumenta consideravelmente, o que faz a aldeia torna-se um ponto de distribuição para outras localidades. Geralmente as doações são destinadas para os territórios indígenas do Vale do Ribeira e do litoral paulista.
OS INDÍGENAS NA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO
De acordo com a socióloga indígena Silvia Muiramomi, do povo Guayana-Muiramomi, que reside em cidades vizinhas a São Paulo, como Santo André e Mauá, as tradições indígenas foram engolidas pelo crescente processo de urbanização.
Ela explica que o atual processo enfrentado pelos indígenas, que vivem dentro ou próximos a áreas urbanas, faz parte do mesmo projeto de violência e apagamento iniciado com a invasão portuguesa.
Neste movimento de assimilação cultural eurocêntrica forçada, ela cita a historiografia paulista, em particular, muito representada pela figura mítica do bandeirante, que afirma que os indígenas da região foram extintos, “o que não é verdade”.
“A invasão do nosso território tinha por objetivo a ocupação de terras, e continua assim até hoje. Estamos constantemente precisando provar a nossa existência.”
Silvia Muiramomi, socióloga e indígena do povo Guayana-Muiramomi.
Integrante do movimento indígena multiétnico Nhande Vae’eté ABC, Silvia afirma que há diversas comunidades urbanas formadas por indígenas, aldeados e urbanos, na Região Metropolitana de São Paulo.
Em São Bernardo do Campo, por exemplo, há quatro aldeias (tekoa) Guarani Mbya: Tekoa Guyrapaju, Tekoa Kuaray Rexakã, Tekoa Nhamandu Miri e Tekoa Pinheiroty , localizadas no Bairro Curucutu, na região chamada Pós-Balsa. Outra aldeia, a Tekoa Krukutu, bastante visitada e estruturada, fica na divisa com São Paulo, em Parelheiros.
Ao todo, a Terra Indígena conta com cerca de 10 aldeias (tekoa), onde vivem mais de 1500 pessoas, aproximadamente 300 famílias.
Por fim, a socióloga afirma que é necessário cautela ao se pensar a representação étnica de indígenas urbanos. Não pense que são pessoas que vivem nuas ou com o rosto pintado diariamente e nem que o fato de morarem em casas de alvenaria e terem celulares os fazem menos indígenas.
“Indígenas usam vestimentas e adereços tradicionais quando é necessária a marcação de um limite étnico ou quando é costume em algum território, como no Xingu, por exemplo “, finaliza.
FOTOGRAFIA DE ABERTURA: Rovena Rosa/Agência Brasil.