Reportagem de Catarina Gonçalves, João Soares, Luís Souza, Nicolas Carraro, alunos de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, realizada via convênio de ensino dual com a Emerge Mag, sob supervisão da docente Rose Naves.
Nos últimos meses, o cinema deixou de ser um ambiente simbolicamente distante para os moradores da ocupação Elza Soares. Localizada a poucos metros da estação de metrô Ana Rosa, na zona centro-sul da cidade de São Paulo, a ocupação abriga 17 famílias e é gerida pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Em julho de 2025, o local ganhou uma sala de cinema popular.
Desde então, seis filmes estiveram em cartaz na ocupação. As exibições são gratuitas e abertas também a visitantes. Entre os moradores, há pessoas que experimentaram pela primeira vez o prazer de ver um filme em uma tela de projeção. Detalhe: a cidade de São Paulo possui a maior concentração de cinemas do Brasil, com cerca de 400 salas, de acordo com dados da Prefeitura. Desse modo, transformar ocupações em salas populares não é apenas uma iniciativa criativa, mas também uma resposta concreta à histórica ausência de políticas públicas que garantam acesso amplo e democrático à cultura.
Uma das sessões que mais lotaram foi a do longa Homem com H, cinebiografia do cantor Ney Matogrosso. Assim como em boa parte das exibições, houve debate após a sessão. O ponto alto foi a presença do diretor do filme, Esmir Filho, e do ator Jesuíta Barbosa, que interpreta o personagem principal.
“O cinema existe para que as pessoas compartilhem a experiência coletiva de ver um filme e, depois, reflitam juntas sobre a obra”, afirma Esmir.

Para Jesuíta, participar da sessão na ocupação foi uma experiência “transformadora”. Ele afirma que o cinema tem uma função social, sobretudo em relação às pessoas em situação de vulnerabilidade, e relembra a fala de uma mãe que defendeu a liberdade e o acolhimento da filha transexual durante a exibição e o debate.
“Participar do Cinema Sem-Teto me fez perceber novamente por que vale a pena fazer cinema no Brasil.”
Jesuíta Barbosa, ator.
O Cinema Sem-Teto também exibe filmes independentes que abordam questões sociais, como direito à cidade e justiça climática. Um exemplo é o documentário Um Lugar na Cidade, de Gabriel Silvestre, que parte das ideias do filósofo francês Henri Lefebvre para discutir como comunidades urbanas na América Latina enfrentam desafios como deslocamento forçado, segregação urbana e desigualdade de gênero. A proposta do filme é abordar o direito à cidade não apenas como acesso à moradia, mas como participação ativa na construção de espaços urbanos mais justos.
Outra vertente de filmes exibidos na ocupação são produções sobre iniciativas do próprio MTST. Fé na Luta e Comida no Prato é um curta-metragem sobre o combate à fome e a organização comunitária. O documentário detalha o funcionamento e a importância da Cozinha Solidária do MTST no município de Santo André.
Programa amplo do MTST, com abrangência nacional, a Cozinha Solidária reúne 55 centros que garantem alimentação a mais de 12 mil pessoas de baixa renda. Além disso, oferece oficinas, rodas de conversa, atendimento jurídico, psicológico e de saúde, saraus e cursos de alfabetização para a comunidade, funcionando como um importante equipamento social em locais carentes desses espaços de convivência.
De acordo com Fernanda Gamarano, diretora de Fé na Luta e Comida no Prato, o cinema exibido em ocupações gera interações extremamente singulares com o público. Além de garantir a cultura como direito, as exibições funcionam como uma escola de afeto, visão de mundo e política.
“O público preenche as cenas com suas próprias histórias, dores e forças. É um público que potencializa o filme.”
Fernanda Gamarano, diretora de Fé na Luta e Comida no Prato.

DIREITO À MORADIA TAMBÉM É DIREITO À CULTURA
O projeto Cinema Sem-Teto começou em 2024, em ocupações do MTST em Pernambuco. Anteriormente, já havia exibições pontuais em unidades da Cozinha Solidária. No entanto, os organizadores sentiram a necessidade de estruturar a iniciativa para ampliar o alcance e atingir pessoas que nunca haviam entrado em uma sala de cinema.
De acordo com Ton Lopes, coordenador de arte e cultura do MTST-SP, a luta do movimento não se restringe à moradia. Nesse sentido, ele afirma que o direito à cultura eleva o espírito e explica que o projeto se organiza em três eixos: o cinema vai até o sem-teto; o sem-teto vai ao cinema; e o sem-teto faz cinema.
Na prática, as sessões do Cinema Sem-Teto são organizadas coletivamente, com projetores emprestados, cadeiras doadas e paredes transformadas em telas. O que pode parecer improviso é, na verdade, método. Como não há especialistas entre os organizadores, uma pessoa fica responsável pelo som, outra prepara a pipoca e outra organiza o espaço. “O cinema só existe porque existe o coletivo”, afirma Ton.
Karina Holanda, uma das organizadoras do Cinema Sem-Teto na ocupação Elza Soares, reforça que a cultura integra a pauta histórica do movimento. Depois da moradia, o movimento luta por educação, saúde e cultura. “Trazer o cinema para dentro das ocupações faz as pessoas se reconhecerem nas histórias”, diz. “Isso muda tudo.”
Sustentado por doações de militantes e apoiadores, o projeto mantém autonomia e afirma um posicionamento político claro.
“Estamos fazendo o papel que deveria ser do Estado: levar cultura de graça para o povo. Em pleno 2025, ainda há quem nunca tenha ido ao cinema. Isso revela o tamanho da desigualdade brasileira.”
Ton Lopes, coordenador de arte e cultura do MTST-SP.
Segundo a pesquisa Cultura nas Capitais 2025, fatores como renda, raça e local de residência seguem determinando quem acessa equipamentos culturais, incluindo salas de cinema. Em média, menos da metade dos moradores das capitais brasileiras esteve em uma sala de exibição em 2024 — índice que diminui significativamente entre as classes de menor renda e moradores das periferias.

Ao mesmo tempo, o relatório Mercado Cinematográfico 2024, publicado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), aponta que filmes nacionais levaram 12,6 milhões de espectadores às salas de cinema em 2024, um aumento de 241% em relação a 2023. O crescimento sugere que, quando há acesso — seja por preço, proximidade ou mediação —, o interesse do público existe. A distância, portanto, nunca foi de desejo, mas de oportunidade, incluindo a possibilidade de se reconhecer nas telas.
Para Pedro Charbel, diretor do documentário Não Existe Almoço Grátis e integrante do MTST, o Cinema Sem-Teto integra uma disputa simbólica mais ampla. A luta por moradia se relaciona com uma disputa por narrativa. Assim, o cinema não é um enfeite da luta: ele é parte dela.
“A periferia não é apenas consumidora de cultura. Ela produz, interpreta e transforma a cultura. Não se trata apenas de levar filmes, mas de disputar o imaginário.”
Pedro Charbel, diretor do documentário Não Existe Almoço Grátis e integrante do MTST.
O Cinema Sem-Teto não resolve o déficit habitacional nem substitui o papel do Estado. Contudo, entre paredes improvisadas e a luz do projetor, produz algo que políticas públicas frequentemente negligenciam: o direito de sonhar.
Quando a tela se acende, o público respira junto. Após os debates, as cadeiras são empilhadas e o espaço retorna à rotina da ocupação. Mas algo permanece: a experiência compartilhada, o reconhecimento e a esperança.
No fim, o Cinema Sem-Teto não exibe apenas filmes. Ele projeta possibilidades e reafirma que existir com dignidade não deve ser um privilégio, mas parte concreta da vida cotidiana de cada brasileira e brasileiro.
Foto de abertura: MTST.







