Reportagem de Vinícius Constantino e Yago Braga, alunos de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, realizada via convênio de ensino dual com a Emerge Mag, sob supervisão da docente Jaqueline Lemos.
Entre as décadas de 1940 e 1960, o bairro República, no centro de São Paulo, viveu seu apogeu ao se consolidar como o principal centro financeiro, comercial e cultural da cidade. Na época, houve intensa verticalização. São desse período edifícios icônicos da arquitetura moderna brasileira, como o Copan (1966), o Itália (1965) e o Eiffel (1956).
Mais antigo e com arquitetura art déco, o Edifício Santa Victoria, localizado na Rua Dom José de Barros, 337, esquina com a Avenida São João, também chama atenção. A singularidade do prédio está no uso que passou a ter quase um século após sua inauguração: abrigar dezenas de brechós de moda urbana (streetwear).
O Brechó Vertical, como é chamado por lojistas e clientes, tem personalidade única e atrai jovens, consumidores com consciência ambiental, curiosos em busca de economia e colecionadores. Há peças que parecem saídas de filmes dos anos 1980 e 1990, roupas contemporâneas que ganham uma segunda chance e objetos inesperados que carregam histórias silenciosas.
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O espaço se torna ainda mais relevante quando se analisa o impacto socioambiental da indústria da moda. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, são produzidas anualmente 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis em todo o mundo. A produção duplicou entre 2000 e 2015, enquanto o tempo de uso das peças de vestuário diminuiu 36%.



Outro fator que impulsiona o Brechó Vertical é a expansão do varejo de roupas usadas. Segundo dados do Sebrae-SP, o estado conta atualmente com 7.348 pequenos negócios voltados ao comércio varejista de produtos usados. Já um estudo sobre o mercado brasileiro de moda seminova, realizado pela Boston Consulting Group em parceria com a empresa Enjoei em 2023, apontou que 56% dos consumidores já fizeram ao menos uma transação de artigos usados. Boa parte desse público é formada por jovens das gerações Millennials e Z, fortemente engajados nas redes sociais — a hashtag #brecho soma mais de 322 mil publicações no TikTok.
Assim, no Brechó Vertical, o garimpo não é apenas de roupas, mas também de encontros, lembranças e novas formas de vivenciar a moda. Cada cabide carrega uma história, e cada peça se reinventa ao encontrar um novo dono. Ao circular pelo prédio, é nítida a sensação de que consumir pode ser um ato de afeto, consciência e memória.
Visitamos três brechós que fazem parte desse movimento. Esses espaços mostram como a moda de reuso também é um campo de representação cultural, afirmação e construção de pertencimento. Os conheça.
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A ARTE DE ENCONTRAR O QUE É SÓ SEU
O Item Raro é o destino perfeito para quem gosta de descobrir peças únicas. O espaço tem atmosfera de caça ao tesouro, com itens que chamam atenção à distância. João Pedro Peres, fundador do brechó, tem olhar certeiro para o garimpo. Ele escolhe tudo a dedo, buscando peças que carregam identidade e exclusividade. Nada ali parece comum — e essa é justamente a graça.
Entre as jaquetas, destacam-se peças esportivas de marcas como The North Face, conhecida por produtos voltados a atividades ao ar livre, e Sergio Tacchini, fundada pelo tenista italiano homônimo em 1966. Também chama atenção uma jaqueta oficial do Barcelona, da temporada de 2003.
“Aqui a gente garimpa de verdade. É roupa que você não encontra em qualquer lugar. Cada pessoa acha um pedaço de si em alguma peça.”
João Pedro Peres, fundador do Item Raros.
Nos fins de semana, o movimento aumenta. Jovens circulam sem pressa; alguns frequentadores retornam com frequência, enquanto outros descobrem o brechó por acaso. O mais interessante é que ninguém sabe exatamente o que vai encontrar — e essa imprevisibilidade faz parte da experiência. Peças raras aparecem entre achados acessíveis, e a sensação de encontrar “aquela” peça se transforma quase em um ritual.
Para João, as roupas têm alma e carregam histórias. Nesse sentido, vender em um brechó vai além do comércio: significa conectar trajetórias diferentes.



HOMENAGENS AOS ESTILOS DO PASSADO
O Novidades Antigas parece ter ritmo próprio. O brechó de Fabiano de Sousa, conhecido como Mister, soma mais de 20 anos de história, e cada canto guarda vestígios do tempo. Há objetos que remetem à casa da avó, roupas que parecem ter saído dos anos 1970 e peças que revivem tendências esquecidas.
“A moda vai e volta. A gente só ajuda ela a voltar no momento certo. É gratificante.”
Fabiano de Sousa, o Mister, fundador do Novidades Antigas.
Um dos destaques da loja é um tênis da Adidas criado em colaboração com a franquia Star Wars. Lançado em 2007, o modelo integrou uma coleção comemorativa dos 30 anos do primeiro filme da saga, lançado em 1977.
O que muitos não sabem é que o brechó quase fechou durante a pandemia. Para sobreviver, Mister precisou vender roupas da própria casa, improvisando alternativas para manter o público engajado. Hoje, o espaço continua conhecido pelas peças retrô, pela atmosfera acolhedora e por atrair desde colecionadores até visitantes ocasionais.
Quem compra também carrega histórias. Muitos chegam pela nostalgia; outros, pela curiosidade. “Tem gente que vem para comprar, outras para conversar e muitas para lembrar do passado”, conta Mister.



UMA COMUNIDADE ATENTA AOS DETALHES
O Deluxxe tem a energia de casa de amigo. O responsável pelo espaço, Juan Rakin Soares Mariz, recebe cada visitante como se já houvesse intimidade. Entre risadas, comentários sobre moda e histórias das peças que passaram por ali, ele deixa claro que o local vai além de um comércio tradicional.
Nas araras, há jeans, vestidos, peças de alfaiataria, como blazers e camisas, além de itens de streetwear. Todo o ambiente transmite simplicidade, atenção aos detalhes e uma perspectiva que muita gente esquece no meio da correria cotidiana.
“Brechó é isso, né? Dar nova vida para uma peça que alguém deixou para trás. Quem gosta de brechó vive uma comunidade”, afirma Juan.
É difícil entrar no Deluxxe e sair rapidamente. Em poucos minutos, Juan identifica o estilo da pessoa, sugere combinações e inicia conversas inesperadas. Aos poucos, o espaço se transformou em um lugar onde o encontro importa tanto quanto a roupa. Ali, moda e afeto se misturam de maneira natural.







