“A diversidade de ideias e o diálogo entre os diferentes causam inovação real”

04/03/2026

Pesquisadora explica o cenário brasileiro das deep techs, empresas que usam a ciência para resolver grandes problemas do mundo.

O Brasil abriga a maioria das deep techs da América Latina. É o que mostra o relatório Latam Deep Tech Radar 2025, lançado pela consultoria Emerge Brasil em parceria com a organização de empreendedorismo tecnológico Cubo Itaú. Das 1.312 deep techs da região, as brasileiras são 952 (72,3%).

Apesar do amplo domínio na quantidade, o Brasil está em terceiro no ranking anual de investimento, com total de 216 milhões de dólares. Primeiro colocado, o Chile, com população dez vezes menor, investiu quase o triplo (607 milhões de dólares). A Argentina aplicou 486 milhões de dólares, e está na segunda posição.

Mas o que são deep techs? Como essas empresas afetam a nossa vida?

Deep techs são empresas que resolvem problemas complexos da humanidade. Seus produtos são fundamentados em descobertas científicas, geralmente feitas em laboratórios, universidades ou centros de pesquisa. Entre os exemplos, há deep techs que ampliam a oferta de alimentos, descobrem curas para doenças, geram energia limpa e produzem novos materiais.

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Para entender o cenário das deep techs no Brasil, Emerge Mag conversou com Silvia de Tommaso. Após liderar por quase 30 anos uma pequena indústria da família, Silvia migrou de carreira e passou a atuar como consultora e pesquisadora, liderando projetos de estratégia e empreendedorismo.

Nos últimos anos, Silvia tem investigado empreendedores deep tech regenerativos. Ou seja, aqueles que que desenvolvem tecnologias avançadas focadas não apenas em reduzir danos ambientais, mas em restaurar ativamente ecossistemas, regenerar o solo, aumentar a biodiversidade e capturar carbono, entre outras medidas.

“Há quase 30 anos falamos sobre os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU operando os mesmos modelos de negócios. Mas não está funcionando. Para ter resultados diferentes, precisamos de outra abordagem.”

Silvia de Tommaso, pesquisadora de deep techs regenerativas.

Pós-doutoranda na FEA-USP, ela integra o Cepid Bridge, centro de pesquisa em gestão dedicado a compreender e ampliar o impacto dos ecossistemas na solução de grandes desafios, como a desigualdade, as mudanças climáticas e a desindustrialização.

Para ela, a ciência pode trazer explicações diante de cenários complexos, mas só é possível ter inovação ao considerar as questões sociais e ambientais profundas do país.

Leia os principais trechos da entrevista.

SILVIA DE TOMASSO: inovação deve considerar questões socioambientais profundas do Brasil (foto: divulgação)
Qual a definição de Deep Tech?

Deep Techs são empreendimentos fundamentados em descobertas científicas e tecnológicas aplicadas. Não basta ter o conhecimento científico; ele precisa gerar produtos ou serviços que melhorem a vida das pessoas ou das empresas.

As Deep Techs navegam em contextos de altíssima incerteza, pois, muitas vezes, trabalham inovações disruptivas, sem um mercado estabelecido. Essa incerteza também passa pelo investimento. Por causa do ineditismo, não é possível os investidores saberem o exato poder das deep techs.

No Brasil, agências de fomento governamentais, como FAPESP e Finep, realizam investimentos em deep techs em fase inicial.

Quais as semelhanças e diferenças entre deep techs e empresas de tecnologia tradicionais?

Uma característica fundamental é que o cientista não precisa ser, necessariamente, o dono da empresa. O empreendedor Deep Tech é aquele que utiliza a ciência e a tecnologia aplicada como recurso principal, aprendendo a transitar entre diferentes ecossistemas: o do conhecimento (universidades/laboratórios), o empreendedor (startups) e o de inovação (indústria). É diferente de uma startup tradicional, que busca escala rápida através de tentativa e erro constante.

“A deep tech demanda mais tempo para ser assertiva e disruptiva, o que transforma a ciência em valor econômico relevante.”

Qual o maior desafio para transformar pesquisa científica em negócios viáveis no Brasil?

As pesquisas do Cepid Bridge mostram que o maior desafio não é o capital. O desafio é conseguir chegar à solução. Quando se chega à solução, há abundância de capital. Mas há um contrassenso: é necessário capital para chegar na solução, pois é assim que se dá o desenvolvimento da ciência, mas há capital das agências de fomento. O problema no Brasil é que, muitas vezes, se esquece de focar na dor da sociedade desde o primeiro dia.

O ideal seria ter o empreendedor trabalhando junto com o cientista desde o início do desenvolvimento do método científico. No Brasil, os ecossistemas parecem estar separados. Daí propomos a figura do knowledge broker (agente de negócios do conhecimento), que identifica a dor do mercado e busca a solução nos centros de pesquisa, fazendo o “match” inicial. Isso encurta a jornada e reduz a incerteza, que favorece o “capital paciente”, pois há um mediador entre quem detém a dor (empresa) e quem detém o método (cientista).

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O fato de o mercado guiar a pesquisa não pode fazer com que descobertas disruptivas sejam limitadas?

É uma incerteza, não um risco. O risco é mensurável e probabilístico; a incerteza não tem passado e precisa ser testada. O empreendedor navega justamente na incerteza em busca de oportunidades. No Brasil, tratamos o empreendedorismo muito pelo viés do risco porque o ambiente de negócios é ruim. Mas há países, como a China, que tem programas de mestrados e doutorados pautados pelas dores reais das empresas. Então, podemos ter pesquisas aplicadas sem eliminar as pesquisas puras. O que não funciona é o modelo dicotômico de “ou um ou outro”.

O mundo precisa de diversidades de ideias, que acontece quando você traz pessoas de trajetórias, vivências, atuações e áreas do conhecimento diferentes. Por quê? Porque elas vão enxergar o mundo de formas diferentes. A diversidade de ideias e o diálogo entre diferentes áreas é o que traz a inovação real.

AGRICULTORES CHINESES: país criou programas de mestrado e doutorado para soluções aplicadas (foto: VCG/Getty Images)
Como as Deep Techs dialogam com a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança)?

O ESG nasceu no mercado financeiro para desvendar as externalidades das empresas que não apareciam nos balanços econômicos. A sustentabilidade real está na estratégia: em como você toma decisões considerando as consequências sociais, ambientais e econômicas das suas operações. As Deep Techs trazem pensamento sistêmico para resolver problemas complexos, como poluição e saúde.

“No Brasil, precisamos transformar a agenda ESG em valor para o cidadão comum, furando a bolha ideológica.”

A empresa privada é fundamental nesse processo porque detém o recurso, a gestão e a operação. Como disse Kofi Annan, sem as empresas privadas, o desenvolvimento sustentável será apenas um sonho.

O ecossistema de tecnologia e ciência ainda é muito homogêneo?

Talvez eu concordasse com isso há 10 anos. Mas, hoje, não acho que o ambiente de tecnologia seja homogêneo. Vimos o surgimento de novas faculdades de tecnologia, como a SPTech e a Inteli, que utilizam metodologias baseadas em projetos e demandas reais do mercado, atraindo alunos de diversos backgrounds socioeconômicos. Polos tecnológicos, como os de Recife e Florianópolis, também são extremamente diversos.

Quando você pegava a área de engenharia, tinha uma mulher na turma e só quem tinha estudado numa escola de elite. Hoje, já não é assim.

“Mecanismos como bolsas e cotas trouxeram pessoas de diferentes contextos para as áreas de exatas e engenharia.”

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Quais Deep Tech têm conseguido mais investimento no Brasil? E por quê?

Principalmente as que atuam nas áreas de Bioeconomia, Biodiversidade e Saúde. Isso ocorre pela dor da sociedade. O agronegócio e a bioeconomia são motores de riqueza no país e demandam inovação, por exemplo, para fármacos e manejo sustentável, especialmente na Amazônia.

Na saúde, a população cada vez mais cedo enfrenta doenças complexas, como câncer e Parkinson, o que direciona o investimento para respostas científicas nessas áreas.

CANDIDATOS DO ENEM: políticas públicas de bolsas e cotas aumentaram a diversidade nas ciências exatas (foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Como mensurar o impacto socioambiental de uma deep tech?

Impacto é a transformação de uma realidade e só pode ser medido ao longo do tempo para verificar se a transformação perdurou. Por isso, é difícil falar em impacto real no início do negócio. O que se pode e deve fazer na fase inicial é criar cenários, mitigando incertezas e planejando como a intervenção pode gerar dignidade humana de forma mensurável no futuro, baseando-se em métricas como acesso à educação, saúde e renda.

Fotografia de abertura: biofábricas do Instituto Amazônia 4.0, que beneficiam produtos agrícolas de produtores locais no município de Balterra, no Pará (foto: Atelier Marko Brajovic).

Quem escreveu

Foto de Matheus Santino

Matheus Santino

Repórter com cinco anos de experiência em jornalismo investigativo, cultural e local. Em 2021, foi aluno do Curso de Jornalismo Ágil da Emerge. Posteriormente, trabalhou na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, Agência Mural de Jornalismo e O Estado de São Paulo. Cocriador do projeto editorial O Novo Getulino, focado em negritude e história da imprensa negra brasileira.

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