Em junho deste ano, a Casa Periférica se tornou uma associação. Criada em janeiro de 2025, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, o local é um espaço comunitário e autônomo idealizado pela jornalista e professora Gisele Alexandre.
A formalização marca um novo capítulo na trajetória de Gisele, construída ao longo de duas décadas de jornalismo e comunicação popular. Ela administra a Casa Periférica ao lado de lideranças femininas e negras do território.
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A Casa conseguiu seu espaço físico através do prêmio Cidadania na Periferia, do Ministério dos Direitos Humanos. A principal motivação da associação foi conseguir acessar outros tipos de recursos. “Enxergamos algumas oportunidades dentro de uma organização não governamental, então nos unimos e pensamos nessa formação”, explica Gisele.

De acordo com a jornalista, a maior dificuldade é manter os projetos ativos independentemente de editais públicos. A mudança permite separar as atividades sociais das realizadas pela Pauta Periférica, criada em 2016 pela jornalista.
A Emerge Mag contou como a Casa surgiu a partir da produtora. Hoje o local serve para uso comunitário, com assessoria gratuita para editais, empréstimo de equipamentos e parcerias com artistas.
No estatuto, as lideranças definiram que a associação atuará no apoio a coletividades na elaboração e acompanhamento de projetos sociais, além de trabalhar com comunicação e produção cultural.
A ideia é que a Pauta Periférica continue prestando serviços de comunicação e gestão de projetos, enquanto a associação abriga os projetos sociais.



“A Pauta Periférica é um negócio de impacto social, todos os ganhos sempre foram revertidos para os projetos sociais, mas é muito difícil e custoso gerir esse trabalho usando apenas o CNPJ de uma produtora. A associação entra para nos ajudar a realizar os projetos de forma mais sustentável”, explica Gisele.
FORMADA NO TERRITÓRIO
A criação da associação ilustra o momento atual na carreira de Gisele, mas sua relação com a comunicação começou muito antes da Casa Periférica. Com raízes familiares na zona norte da capital, ela chegou ao Capão Redondo ainda criança, na COHAB Adventista, na época, um território de extrema vulnerabilidade.

Foi ali que construiu seu entendimento como cidadã, enquanto sentia os impactos da desigualdade social. Assim que começou a se entender profissionalmente, Gisele quis lugar pela forma como a história de seu território era contada, construindo histórias a partir da sua vivência.
Formada há 20 anos, ela diz que o jornalismo periférico não nasce com ela, mas é registrado a partir da sua geração. Para ela, pensar jornalismo no Capão Redondo, foi retomar uma comunicação popular que já existia no bairro, mas dentro de uma sistemática acadêmica.
Logo após a graduação, o encontro com outros comunicadores periféricos a fez entender mais sobre a comunicação popular comunitária. “Meu sonho era contar as histórias de quem vivia do meu lado e fazia um corre importante para a transformação social, o que não era contado nos veículos tradicionais”, diz.
MANDA NOTÍCIAS
Em 2016, quando dava aulas no CEU Capão Redondo e formava repórteres comunitários para construir notícias no bairro, Gisele decidiu trabalhar de forma autônoma. Desse movimento, surge a Pauta Periférica, primeiro como uma agência.
No ano seguinte, criou o Clube de Criadores Educapão. O projeto oferecia uma formação de 5 meses para jovens periféricos se aprofundarem na ancestralidade e no território antes de praticarem a comunicação. “Eu precisei entender primeiro quem era a Gisele periférica para depois pensar na Gisele jornalista”, conta.
O programa foi realizado na ONG Nave e na ONG Interferência, do escritor e poeta Ferrez. Naquele período, Gisele também era coordenadora de comunicação do CEDEP (Centro de Direitos Humanos).
A pandemia interrompeu as atividades, mas levou a jornalista a criar uma nova forma de comunicação. Na Rede de Jornalistas das Periferias, ela participou da articulação Corona nas Periferias. “Eu precisava comunicar os beneficiários das ONGs onde atuava e pensei: ‘qual a melhor maneira de chegar em pessoas de alta vulnerabilidade? Vou chegar pelo WhatsApp’”, diz.
Daí nasceu o Manda Notícias, em março de 2020. A princípio, a ideia era mandar áudios de no máximo 3 minutos, noticiosos, publicados três vezes por semana. Para dar credibilidade e combater fake news, Gisele criou uma identidade sonora com uma trilha de fundo e sua voz.


O primeiro áudio explodiu e a jornalista recebeu centenas de mensagens de pessoas querendo receber o conteúdo. O projeto inovador recebeu reconhecimento do próprio WhatsApp como o primeiro veículo de informação nativo do aplicativo.
CULTCOM
Em 2020, Gisele escreveu um projeto para a Lei de Fomento à Cultura da Periferia chamado Manda Cultura, juntando o Manda Notícias e o Clube de Criadores. A iniciativa levou o jornalismo cultural e promoveu encontros entre comunicadores e artistas locais.
Entre 2023 e 2024, a equipe estruturou o Manda Notícias Podcast em vídeo, site e agenda cultural. Gisele dividiu a bancada com a jovem jornalista Beatriz Monteiro, além de dois artistas convidados por episódio. Foram 70 episódios com mais de 140 artistas.
Durante as entrevistas, Gisele perguntava aos artistas se eles participariam de um evento presencial com ela. Todos aceitaram e essa mobilização orgânica deu origem ao Festival Cutcom.
Sonhadora, ela levou a proposta ao Sesc Campo Limpo, parceiro da Pauta Periférica desde 2021. Para chamar o público, a jornalista articulou a presença de Mano Brown, figura histórica no bairro, para ser convidado especial do show do artista Luiz Celestino.

Com 60 artistas, quatro dias de evento, mesas de debate e Mano Brown, o Sesc aprovou a ideia e o festival teve lotação máxima. Desde 2023, a equipe realizou 19 eventos no território, em Fábricas de Cultura, Casas de Cultura e espaços públicos. “O diferencial do Cultcom é tratar o artista periférico com toda a estrutura e respeito que ele merece”, finaliza.
LEGADO
A formalização da Casa Periférica também muda a forma como Gisele conduz os projetos que ajudou a criar. A gestão passa a ser compartilhada com outras mulheres do território: o Festival Cultcom hoje é coordenado por Roberta Carvalho e o Clube de Criadores por Rose Martins.
Paralelo à todo o trabalho na Casa Periférica, Gisele recebeu o convite para ser docente do Instituto Federal (Campus Jardim Ângela) no curso de Agente Popular de Cultura.
“Quero formar novas lideranças jornalísticas e culturais no Capão Redondo para que essa história continue e não dependa apenas da minha figura.”
Gisele Alexandre
O reconhecimento de sua trajetória também se estende a outros espaços de formação. Entre 19 e 30 de outubro, Gisele participa da quinta edição do Senac Vozes Potentes, evento que tem como tema “Trabalhos que Transformam: trajetórias e impacto social”. A jornalista irá palestrar em oito unidades do Senac, com programação gratuita.

Porém, segundo a jornalista, a formação de novas lideranças também depende de políticas públicas. Entre 2024 e 2025, atuou como consultora de São Paulo no projeto ‘Promovendo a Democracia’, da Secom da Presidência da República com a Unesco, mapeando mais de 140 iniciativas de jornalismo periférico no estado de São Paulo.
Mais recentemente, ela está articulando a retomada do projeto de lei ‘Vai Comunica’, aprovado há 10 anos na gestão de Fernando Haddad, mas nunca implementado no orçamento municipal de São Paulo. A ideia é transformar o jornalismo periférico em uma política pública permanente.
“Além disso, estou organizando encontros com comunicadores locais da Zona Sul na Casa Periférica para fortalecermos as ações microterritoriais e garantirmos um legado político sustentável para a próxima geração”, completa Gisele.
Foto de abertura: Matheus Santino.







