Na aldeia Tekoa Yvy Porã, território indígena do Jaraguá, Zona Noroeste de São Paulo, a artesã Daniela produz acessórios inspirados na fauna e na flora local, preservando técnicas e conhecimentos ancestrais.
Através do trabalho da artista, pequenas miçangas coloridas ganham formatos de onças, aranhas, macacos e até bananas. Brincos e colares são criados manualmente por ela apenas pela memória, sem moldes ou desenhos.
Porém, nos últimos anos, as referências presentes na arte de Daniela convivem com uma natureza que passa por mudanças cada vez mais extremas, o que também é sentido pelos integrantes da aldeia.
ARTE INDÍGENA: Daniela usa referências da fauna e flora em seu trabalho (foto: Bruna Martins).
Comunidades indígenas em diferentes partes do mundo compartilham essa realidade. Em abril de 2025, a ONU publicou a sexta edição do relatórioState of the World’s Indigenous Peoples, dedicado ao impacto climático. O estudo destaca que, embora os povos indígenas representem apenas 5% da população mundial, eles protegem aproximadamente 80% da biodiversidade do planeta e cerca de 40% das áreas ecologicamente preservadas.
Por outro lado, o relatório aponta que esses povos estão entre os mais afetados pelas mudanças climáticas. Daniela diz que os efeitos dificultam atividades cotidianas essenciais à subsistência e à preservação dos modos de vida tradicionais. “O calor tá muito maior”, afirma.
A fala de Daniela ajuda a dimensionar uma questão que vai além das mudanças climáticas. Para diferentes povos indígenas, a crise climática também está ligada à exploração dos territórios e à continuidade de conflitos históricos pela terra.
A ARTE COMO RESISTÊNCIA
Nesse sentido, a arte indígena ganha um papel além da conscientização ambiental e se torna uma ferramenta de denúncia e questionamento.
Na obra de Denilson Baniwa, artista visual amazônida, o debate climático aparece conectado a temas como invasão territorial, colonialismo, apagamento cultural e disputa por narrativas.
“Quando a floresta adoece, os povos adoecem juntos, porque nossa relação com a terra não é de exploração, mas de existência.”
Denilson Baniwa, artista visual
Baniwa relaciona a crise climática à violência histórica contra os povos originários. Essa visão aparece em “O Chamado da Floresta”, mural pintado por Baniwa no Edifício Garagem, centro de São Paulo. Na obra, uma figura indígena carrega um balde de água enquanto a floresta está em chamas ao fundo.
O CHAMADO DA FLORESTA: mural de Denilson no centro de São Paulo (foto: reprodução Twyla Hase).
Baniwa questiona a representação dos povos indígenas como “guardiões da natureza”. Para ele, essa ideia simplifica a relação com o território e apaga suas lutas. “Existe conhecimento, manejo, ciência, política e responsabilidade coletiva. A floresta não é cenário, é parte de um sistema de vida complexo”, afirma.
A arte indígena coloca em discussão quem tem o direito de narrar a crise climática e quais histórias são apagadas, tornando-se, assim, uma forma de resistência política ao preservar memórias.
A artista visual Moara Tupinambá relaciona a disputa com a forma que os povos originários são vistos. Desde que se aproximou das lutas de seu povo, a discussão ambiental passou a ganhar força no trabalho de Moara.
No mural “Ser índio hoje”, realizado em 2020 para a exposição São Paulo Invisível, Moara questiona processos de exploração que atravessam gerações, da colonização às formas contemporâneas de ocupação do território.
Segundo a artista, a imagem construída pela colonização se perpetuou na literatura e nas artes, contribuindo para representações marcadas pelo romantismo e distantes da realidade. “Precisamos de muitos anos para descolonizar as mentes do que é ser indígena no Brasil. Ninguém se interessa em entender o indígena hoje”, diz.
ÍNDIO HOJE: mural de Moara faz releitura da obra Operários, de Tarsila do Amaral (foto: reprodução).
UM ESPAÇO PARA REFLEXÃO
De acordo com a ativista indígena e brigadista florestal Sonia Barbosa, conhecida pelo nome de batismo guarani Ara Mirim e ligada ao povo Xukuru-Kariri, a discussão sobre preservação ambiental representa uma oportunidade para estimular o pensamento crítico.
Sonia defende que a arte, a moda e a comunicação em geral, têm um papel importante na visibilização sobre justiça climática. Por meio dessas linguagens, é possível ampliar o alcance das discussões ambientais e incentivar reflexões sobre a responsabilidade coletiva no cuidado com a “mãe terra”.
“Quero que entendam que o clima faz parte da vida de todos. Se não cuidarem, todos nós sofreremos.”
Sonia Barbosa, ativista indígena e brigadista florestal
Nesse sentido, ocupar espaços institucionais com a arte indígena pode ser um caminho. No bairro da Água Branca, em São Paulo, o Museu das Culturas Indígenas atua na luta pela valorização do patrimônio indígena e promove a compreensão das histórias e perspectivas dos povos originários.
ONÇA: obra de Tamikuã usa o animal como símbolo da luta indígena (foto: Bruna Martins).
A exposição “Mymba`I, pedindo licença aos espíritos, dialogando com a Mata Atlântica”, idealizada pela multiartista e líder indígena, Tamikuã Txihi, destaca os impactos da ação humana na perda permanente de espécies e ecossistemas, comprometendo a biodiversidade e o equilíbrio ambiental da Mata Atlântica.
Artistas indígenas de diferentes povos produziram coletivamente as obras, utilizando desenhos, pinturas, colagens e fotografias, durante uma oficina realizada no MCI. O conjunto evidencia a onça-pintada como um símbolo de força, sabedoria e resistência.
Na arte de Tamikuã Txihi, a onça aparece como símbolo de inspiração, luta e resistência. Para a artista, a onça representa força, sabedoria, agilidade e habilidade, sendo uma líder espiritual que guia o povo indígena.
Dessa forma, os artistas utilizam símbolos ancestrais para discutir a crise climática colocando o território, a memória e os direitos indígenas no centro do debate, ampliando a voz de povos que sofrem à gerações com as consequências da destruição ambiental.
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