Jardim Pantanal entre enchentes, obras e remoções de famílias

01/10/2026

Com moradias em áreas de risco e projetos de desapropriação em andamento, moradores do Jardim Pantanal relatam o impacto social de décadas de negligência urbana.

Reportagem de Daniel Bettin, Heloísa Jesus, Maria Clara da Silva e Yasmim de Barros, alunas de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, realizada via convênio de ensino dual com a Emerge Mag, sob supervisão da docente Giselle Freire.

Há décadas, moradores do Jardim Pantanal, no distrito do Jardim Helena, zona leste de São Paulo, convivem com enchentes que invadem casas, interrompem a circulação e provocam perdas materiais.

O bairro está localizado em uma área de várzea do Rio Tietê, na divisa com a cidade de Guarulhos e com o distrito do Itaim Paulista. Conforme relatos dos moradores, as famílias enfrentam os impactos das chuvas há pelo menos três gerações.

HISTÓRICO: moradores do Jardim Pantanal resgatam seus pertences em 1995 (foto: Evelson de Freitas/Folhapress)

Maria Aparecida, moradora do Jardim Pantanal há mais de 30 anos, conta que as enchentes marcaram a vida de muitas pessoas do bairro. Segundo ela, a água sobe rápido: “Quando a gente vê, já está na porta, vai entrando nos quartos. Da última vez, não entrou no meu quarto porque era alto, mas ficou nos quartos baixo, na sala e no corredor’’, diz.

Kelly Santos, residente e comerciante na região, diz que a água demora semanas para baixar. “Às vezes chega a ficar dez, quinze dias. Inclusive, a última enchente durou quase um mês”, conta. Ela também relata que, após as enchentes, a própria população se mobiliza para limpar as ruas e ajudar quem perdeu tudo.

Ruas estreitas, a lama, o esgoto e a dificuldade de circulação tornam o dia a dia ainda mais difícil em períodos de chuva intensa. Ambulâncias e caminhões têm dificuldades para acessar algumas áreas, enquanto famílias inteiras tentam salvar móveis, roupas e alimentos que foram destruídos nas enchentes.

Além dos danos materiais, os moradores vivem com a sensação constante de abandono. Obras na área frequentemente demoram ou não resolvem o problema do escoamento. “Eles começam a fazer, deixam tudo quebrado e depois vão embora. Se chover forte, tenho certeza que a água invade tudo de novo”, denuncia Maria.

OBRAS INACABADAS: buraco aberto pela prefeitura em novembro de 2025 (foto: Daniel Bettin)

ENTRE O RISCO E O DIREITO À MORADIA

Diante da recorrência das enchentes, a permanência das famílias em áreas consideradas de risco passou a ser alvo de políticas de remoção. O debate, porém, não envolve apenas a segurança diante das chuvas, mas também as condições oferecidas às famílias que deixam suas casas.

Em 2025, a prefeitura de São Paulo anunciou o projeto Recupera Pantanal, prometendo remover mais de 4 mil famílias da região, com a primeira fase focada na remoção de 1.000 imóveis e com previsão de encerramento em outubro deste ano.

No entanto, parte da população teme perder suas casas sem a garantia de moradia digna. Kelly explica que algumas famílias receberam auxílio financeiro para deixar a região, mas muitas acabam retornando. “Tem gente debilitada ou que não consegue pagar aluguel. Eles saem, mas depois voltam porque não conseguem se manter”, diz.

REMOÇÕES: mapa da primeira fase do Recupera Pantanal (foto: Prefeitura de São Paulo e Governo do Estado de São Paulo)

Para o especialista em urbanismo Fábio Custódio, a solução exige planejamento urbano e diálogo com a população. Segundo ele, seria necessário investir em reurbanização, abertura de vias, saneamento básico e atendimento prioritário às famílias que vivem em áreas mais vulneráveis.

“Muitas famílias estão literalmente em cima dos rios. Essas pessoas deveriam ser prioridade em uma política urbana”.

Fábio Custódio, especialista em urbanismo

Ele também destacou que as áreas de preservação permanente (APPs) possuem papel importante para o equilíbrio ambiental da cidade e que qualquer solução deve considerar tanto o meio ambiente quanto a dignidade humana.

O QUE DIZ O PODER PÚBLICO

Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (SIURB) respondeu por nota que está executando a requalificação urbana dos bairros Jardim São Martinho e Vila Seabra, com entrega prevista para novembro deste ano.

A secretaria disse ainda que as intervenções abrangem 54 mil m² e incluem a pavimentação de 69 vias, instalação de sinalização viária, reforma de passeios, guias e sarjetas, além da implantação de 11,2 quilômetros de rede de microdrenagem com galerias pluviais, bocas de lobo e poços de visita.

A SIURB também comentou sobre o andamento do Plano Recupera Pantanal. De acordo com a nota, até o momento, a SEHAB retirou 606 famílias das áreas de risco Terra Prometida, São Martinho, Novo Horizonte e Vila da Paz, com assistência de indenizações ou auxílio-aluguel até o atendimento habitacional definitivo.

Foto de abertura: Daniel Bettin

Quem escreveu

Foto de Redação Emerge Mag

Redação Emerge Mag

Revista digital e estúdio de comunicação e inteligência de cultura, direitos humanos e diversidade.

Inscreva-se na nossa

newsletter

MATÉRIAS MAIS LIDAS

ÚLTIMAS MATÉRIAS

NEWSLETTER EMERGE MAG

Os principais conteúdos, debates e assuntos de cultura, direitos humanos e economia criativa interseccional no seu e-mail. Envio quinzenal, às quartas-feiras.