Reportagem de Bruno Domiciano, Lucas Angelini, Luighi Gati e Nicolle Morrér, alunos de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, realizada via convênio de ensino dual com a Emerge Mag, sob supervisão do docente Vicente Darde.
Mais de 560 mudas de espécies nativas da Mata Atlântica foram plantadas na zona leste de São Paulo pelo Corredor Ecológico Corinthiano (CEC), projeto que reúne torcedores do Corinthians em ações de arborização e educação ambiental.
Criada em junho de 2025, a iniciativa atua nos arredores da Neo Química Arena, em Itaquera, com o trabalho voluntário de torcedores e define os locais de plantio com apoio de engenheiros florestais e biólogos.
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A escolha da região está relacionada às características do entorno do estádio, marcado por extensas áreas asfaltadas e intenso fluxo de pessoas em dias de jogos. Vitor Rocco, integrante dos Gaviões da Fiel e coordenador do projeto, conta como a ideia surgiu. “A proposta foi unir paixão pelo clube com responsabilidade socioambiental, transformando o entorno da Neo Química Arena em um espaço mais sustentável”, afirma.

As mudas utilizadas são exclusivamente espécies nativas da Mata Atlântica. Os locais de plantio são definidos por uma equipe técnica formada por engenheiros florestais e biólogos, que realizam vistorias e elaboram um plano de arborização para a região.
Entre as entidades que fazem parte da coordenação estão: Gaviões da Fiel, Coletivo Democracia Corinthiana, Coalizão pelo Clima, Avançar Resoluto, LabCasa e CADES-Regionais.
ZONA LESTE CINZA
A iniciativa ocorre em uma cidade cada vez mais cinza. A última atualização do Mapa da Desigualdades mostrou que a média de cobertura vegetal em São Paulo é de apenas 27,29%.
Na zona leste, o problema é ainda maior. Dos 34 distritos da região, apenas 7 ficaram acima da média. Itaquera, onde a Neo Química Arena está localizada, marcou 14,2%, ocupando a 72° entre os 96 distritos da capital.
Segundo dados do Panplavel (Plano Municipal de Áreas Protegidas, Áreas Verdes e Espaços Livres), a Zona Leste, com 80,53 km² de vegetação, possui apenas 24,29% de cobertura vegetal. De acordo com os números, doze subprefeituras da zona leste possuem, proporcionalmente, menos território com cobertura vegetal que as três subprefeituras da zona oeste.
Clodoaldo Cajado, engenheiro florestal da Coalizão pelo Clima, diz que a ideia de combater as áreas com menor número de árvores por habitantes é antiga e que muitos movimentos da zona leste já discutiam o tema.
“Os ambientalistas precisavam furar a bolha de só fazer ato na Av. Paulista. Acho que tem tudo a ver, tivemos sorte de ter essa discussão acontecendo no bairro”
Clodoaldo Cajado, engenheiro florestal da Coalizão pelo Clima
Cajado diz que a principal diferença foi os ambientalistas buscarem a maior torcida organizada da América Latina para entrar na ideia de resolver o problema de ilhas de calor na zona leste, principalmente para as 40 mil pessoas que circulam entre o Metrô Artur Alvim e o estádio em dias de jogos.
Além dos plantios, o projeto promove rodas de conversa, atividades culturais e ações de educação ambiental para aproximar moradores e torcedores das discussões sobre mudanças climáticas.
MOBILIZAÇÃO POPULAR
Uma das características do Corredor Ecológico Corinthiano é o protagonismo da sociedade civil. A mobilização ocorre principalmente por meio das redes sociais, grupos de WhatsApp e articulação entre torcidas organizadas.
O objetivo é ampliar o engajamento da população e aproximar o tema das mudanças climáticas do cotidiano dos torcedores.
Christian Ramos, morador local e voluntário do projeto, conta que decidiu participar por acreditar no potencial transformador da ação coletiva. “Atualmente tem mais pessoas que desmatam do que quem planta, e acredito que o povo unido e informado pode reverter isso. Precisamos de mais áreas verdes em São Paulo”, relata.


Para ele, foi marcante perceber a colaboração entre pessoas que não possuíam experiência prévia com o plantio, mas que abraçaram o projeto.
Segundo os organizadores, além da recuperação gradual da paisagem urbana, o processo de ressignificação social do espaço é uma das principais mudanças observadas. Moradores, torcedores e instituições passaram a enxergar a área de forma diferente, associando-a não apenas ao futebol, mas também à preservação ambiental.
Brenda Bela, uma das coordenadoras, diz que para participar é só ficar atento à agenda do Corredor Ecológico nas redes sociais. “A forma mais fácil é seguir nosso Instagram, onde publicamos nossa agenda. Você vem em um dia, seja de plantio ou de manejo, e já vai ser inserido nos grupos de trabalho”, diz. Assim, o participante pode auxiliar no plantio, na infraestrutura ou no grupo técnico.
EXPANSÃO E INSPIRAÇÃO
A expectativa dos organizadores é que o projeto continue crescendo nos próximos anos. A proposta é aumentar o número de mudas plantadas, ocupar novos espaços na zona leste e fortalecer a participação da comunidade local nas ações.

Além disso, há o objetivo de transformar o Corredor Ecológico Corinthiano em referência para outras iniciativas semelhantes. O coletivo já dialogou dentro das próprias torcidas do clube, com retorno positivo, e a intenção é que o modelo inspire outras torcidas e até diferentes modalidades esportivas.
A longo prazo, o projeto aposta na educação ambiental como principal legado. Ao envolver torcedores, moradores e jovens, o CEC busca criar uma cultura de conscientização que ultrapasse os dias de plantio e se incorpore ao cotidiano da população.
A aposta já traz efeitos nas novas gerações. Durante uma das ações, uma criança fez questão de levar a mãe ao local para cuidar da muda que havia plantado anteriormente. Para os organizadores, esse tipo de envolvimento revela a dimensão social do projeto.
Foto de abertura: Reprodução Instagram







