As estripulias musicais de Assucena

Em entrevista exclusiva, Assucena fala dos próximos trabalhos, dos desafios de se lançar na carreira solo e de sua música de estreia, “Parti do Alto” Nascida em Vitória da Conquista, na Bahia, Assucena encantou os brasileiros nos últimos seis anos de carreira. A cantora, que faz parte de uma cena em expansão de artistas LGTBQIAP+ no Brasil, começou a sua trajetória na música ainda durante a faculdade de História na Universidade de São Paulo (USP), com a banda “Preto Por Preto”, que depois se tornou “As Bahias e a Cozinha Mineira” e, por fim, “As Baías“. O trio, que também tinha Raquel Virgínia e Rafael Acerbi, lançou o seu primeiro álbum em 2015, e foi reconhecido com indicações ao Grammy Latino (2019 e 2020) e duas vitórias do Prêmio da Música Brasileira em 2018 (Melhor Grupo e Melhor Álbum). Na virada de 2021 para 2022, Assucena decidiu dar voz à sua loucura e revelar uma intimidade vocal que nunca apresentou ao público antes. Cheia de “borboletas na barriga”, a artista subiu aos palcos em dezembro com o seu primeiro projeto, o show “Rio e Também Posso Chorar”, uma homenagem aos 50 anos do disco “Fatal” de Gal Costa. Logo depois, em janeiro, lançou “Parti do Alto”, primeiro single da sua nova fase. Ela ainda apresentou o show “Minha Voz e Eu” e corre para aprontar o primeiro álbum. Vou inaugurar tudo: meu nome, minha imagem, minha equipe, minha sonoridade, meu canal, minhas derrotas e vitórias. Sabe as borboletas na barriga? Já desisti de que elas vão desaparecer. Elas já são uma fauna permanente de minha flora intestinal Em entrevista exclusiva à Emerge Mag, ela revela como tem sido esse recomeço, fala sobre a música “Parti do Alto”, que mescla cores pop com a densidade lírica de uma compositora pensante e inquieta, e comenta sobre as influências do movimento antropofágico. Confira, abaixo, a entrevista completa. Qual é o principal desafio de se lançar em uma carreira solo? A decisão veio de uma busca pelo autoconhecimento. Não é só solidão, também é solitude. Em um projeto coletivo, é necessário renunciar muito de si para que o coletivo aconteça. Cheguei em uma fase da vida em que sinto necessidade de renunciar menos, e a arte dá essa possibilidade de ser responsável pelas minhas escolhas, sem jogar nos ombros do coletivo. Os acertos são meus, mas os erros também. Qual é a principal diferença de “Parti do Alto” para os seus outros trabalhos? “Parti do Alto” é integralmente solo e essa busca é muito interessante, porque fui me reconhecendo nas escolhas. A música tem uma irreverência que eu não tinha gravado até então, e uma postura moderna, contemporânea, entre o sintetizador e a quebra para um samba melancólico. Como encontrar o equilíbrio ao explorar um tom crítico sem cair no panfletarismo? A militância exacerbada é necessária, pois tem possibilitado a quebra de muitos ismos negativos em prol de uma sociedade mais igualitária. Mas é necessário ter cuidado. Todo extremo é perigoso e não seria diferente com a arte. Não se pode abrir mão das figuras de linguagem, das metáforas. Como o movimento antropofágico te influencia? A antropofagia é própria do Brasil. Os modernistas e tropicalistas conceituaram o que é uma uma percepção histórica de um país fruto de uma colonização extremamente violenta. Nada que é do Brasil é próprio do Brasil, tudo partiu de um encontro. A gente tem que lidar com os traumas de uma nação que engole tudo que vem de fora, até porque destruímos muito do que existia dos povos originários. O rock, o jazz, o samba, o bolero, tudo vem de fora, mas também é nosso, porque tudo que engolimos vira outra coisa. “O Brasil tem um jeito diferente de engolir as coisas e regurgitar, ou cagar” O que você pode adiantar das “outras estripulias musicais” que você anda preparando em estúdio? Vem um disco por aí e também quero lançar uns singles. Tenho uma homenagem para Elis Regina que já está gravada (em 2022, faz 40 anos que a cantora morreu). Apesar de estarmos em um ano difícil, precisamos mirar no Brasil bonito, com esperança. Fazer um disco em 2022 não vai ser fácil, mas ainda sim eu vou entrar no estúdio pra trazer uma sonoridade mais otimista, ainda que melancólica. FOTOGRAFIA: Divulgação
Transversais subverte censura e estreia nos cinemas

Filme TRANSVERSAIS, censurado pelo governo Bolsonaro, será exibido nos cinemas a partir de 17 de fevereiro e traz depoimentos de quatro pessoas trans, além da mãe de uma adolescente TRANSVERSAIS, o primeiro longa do jornalista e cineasta Émerson Maranhão, subverte a tentativa de censura do governo Jair Bolsonaro e será exibido nos cinemas a partir do dia 17 de fevereiro. Inicialmente, havia sido anunciado que o filme seria “abortado” do edital da Ancine em que era finalista, por “não ter cabimento uma produção com este tema”. Produzido por Allan Deberton (“Pacarrete”), o documentário apresenta os depoimentos de quatro pessoas trans que resgatam suas histórias, seus processos de autodescoberta e de trânsitos e jornadas, além do relato de uma mulher cisgênera, mãe de uma adolescente trans. O longa fez parte da seção Programa Queer.doc do 29º Festival Mix Brasil, e também esteve em outros eventos brasileiros, como a 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e o Cine Ceará. Os protagonistas da produção são Samilla Marques, uma funcionária pública; Érikah Alcântara, uma professora; Caio José, um enfermeiro; e o acadêmico Kaio Lemos. Elus passaram por um delicado processo de auto aceitação até compreenderem a sua subjetividade. Já a jornalista Mara Beatriz, mulher cisgênero, enfrentou a transfobia de perto e refez sua vida ao tomar conhecimento que era mãe de uma adolescente transgênero. Hoje, é uma das mais ativas militantes do grupo Mães pela Diversidade no Ceará. Desconstrução e diálogo com a sociedade Kaio Lemos, que participa do longa, aponta os retrocessos que a população LGBTQIAP+ vem sofrendo desde 2018, quando o governo fascista de Bolsonaro chegou ao poder. “Nós estamos vivendo uma pandemia de Covid-19, mas também vivemos uma pandemia de discursos de ódio, de violência e de morte. É um cenário de pavor. E a população trans é uma das mais atacadas, numa violência legitimada por esse desgoverno atual”, afirma. Para ele, a importância de TRANSVERSAIS é a potência de desconstrução e de estabelecer um diálogo com a sociedade e, dessa forma, combater essa violência que não é só discursiva, mas também de ações. “Ao mostrar a nossa realidade, o filme se torna uma eficaz ferramenta de combate ao patriarcado, ao machismo e ao falocentrismo tão vigentes”, completa. Érikah Alcântara chama a atenção para a oportunidade de dar visibilidade a pessoas trans dentro de diversos contextos, para além da segregação social imposta, com que comumente são representades. Ela explica: O filme mostra que, diferentemente do que a sociedade costuma apontar, nós podemos ser o que quisermos, vivenciar rotinas familiares, rotinas de afeto, rotinas profissionais. Isso tudo de uma maneira muito natural. Já Samilla Marques Aires define TRANSVERSAIS como “um rompimento de paradigmas”. “É desconstruir padrões da nossa sociedade cisheteronormartiva, mostrando nossos corpos e nossas corpas de pessoas trans. Mais que um filme, TRANSVERSAIS para mim é um ato político no momento que a gente vive no País.” FOTOGRAFIA: Juno Braga e Linga Acacio Reportagem produzida com o apoio da Sinny Assessoria e Comunicação, especializada em cinema e cultura.
Festival Perifericu celebra cultura LGTQIA+ de quebrada em SP

Festival Perifericu acontece do dia 9 a 13 de fevereiro de forma presencial e online com shows, mostra de curtas-metragens, slam e rodas de conversa. Edição: Carolina Fortes Entre os dias 9 e 13 de fevereiro, as favelas da Zona Sul de São Paulo serão palco do Perifericu – Festival Internacional de Cinema e Cultura da Quebrada. Com intervenções itinerantes, como apresentações musicais, mostra de curtas-metragens e slam, o evento tem como objetivo valorizar as diversas manifestações e processos artísticos da população LGBTQIAP+ periférica. Rosa Caldeira, diretor e roteirista na produtora de audiovisual comunitário Maloka Filmes, que organiza o evento, lança o panorama: “Enquanto pessoas periféricas, trans, pretas e LGBs, estamos tentando mudar a estrutura de eventos de artes no Brasil: queremos transformar desde o topo, alterando as pessoas que tomam decisões, quem trabalha no evento, quais são as corporeidades, as artes e os pensamentos valorizados ou não.” Para o cineasta Well Amorim, um dos realizadores do festival, a ideia é dar protagonismo às corpas trans e negres dentro de um universo extremamente branco, hétero, cis e elitista e, por isso, pouco seguro e receptivo. “Criar um festival é também fazer com que existam espaços seguros para celebração da nossa arte, com os nossos, gente preta, TLGB+, maloqueires. Na quebrada, que é o nosso centro”, afirma. Nay Mendl, cineasta e um dos idealizadores do evento, diz que o desafio não é só o de produzir filmes nas maiores adversidades, mas também fomentar espaços para que as obras cheguem nas pessoas de quebrada. “Queremos que elas tenham um espaço para debater e refletir sobre arte e que as outras formas de cultura de quebrada consigam existir nos espaços cinematográficos”, explica. Confira a programação do Festival Perifericu Além de acontecer de forma presencial, o evento também será transmitido online por meio da plataforma Todesplay, que irá veicular os filmes de 9 a 15 de fevereiro. Aqueles que optarem por ir até os locais devem apresentar a carteira de vacinação com as duas doses completas contra a Covid-19 e utilizar máscaras PFF2 ou N95. A programação contará com mesas de debates, sessão de curtas e uma minifesta de Ballroom. O show de encerramento ficará por conta de BadSista e das Irmãs de Pau, que também apresentarão os vencedores. SERVIÇO Festival Perifericu – Festival Internacional de Cinema e Cultura da Quebrada. Data: 9 a 13 de fevereiro Local: Associação Bloco do Beco, Espaço Reggae e Casa de Cultura M’Boi Mirim Confira a programação completa em: https://www.instagram.com/festivalperifericu/ FOTOGRAFIA: Griot Assessoria Reportagem produzida pela Griot, assessoria de comunicação antirracista especializada em contar histórias de artistas, eventos, projetos culturais e criadores de conteúdo para a mídia e na internet.
Travesti Biológica: Mavi Veloso exalta corpes trans em EP de estreia

Brasileira morando na Holanda, Mavi Veloso lança álbum visual Travesti Biológica e aborda as singularidades de viver entre duas culturas diferentes.
Não-monogâmicos, gente como a gente

Jovens não-monogâmicos compartilham como vivem, se relacionam e lidam com ciúmes e inseguranças – e dão dicas para lidar com neuras do amor
É música de sapatão (e muito mais)

Ouça uma playlist feita pela cantora de funk Mc Mano Feu que vai de clássicos da Furacão 2000 a Cássia Eller e Bia Ferreira. Cria de Campinas, Mc Mano Feu deu play no interesse por música aos 12 anos de idade, influenciada pelos hits da Furacão 2000. Para quem não tá ligade, a produtora e gravadora carioca foi uma das principais precursoras do funk pelo Brasil nos anos 90 e lançou os hits Dança da Motinha, de MC Betty; Agora Tô Solteira, da Gaiola das Popuzadas; e Égua Pocotó, de MC Serginho e da icônica Lacraia. De família, Mano Feu herdou o gosto por samba, uma vez que o ritmo era o mais ouvido dentro de casa durante a infância. Já na adolescência, a MC conheceu o rap, que era o som que tocava alto na sua quadrada. O tempo passou e deu no que deu: Mano Feu começou a compor funk de putaria lésbica. Seu último lançamento, Linguadinha na XXT ainda tá fresco e chegou as plataformas digitais no Dia do Orgulho LGBTQIAP+. Hoje, a MC se diz ser uma pessoa bem eclética e que tem se inspirado muito em músicas e letras específicas, independentemente do gênero. “minha vida guia as minhas composições”, diz ela. “Se tenho um dia muito daora, é sobre os sentimentos e quem estava comigo que vou escrever”. APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE. Participe do financiamento coletivo da Emerge. Veja (e ouça) abaixo uma playlist criada por MC Mano Feu, que compartilhou suas principais inspirações, com muito talento nacional, mulheres lésbicas da velha e da nova geração e outros artistas de funk, rap, samba e MPB. LEIA TAMBÉM: Elas fazem o baile delas: mulheres lésbicas no funk
Elas fazem o baile delas: mulheres lésbicas no funk

Jovens cantoras de funk falam sobre os desafios e as safadezas de mulheres que amam mulheres no ritmo da periferia.
O que é pansexualidade?

Termo é usado por pessoas que não limitam suas escolhas amorosas ao gênero e sexualidade do parceire. É aquele lance “gostar de pessoas”.
Meio século da Revolta de Stonewall

Na madrugada do dia 28 de junho de 1969, aconteceu um dos levantes mais transformadores e simbólicos da luta por diretos civis LGBTQI+
O melhor de Ame Apolinário em sua própria revolução

Estilista da Cemfreio faz sua estreia na música com Melhor de Mim, que tem como pilares
moda, música e design num viés subversivo