Quase 70% dos brasileiros conhecem alguém abertamente homossexual
Brasil está no topo do ranking no número de pessoas que têm conhecidos gays ou lésbicas. Porém, o país ainda é um dos mais transfóbicos.
“Eu sou assexual”
Falar abertamente de sexo ainda é um tabu. Se afirmar como uma pessoa assexual, que não sente vontade de transar, pode ser ainda mais.
Detox de homem. Mulheres têm evitado relacionamentos
Perspectivas pessimistas de relacionamentos heterossexuais têm feito com que mulheres recusem envolvimento, emocional e sexual.
Numa sociedade obcecada por sexo, como é ser assexual?
Ser assexual é não sentir vontade transar. A letra A da sigla LGBTQIA+ é um espectro com diferentes níveis de intensidade e categorias.
Por que jovens das periferias entraram no mercado de conteúdo adulto
Assédio, instabilidade das redes e preconceito são preocupações de mulheres das quebradas no mercado de conteúdo adulto.
A história secreta dos vibradores
Como mulheres se apropriaram de um instrumento médico para conquistar autonomia sobre sua própria sexualidade #EmergeReposta: Nathalia Cariatti originalmente publicado na RevistaAzMina Até 2030 estima-se que o mercado mundial de sex toy alcançará o valor de 62 bilhões de dólares. Mas antes de integrar um mercado bilionário e existir em formas que vão do coelhinho ao polvo, os vibradores sequer eram desenvolvidos para o prazer sexual. A história do vibrador começa na medicina e no uso exclusivo desses equipamentos por médicos dentro de seus consultórios. VIBRADOR PRESCRITO EM CONSULTÓRIO No século XIX a medicina recomendava as “vibrações” como tratamento para os mais diversos tipos de doenças, de reumatismo à perda auditiva. Os vibradores foram inventados então para facilitar esse tratamento, existindo em versões mecânicas e a vapor. Foi só em 1880 que o vibrador elétrico surgiu, criado no Reino Unido pelo médico Joseph Granville, para poupar os esforços dos médicos ao aplicarem os tratamentos como vibrações. Entre as muitas doenças tratadas com os vibradores estava a histeria, um diagnóstico dado majoritariamente às mulheres desde a Grécia Antiga. Não só sintomas diversos como enxaqueca e insônia, mas também comportamentos como desobediência ou muita libido eram diagnosticados como histeria. E um dos tratamentos recomendados para essa doença era a massagem pélvica feita pelo médico na paciente. Em 1999, a pesquisadora Rachel Maines publicou que o uso dos vibradores para o prazer sexual teria começado aí, com médicos masturbando pacientes até que elas alcançassem o “paroxismo histérico”, isto é, o orgasmo. A história se popularizou, mas também gerou reações de outros estudiosos do tema, em especial de Hallie Lieberman. A historiadora afirma que, sim, vibradores eram usados para tratamentos médicos diversos, incluindo o da histeria. Mas sobre o uso do vibrador na genitália das pacientes, não há comprovação para que essa afirmação passe de uma hipótese. LEIA TAMBÉM: Luedji Luna e a sensualidade e o desejo das mulheres negras – Emerge Mag O USO SECRETO DO VIBRADOR Nos últimos anos do século XIX os vibradores já não tinham mais respaldo médico, uma vez que os tratamentos com eles pareciam não ter nenhuma eficácia para a saúde. Sem o interesse da medicina, os fabricantes de vibradores se voltaram então para o público em geral. Eles passaram a ser vendidos para massagem relaxante, perda de peso e contra dores musculares. Já o uso do vibrador para a masturbação teria partido das próprias mulheres. Ser considerado um mero eletrônico para toda a família permitiu que o vibrador fosse facilmente comprado em lojas de utensílios domésticos. Isso durante as décadas nas quais vigoravam leis rigorosas sobre a moralidade sexual nos Estados Unidos. Mas aí nos anos 60 o uso do vibrador como artigo erótico passou a ser mais difundido publicamente. Uma das responsáveis foi a feminista americana Betty Dodson. Ela recomendava vibradores como a “varinha mágica” em workshops nos quais ensinava mulheres a conquistarem autonomia sobre o próprio prazer. Embora tenha se popularizado pelo seu potencial para o prazer, a “varinha mágica” foi vendida pela fabricante Hitachi por mais de quatro décadas apenas como massageador muscular. Só nos anos 2000, quando o modelo foi adquirido por outra empresa, é que a varinha passou a ser anunciada como sex toy (brinquedo sexual). O vibrador evoluiu em forma, funcionalidade e popularidade no século XXI. Ele chegou na segunda década dos anos 2000 sendo silencioso só nos ruídos. Se a própria sexualidade e a masturbação feminina passaram a ser discutidas com mais liberdade, nada mais natural que o vibrador, que faz parte dessa história, também virasse assunto. Para saber mais sobre a história do vibrador desde a sua invenção, assista ao vídeo com a narração da comediante Renata Said sobre essa história no canal d’Az Mina no YouTube. Este texto foi originalmente publicado na RevistaAzMina. | Foto de Abertura: Freepik
Emerge Artistas Visuais: Filipe Braga
O carioca Filipe Braga se vale da fotografia e artes plásticas para explorar temas sentimentais e corporais, entre o prazer e a curiosidade.
Emerge Artistas Visuais: Lucas Bandeira
Lucas Bandeira estabelece relações entre arte, performance e gênero na busca e criação do corpo possível, imaginativo e desidentitário.
Luíza Fazio: lésbicas na frente e atrás das câmeras
Roteirista de “Sintonia”, Luíza Fazio escreve longa-metragem infantil sobre um amor lésbico e quer subverter normatividade que ronda o cinema Histórias de amor lésbico são documentadas há pelo menos 2,6 mil anos. No século 6 a.C., a poeta Safo já colocava como tema central de suas obras relacionamentos homossexuais entre mulheres. Inclusive, é por causa dela que usamos a palavra lésbica, que originalmente designa “alguém de Lesbos”, ilha grega em que a poeta vivia. Por que, então, é tão difícil vermos essas relações representadas na televisão, nos livros ou no cinema? Escritora de séries como “Sintonia” (Netflix), “Sentença” (Amazon Prime), “LOV3” (Amazon Prime) e “Cidade Invisível” (2ª temporada/Netflix), a roteirista Luíza Fazio tenta subverter essa normatividade que ronda as histórias que assistimos nas telas e lemos nas páginas dos livros. Em sua trajetória, a brasileira conta histórias de protagonistas diversos, sobretudo mulheres e pessoas LGBTQIAP+, com o objetivo de ampliar olhares e narrativas e mostrar contextos poucos vistos nas telas. Luiza diz que o lance é não imaginar personagens dentro de estereótipos, e sim humanizá-los dentro de suas diferenças. “Quando há personagens complexos, lidando com diferentes problemas, o público engaja e torce por eles. Humanizamos a experiência de alguém que existe na vida real” Recentemente, a roteirista foi nomeada pela embaixada dos Estados Unidos em Brasília para a residência artística The International Writing Program (IWP) da University of Iowa (EUA). Desde 1967, o programa reúne anualmente 35 escritores de todas as partes do mundo, incluindo os brasileiros Milton Hatoum e João Ubaldo Ribeiro. Além disso, ela escreve uma série de comédia para a Paris Entretenimento e, ao lado de Anahí Borges, seu primeiro longa-metragem de animação: uma adaptação para o cinema do livro “A Princesa e a Costureira” (2015), de Janaína Leslão, que conta a história de uma princesa que se apaixona pela costureira de seu vestido de noiva. Em entrevista à Emerge Mag, a roteirista Luíza Fazio conta como tem sido a experiência de integrar a residência artística mais antiga do mundo, fala sobre os seus novos projetos e comenta sobre diversidade na frente e atrás das câmeras. Confira abaixo a entrevista completa com a roteirista Luíza Fazio Falando dos seus projetos futuros… Vi que você está trabalhando em uma animação. Poderia me falar mais sobre isso? Essa animação é uma adaptação de um livro infantil da Janaína Leslão “A Princesa e a Costureira”, em que uma princesa se apaixona pela costureira do seu vestido de noiva. Eu e a Anahí Borges (corroteirista) estamos adaptando esse livro para um longa-metragem e é a minha primeira vez trabalhando com longa e animação. Eu decidi entrar nesse projeto porque sempre foi o meu sonho escrever um longa infantil, especialmente um musical, e a história e a temática me envolvem muito. Acho que pode ser algo muito bonito e que traz a perspectiva de um relacionamento lésbico atual para crianças de uma maneira muito natural e fofa, porque é assim que é. Você acredita que o cinema vem dando mais espaço a relacionamentos lésbicos? Como você enxerga as narrativas dessas personagens? Acredita que ainda são muito apagadas/fetichizadas? Acho que o cinema vem dando mais espaço para relacionamentos lésbicos, mas a narrativa ainda é muito sobre duas mulheres brancas e femininas. É uma estética de casamentos lésbicos que “vendem”. É muito difícil vermos um relacionamento entre duas mulheres butches, duas mulheres negras, ou gordas. São relacionamentos que têm dilemas e questões diferentes do que o casal lésbico padrão. Como agora as coisas estão se abrindo um pouco mais, dá para explorarmos outras narrativas. Uma tentativa interessante foi em Euphoria, onde temos a relação entre a Rue (Zendaya) e a Jules (Hunter Schafer), que é uma menina trans. O caminho que foi levado na segunda temporada foi horroroso mas, enquanto primeira temporada, tem questões muito interessantes da sexualidade da Jules em relação a Rue, que são outras complexidades. Em várias entrevistas suas, você comenta sobre a falta de diversidade por trás das câmeras. Como você acha que isso impacta na falta de diversidade em frente às câmeras? Acredita que uma coisa está diretamente relacionada à outra? Sim, com certeza. Eu falo muito da representatividade LGBTQIAP+ porque a gente sente na pele o “cadê eu”. E esse sentimento faz a gente criar um senso crítico do quão importante é colocar diferentes narrativas, vozes e pessoas em tela para mostrar que elas existem e são complexas. É uma forma de ajudar a visibilizar diferentes narrativas que não só a “hollywoodiana” do homem cisgênero, branco e hétero. Acho que quanto mais a gente consegue diversificar as pessoas que estão atrás das câmeras, mais esse assunto é tratado com naturalidade e sai de uma esfera “a gente precisa ter um personagem gay porque senão seremos cancelados na internet”. Sai da necessidade de ser apenas uma estratégia de marketing para ser algo que as pessoas realmente se importam. Como está sendo a experiência de ser uma das 35 escritoras escolhidas para viver a residência artística The International Writing Program nos Estados Unidos? Quais momentos têm sido mais marcantes para você? As trocas que estamos tendo aqui são muito intensas e incríveis, porque tem pessoas do mundo todo e de diferentes backgrounds. Cada um tem a sua forma de arte e de escrita específica. Uma pessoa que me marcou muito foi Tariro Ndoro, uma poeta do Zimbábue, que é um país que não recebemos muitas notícias aqui no Brasil por milhares de fatores. Ela conta muito sobre como é a realidade no Zimbábue diante de uma inflação que se assemelha muito à que o Brasil vivia nos anos 1980. Mas, ao mesmo tempo, é incrível como as pessoas conseguem colocar isso na sua arte. O Zimbábue tem uma cena literária muito efervescente, e vários aspectos disso nós não temos acesso com tanta facilidade na mídia brasileira. Isso me inspira muito a pensar em diferentes narrativas, pessoas e realidades. Você está conhecendo pessoas de todas as partes do mundo na residência artística. Como você sente essa troca cultural das percepções
Irreverente, Burlesco sai dos palcos e invade livros
Dançarina Mirela Perez lança “A Semiótica do Burlesco”, em que narra um apanhado histórico das origens da dança criada por mulheres A performance de Christina Aguilera e Cher no filme Burlesque, assim como o glamour da música Lady Marmalade, estrelada por Aguilera, Lil’ Kim, Mya e Pink, popularizaram a dança Burlesco no mundo todo. O estilo, que remonta ao século 16, surgiu na Europa como paródias de obras tradicionais da literatura e do teatro. No seu cerne, o Burlesco já tem como essência burlar um padrão, uma cultura. Mesmo há centenas de anos, mulheres usavam essa arte para questionar os padrões da época, a partir de brincadeiras com as técnicas de dança, teatro, circo e mágica. Atualmente, os pilares do Burlesco se mantêm firmes. E foi toda essa irreverência, além da beleza, cor e alegria, que fizeram Mirela Perez levar o Burlesco para uma área que parece ter pouca proximidade com a dança: a academia. Salto alto, brilho e muito glamour não é o que imaginamos encontrar nos corredores das universidades. Mesmo assim, estimulada por sua orientadora, a dançarina decidiu pesquisar o tema no mestrado e mais: transformá-lo em livro. Em 2022, lançou “A Semiótica do Burlesco” (compre aqui), em que traz um apanhado histórico das origens da dança, bem como uma análise semiótica detalhada sobre os elementos visuais que compõem o individual feminino, dividido em três: Glamour, Fetiche e Desconstrução. Devido à escassez de material acadêmico sobre o tema, Mirela optou por fazer uma pesquisa de campo e entrevistar as responsáveis por dar vida à técnica: as alunas da Escola Burlesca de São Paulo. Fundada em 2005, a Escola Burlesca de São Paulo é a primeira escola dedicada ao ensino da prática no Brasil. O negócio é gerido por Shaide Halim, mais conhecida por Lady Burly. Formada em Broadway Jazz, Jazz Clássico e balé, Shaide também é professora na escola, que conta com outras quatro mulheres no quadro de funcionárias. A proposta de valor – e o propósito – da escola é difundir a dança para profissionais e entusiastas da arte, sem esquecer dos conceitos históricos, sociais e intelectuais que compõem o universo do Burlesco. A história do primeiro contato de Mirela com a escola é curiosa. Ela conta que marcou uma data para conhecer espaço e entrevistar Lady Burly. Porém, no dia marcado, a professora esqueceu da entrevista e achou que ela estava lá para fazer uma aula experimental. “Fiz a aula e a entrevista”, diz Mirela, aos risos. “Me apaixonei pela dança e não parei mais de frequentar a escola”. Criado por mulheres, Burlesco enfrenta preconceito e machismo Em seu artigo “De onde vem o Burlesco”, a artista Giorgia Conceição, conhecida como Miss G, revela que a história do que hoje chamamos de Burlesco é feita por “mulheres, freaks e marginais, artistas pouquíssimo valorizados, que formam um lado obscuro e pouco conhecido do teatro e das artes cênicas”. Por isso, por mais que seja uma prática centenária, o Burlesco ainda é alvo de muitos olhares tortos e preconceituosos. Mirela chama atenção para o machismo que as dançarinas sofrem, principalmente por se tratar de uma performance sensual. Ela explica: “O estereótipo associado as dançarinas tem origem numa educação religiosa deturpada, entre pessoas mal resolvidas com o próprio corpo e a sexualidade. O Burlesco é um espelho que obriga as pessoas a enxergar algo que elas ainda não estão preparadas para ver” No meio conservador da academia, a artista enfrentou barreiras tanto psicológicas quanto práticas, como assédio moral e dificuldade em buscar revistas acadêmicas para publicar artigos sobre o tema, sobretudo de outros alunos. De acordo com Mirela, uma vez que o Burlesco é uma arte que aborda sensualidade, sexualidade e glamour, ele acaba adentrando o “hall das futilidades acadêmicas”. Assim, há certa estranheza e invalidação da pesquisa, em prol de uma “nobreza de aplicação de tema”. Mirela ressalta, porém, que a técnica busca justamente o contrário: ajudar as pessoas a se enxergarem em todas as suas multiplicidades e facilitar a jornada de autodescoberta e empoderamento, assim como fez com ela. “O Burlesco devolveu minha autoestima e me deu controle sobre o meu corpo e minha sexualidade”, conta. IMAGENS: Divugação