Descarte de lixo eletrônico expõe falhas na reciclagem e desigualdade ambiental no Brasil

04/11/2026

Falta de informação e de pontos de coleta dificulta o descarte correto dos equipamentos e agrava desigualdades socioambientais

Reportagem de Douglas Fulop, Lívia Duarte, Lucas Almeida e Sarah Macedo, alunos de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, realizada via convênio de ensino dual com a Emerge Mag, sob supervisão da docente Giselle Freire.

No último dia 14 de outubro, foi comemorado o Dia Internacional do Lixo Eletrônico. A data foi organizada  pelo WEEE Forum, com o objetivo de conscientização sobre a importância do descarte correto desse tipo de resíduo.

Segundo dados da ONU, o Brasil é atualmente o quinto maior gerador de lixo eletrônico do mundo: o país produz cerca de 2,4 milhões de toneladas desse tipo de resíduo por ano. Apesar desse volume expressivo, apenas entre 3% e 5% do material é reciclado corretamente.

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Outro desafio está dentro das próprias residências. Pesquisas realizadas pelo Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) apontam que cerca de 85% da população mantém aparelhos eletrônicos guardados em casa sem saber como descartá-los.

RANKING: Brasil é o maior gerador de lixo eletrônico da América Latina e o quinto maior do mundo (foto: Sarah Macedo/Canva).

Segundo relatório da ONU, divulgado em 2024, esse tipo de resíduo apresenta um aumento de aproximadamente 2,6 milhões de toneladas por ano. Em 2022, o mundo gerou cerca de 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico, um aumento de 82% em relação a 2010.

E há previsão de que essa taxa aumente em 32%, resultando em 82 milhões de toneladas geradas até 2030. Entretanto, menos de um quarto (22,3%)  do volume desse lixo eletrônico foi coletado e reciclado corretamente em 2022.

LIXO ELETRÔNICO NÃO É LIXO COMUM

Dispositivos eletroeletrônicos, como celulares, computadores e eletrodomésticos, fazem parte da categoria dos resíduos sólidos recicláveis. Eles podem voltar para a cadeia produtiva, ao contrário dos rejeitos, que são materiais sem condições de recuperação.

Segundo João Saraiva, engenheiro ambiental e sanitarista, essa distinção é fundamental. Para ele, o e-lixo mantém seu valor agregado e pode ser transformado em novos produtos. “Tudo isso tem potencial e capacidade de ser reinserido no ciclo produtivo das grandes indústrias, das grandes empresas e virar novos materiais lá mais para frente”, explica.

O lixo eletrônico inclui não apenas aparelhos inteiros, mas também placas, chips, cabos, vidros e telas.

O descarte inadequado, por outro lado, pode provocar danos ambientais. Componentes eletrônicos podem conter substâncias como cádmio, berílio, zinco e bário, que, em determinadas condições, podem se desprender e contaminar o solo e a água.

“Quando esse material vai para a natureza, ele começa a se degradar e os metais pesados começam a se desprender”, alerta João.

A contaminação pode atingir também a cadeia alimentar. Estudos feitos na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, apontam que a fauna aquática pode absorver metais pesados e pequenas partículas plásticas presentes na água. Essas substâncias podem chegar aos seres humanos pelo consumo de alimentos e estar associadas a danos à saúde.

FALTA DE COLETA E INFORMAÇÃO

A dificuldade de destinar corretamente os aparelhos eletrônicos não se resume à falta de conhecimento sobre os riscos ambientais. A ausência de pontos de coleta acessíveis também impede que parte da população encaminhe os equipamentos para a reciclagem.

De acordo com o gestor ambiental Felipe Costa, a falta de estrutura é um dos principais obstáculos. “O principal problema é o volume que a gente tem de lixo e a falta de lugar para colocar, um ponto de coleta. Muitas vezes as pessoas não têm onde jogar o lixo eletrônico que elas têm em casa e fica na gaveta”, diz.

A falta de informação também contribui para o problema. Felipe avalia que as preocupações imediatas com trabalho e sobrevivência podem deixar as questões ambientais em segundo plano. Além disso, a aparência e o valor dos aparelhos nem sempre fazem as pessoas perceberem os riscos associados aos seus componentes.

“As pessoas entendem melhor quando a gente fala dos componentes, porque a gente glamouriza muito o eletrônico, o celular, o notebook. Mas isso é feito do quê? Tem chumbo, cádmio, mercúrio.”

Felipe Costa, Gestor Ambiental.

Os relatos de estudantes entrevistados para a reportagem mostram como o descarte inadequado e o acúmulo doméstico fazem parte do cotidiano. Para Luis Gonçalves, o descarte inadequado de eletrônicos é uma prática comum. “Eu nunca vi alguém pegar e levar para um lixo especializado. Vai tudo para o lixo comum”, afirma.

Nicolas Carraro também conta que celulares, carregadores e outros aparelhos sem uso costumam ficar guardados nas residências. “Sempre tem celular antigo de alguém que acabou parando de funcionar ou trocou. Ainda funciona, não vamos descartar, vai que precisa e coloca em algum lugar”, relata.

Os dois apontam a ampliação dos pontos de coleta e a realização de campanhas educativas como caminhos para incentivar mudanças de comportamento.

DESIGUALDADE AMBIENTAL

FELIPE COSTA: desigualdade é vista na falta de condições para descarte correto (foto: Arquivo Pessoal).

As dificuldades para destinar os resíduos corretamente não atingem todos os grupos da mesma maneira. Segundo Felipe, a desigualdade social influencia tanto o acesso à informação quanto às condições de descarte e a exposição aos impactos ambientais.

Para Nicolas, existem diferenças na infraestrutura disponível entre regiões da Grande São Paulo. “Na capital existe muito mais apoio para você fazer esse tipo de coisa, mas ainda acho pouco”, diz.

Os impactos ambientais também atingem com mais intensidade as populações socialmente vulneráveis.

De acordo com Felipe, a lógica é semelhante à observada em outros problemas ambientais urbanos. “Quando tem enchente, dá enchente na Faria Lima? Não dá. Vai dar enchente em Osasco, Carapicuíba”, exemplifica.

No caso do lixo eletrônico, a falta de alternativas de destinação e a possibilidade de contaminação do solo e da água ampliam as preocupações socioambientais. O tema, portanto, não envolve apenas reciclagem, mas também o acesso desigual à infraestrutura e à proteção ambiental.

A RESPONSABILIDADE PELO DESCARTE

Desde 2010, a gestão desses resíduos é orientada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) no Brasil. A legislação estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, envolvendo fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e poder público.

Uma das estratégias previstas para viabilizar a destinação adequada é a logística reversa, que permite o retorno de produtos e materiais após o uso para reaproveitamento, reciclagem ou descarte ambientalmente adequado.

Para Luis, a responsabilidade não deve recair apenas sobre quem consome os equipamentos, mas também sobre as empresas que os fabricam e comercializam.

“Se o mais importante para a empresa é o lucro e que as pessoas comprem, pouco interessa a elas se aquele produto vai ser descartado da forma correta”, afirma.

Apesar da previsão legal, a falta de infraestrutura, fiscalização e conscientização ainda dificulta a destinação adequada do lixo eletrônico. Nesse cenário, iniciativas de coleta e reciclagem ajudam a encaminhar os materiais para locais especializados, embora também enfrentem obstáculos para ampliar sua atuação.

UMA ALTERNATIVA PARA A RECICLAGEM

Criada em 2021 por Vagner Barbosa, a Destinatec é uma iniciativa de coleta e destinação de resíduos eletrônicos localizada em Cotia, na Grande São Paulo. O projeto surgiu depois que Barbosa começou a se questionar sobre o destino dos equipamentos descartados.

VAGNER BARBOSA: criador da Destinatec se questionava para onde ia o lixo eletrônico (foto: Arquivo Pessoal).

A iniciativa recebe materiais por meio de ecopontos na região metropolitana e realiza a desmontagem dos equipamentos, processo que chama de “descaracterização”. Em seguida, os componentes são separados em categorias como plástico, vidro e metal e os encaminha a parceiros especializados em reciclagem.

A Destinatec também atende empresas que buscam alternativas para o descarte correto de resíduos eletrônicos. Entre elas está a OnTime, empresa especializada na manutenção de equipamentos de automação industrial.

De acordo com Gabriel Périco, analista de marketing da OnTime, a parceria surgiu quando a empresa procurava uma alternativa para dar destino aos componentes eletrônicos que não conseguia reaproveitar. “Antes da Destinatec, a OnTime não tinha parceiros para fazer esse serviço. Geralmente, um dos funcionários conhecia um ponto de coleta e levava esses equipamentos até lá”, relata.

Gabriel afirma que o contato com a iniciativa ampliou a conscientização da empresa sobre a importância do descarte adequado. 

“A preocupação ambiental foi o fator principal para tomarmos essa decisão de levar mais a sério e contratar uma empresa para fazer esse serviço.”

Gabriel Périco, analista de marketing da OnTime

Apesar dos resultados iniciais, a Destinatec enfrenta desafios. Isso porque a equipe conta apenas com Vagner e um ajudante e os custos de transporte, mão de obra e separação dos materiais dificultam a expansão do projeto.

A empresa concentra seu trabalho em equipamentos de pequeno e médio porte, como computadores, mouses e microfones. Porém, mesmo com as limitações, a Destinatec recolheu mais de 2 toneladas de resíduos eletrônicos em 2025.

IMPACTO: Destinatec coletou mais de 2 toneladas de lixo eletrônico em 2025 (foto: Sarah Macedo/Canva).

O cotidiano da operação também revela que nem todo equipamento descartado perdeu sua utilidade. Um dos itens inusitados encontrados pela equipe foi um videogame. Para os integrantes da empresa, o caso levanta outra questão relacionada ao consumo: consumidores podem descartar aparelhos com pequenos defeitos, mesmo quando poderiam consertá-los ou reaproveitá-los.

Foto de abertura: Leo Arslan/Pexels

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