Educação ambiental transforma área abandonada em pomar no Parque Bristol

20/08/2026

Através de conscientização de estudantes do CIEJA sobre práticas sustentáveis, escola transforma lugar que era usado para descarte irregular de lixo

Reportagem de Isabela Souza, Juliana Peixe e Sarah Luz, alunas de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, realizada via convênio de ensino dual com a Emerge Mag, sob supervisão da docente Rose Naves.

A educação ambiental se tornou chave para mudar a realidade do Parque Bristol, bairro do distrito do Sacomã, na Zona Sul de São Paulo. Apesar de estar próximo ao Parque do Estado e ao Zoológico de São Paulo, o bairro enfrenta baixa arborização e enchentes durante os períodos chuvosos.

Em 2024, depois que um rompimento da galeria de um córrego que passa sob o Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA) Clóvis Caitano Miquelazzo e se conecta à viela ao lado da escola trouxe problemas para a região, estudantes, moradores e educadores passaram a discutir, junto à equipe pedagógica, a relação do território com a água e os impactos ambientais no bairro.

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O grupo decidiu integrar os estudos sobre tecnologias sustentáveis ao uso de uma área que pudesse beneficiar a comunidade e os estudantes. Como resultado, um espaço abandonado que era utilizado para descarte irregular de lixo se tornou um pomar.

SEM VERDE: 39% das escolas de São Paulo não possuem área verde. Na foto, a fachada do CIEJA (foto: Juliana Peixe).

Localizado ao lado do CIEJA, o pomar cresceu e se transformou no atual Parque de Tecnologias Sustentáveis, inaugurado em novembro de 2025. O local, mais do que uma área verde dentro da escola, tornou-se também um ambiente de convívio e aprendizado entre os moradores da região.

O professor Paulo Valsecchil e seus alunos coordenaram a ação. Segundo o educador, o projeto não surgiu de imediato, mas é fruto de um processo contínuo de construção dentro e fora da escola.

  “Desde 2019 intensificamos as discussões sobre questões ambientais. Todos os projetos curriculares integrados partem de temas sensíveis para os estudantes e que dialogam com os objetivos do desenvolvimento sustentável.”

Paulo Valsecchil

UM PARQUE DENTRO DA ESCOLA

De acordo com a pesquisa “O Acesso ao Verde e a Resiliência Climática nas Escolas das Capitais Brasileiras”, desenvolvida pelo Instituto Alana e pela Fiquem Sabendo, em São Paulo, 1.849 escolas não possuem área verde no lote, 39% do total. O estudo também mostra que mais de 52,4% das escolas em favelas e comunidades urbanas no Brasil não possuem nenhuma área verde em seus terrenos.

Para mudar essa realidade na região e inspirados pela música “Prelúdio”, de Raul Seixas, que afirma que “um sonho que se sonha junto é realidade”, estudantes do CIEJA começaram a imaginar novas possibilidades para a área. O grupo desenvolveu maquetes e propostas que ajudaram a dar forma ao projeto, convertendo uma ideia em um plano real de ocupação e revitalização do terreno.

O Parque de Tecnologias reúne o cultivo de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), hortas comunitárias, reutilização de materiais, meliponário, forno à lenha e outras tecnologias voltadas à preservação ambiental.

Nas paredes do parque, mensagens, pinturas, fotografias de alunos e poemas compõe um ambiente que reflete a identidade da comunidade escolar. Cada espaço revela a participação ativa de estudantes e educadores no local, que passou a expressar pertencimento, memória e convivência.

Para Paulo, o parque é resultado direto do processo coletivo construído ao longo dos anos. Esse movimento e o envolvimento da comunidade são apontados como fatores que garantem a continuidade do projeto.  

SABER DA TERRA

Grande parte dos estudantes do CIEJA é formada por jovens e adultos que tiveram a trajetória escolar interrompida em algum momento da vida. Muitos vivem em regiões periféricas que enfrentam desafios relacionados à infraestrutura urbana, à escassez de áreas verdes e à maior exposição a riscos ambientais.

  “A gente parte do princípio de que todos os estudantes têm saberes. Nosso papel é dar voz para essas pessoas.” 

Paulo Valsecchi do Amaral, professor do CIEJA

No espaço, os alunos participam do plantio, da colheita e da compostagem dos resíduos orgânicos produzidos pela própria escola. Além disso, aprendem sobre alimentação saudável, reaproveitamento de recursos e preservação ambiental.

A aluna Francisca do Nascimento, 77, natural de Pernambuco, diz que o parque trouxe memórias afetivas da vida no campo. Ela conta que nunca tinha estudado e que foi ao CIEJA para aprender a ler e escrever, mas encontrou muito mais do que esperava. “Aqui eu me achei. Em relação às plantas, eu já conhecia algumas porque nasci na roça, mas aqui o conhecimento dobrou”, diz.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL: alunos aprendem como manejar a horta (foto: divulgação/instagram).

Já para Severina das Graças, 65, há três anos do CIEJA, o projeto apresentou novas possibilidades. “Eu não sabia o que era PANCs antes de chegar aqui. Hoje faço tortas de PANCs e aprendi sobre alimentação e plantas medicinais”, relata.

Maria do Socorro, 59, no CIEJA desde fevereiro deste ano, diz que o contato com a natureza mudou sua forma de enxergar a própria saúde e o bairro onde vive. “A gente passa a ter mais contato com a terra. Quero aprender mais sobre remédios naturais e continuar participando da horta”, conta.

RACISMO AMBIENTAL

A iniciativa está relacionada a problemas que ultrapassam os muros da escola: o acesso à natureza e a exposição aos riscos ambientais não são distribuídos igualmente na cidade.

A pesquisa do Instituto Alana e da Fiquem Sabendo mostrou que cerca de 370 mil alunos da educação infantil e do ensino fundamental estudam em escolas localizadas em áreas de risco, sendo que 90% dessas escolas estão dentro ou em um raio de até 500 metros de favelas e comunidades urbanas. 51% dessas escolas têm maioria de alunos negros.

INSPIRAÇÃO: obra de Maria Carolina de Jesus estampa a horta comunitária (foto: Juliana Peixe).

Os dados ajudam a ilustrar uma desigualdade apontada no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC): os impactos das mudanças climáticas atingem de forma desproporcional as populações socialmente vulneráveis, aprofundando desigualdades sociais e raciais já existentes.

Nesse contexto, a educação ambiental deve considerar a realidade em que os alunos estão inseridos para aproximá-los da conversa. É o que diz Mariana Belmont, ativista e especialista em meio ambiente. “A educação ambiental amplia a visão crítica e política dos jovens sobre a cidade, o território e os direitos. Ela ajuda a conectar questões como saneamento, moradia, mobilidade, alimentação e clima com a vida cotidiana”, completa.

Quando o debate ambiental ignora questões como racismo, desigualdade social, violência urbana e falta de infraestrutura, ele pode parecer abstrato para grande parte da população. Por isso, Mariana defende que aproximar esses debates exige participação comunitária e conexão direta com os problemas enfrentados pelos moradores em seus territórios.

Ainda assim, alerta que a conscientização, por si só, não é suficiente. É necessário garantir oportunidades de participação, formação e acesso à informação para que o conhecimento possa se transformar em ação. “Trabalhar isso na educação é um jeito de enfrentar essas desigualdades em todas as suas formas”, diz.

COMUNIDADE INTEGRADA

Com o avanço do projeto, o Parque de Tecnologias ultrapassou os muros da escola. Atualmente, moradores da comunidade frequentam o espaço e participam de atividades que ajudaram a enxergar o bairro de forma diferente.

A presença da horta e das ações sustentáveis contribui para fortalecer o sentimento de pertencimento e valorização do território. Além disso, a escola abre os pátios arborizados nos fins de semana, oferecendo lazer seguro para os moradores.

Juntamente com a preocupação com a sustentabilidade, o projeto também resgata e valoriza elementos populares como o fogão à lenha e casa de sementes feita de barro, componentes que aproximam os participantes de conhecimentos ancestrais muitas vezes invisibilizados.

Ao reconhecer essas práticas como saberes importantes, o parque contribui para fortalecer a autoestima dos alunos e moradores, incentivando-os a perceber seu próprio território, sua cultura e sua história como potências capazes de gerar transformação social e ambiental.

A professora Hellen Cristina, assistente pedagógica e educacional, destaca que grande parte da riqueza do projeto vem justamente da troca entre os alunos e os professores.

“O que eles trazem de conhecimento é muito rico. Temos estudantes que ensinam muito para nós também. Existe uma troca muito valiosa aqui.”

Hellen Cristina, assistente pedagógica.

Francisca destaca que gostaria de ver iniciativas semelhantes sendo adotadas por outras instituições que há diversos espaços subutilizados que poderiam ser transformados em áreas verdes, contribuindo para a melhoria ambiental e da qualidade de vida da comunidade. “Tem muito terreno parado, cheio de mato. Se as pessoas se unissem para fazer hortas comunitárias seria muito importante. O verde é pouco e podia aumentar.”

Foto de abertura: Isabela Souza

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