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Clandestinas: nada mais punk rock do que ser trans e feminista

16/01/2024

Com sonoridade diferenciada e ativismo musical, banda mostra que a filosofia punk rock é ferramenta de militância trans, feminista e LGBTQIAPN+.

Se você não gosta do que existe, faça você mesmo. Esse é um dos principais lemas do movimento punk. Entre outros pontos, a ideia é que qualquer pessoa pode fazer música, independente se já pegou em um instrumento ou não. Mais do que tocar, a frase mostra que todes são capazes de levantar seus ideais e defendê-los.

Foi assim que Camila Godoi, baixista e uma das vocalistas da banda Clandestinas, aprendeu a tocar baixo aos 45 anos. Não só ela, mas todes da banda iniciaram sua trajetória na música dessa forma: “na cara e na coragem”.

Fundada em 2017, a banda Clandestinas surgiu da urgência interna de se questionar padrões de gênero e sexualidade na sociedade — e também no movimento punk rock. Através da música, elus se opõe ao machismo, ao patriarcado, ao racismo, à LGBTfobia e outras formas de opressão. 

Atualmente, além de Camila, integram na banda Joana Cid, na guitarra e voz, e Natiê Benite na bateria e voz.

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CAMILA E NATIÊ: TRAJETÓRIA MUSICAL NA CARA E NA CORAGEM (Foto: Rafael Felix)

O PUNK É TRANS E “SAPATÃO”

Para Camila, o contato com o punk através da banda foi fundamental para se posicionar como “sapatão” e pessoa transgênero no mundo. “Somos um grupo que se fortalece”. 

Tanto Camila como Natiê moram em Jundiaí, município de São Paulo. Elus se encontraram em projetos culturais e de militância feminina e LGBTQIAPN+ na cidade. “Estávamos sentindo o desejo de amplificar nossas vozes para gritar nossas pautas de luta feminista e LGBT”, comenta a baixista. 

O que levou Natiê a cidade — e ao feminismo — foi o Promotoras Legais Populares (PLP), um curso de formação feminista para a ampliação e fortalecimento do conhecimento de seus direitos e dos caminhos de acesso à justiça e combate à discriminação e opressão, atuando como uma ponte entre o Estado e a população. “Foi quando percebi o quanto o feminismo me impactava e o quanto queria estar fazendo aquilo. Deu base para a gente ter as músicas”.

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BANDA CLANDESTINAS: A MÚSICA COMO FERRAMENTA DE EMPODERAMENTO (Foto: Rafael Felix)

Natiê é uma pessoa trans não-binárie e, assim como Camila, a música foi fundamental para o seu processo de empoderamento: “A música é uma ferramenta potente para conseguir falar e chegar em mais lugares. O punk foi o pontapé inicial”.

O ativismo vai além da música. Elus também dão palestras sobre combate às opressões e sobre a vivência trans, feminista e LGBTQIAPN+ em universidades e escolas públicas. E, é claro, aproveitam essas oportunidades para fazerem pockets shows.

O PUNK É ANTICAPITALISTA E ANTIPATRIARCAL

O punk está mais na atitude do que na sonoridade das músicas. Apesar de o primeiro álbum Clandestinas, de 2020, remeter mais ao gênero — como a música Velcro e Na lua, Ana, as mais ouvidas do disco na plataforma de streaming Spotify, respectivamente — as composições recentes têm uma pegada mais dançante. “Vamos dançar, ao mesmo tempo que falamos sobre as pautas LGBT?”, indaga Camila.

Natiê completa que elus gostam de experimentar e produzir o que faz sentido para todes.

“As Clandestinas não tem um padrão. Queremos tudo, menos um padrão”

NATIÊ BENITE, BATERISTA DA BANDA CLANDESTINAS
NATIÊ BENITE: NÃO-BINÁRIE, FEMINISTA E PUNK

E, diferentemente das bandas rock e punk convencionais, os shows não são em bares do gênero. “Nós nos sentíamos insegures de nos expormos em espaços heteronormativos, bastantes cisgêneros”, explica Camila. Assim como diz a filosofia punk rock, a solução foi criar seus próprios espaços e ocupar outros não tradicionais — como os Sescs, em São Paulo —, junto com a militância feminista e LGBTQIAPN+. 

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Apesar da paixão e dedicação, Clandestinas é um projeto paralelo e ainda não consegue manter les artistas financeiramente. Camila e Natiê também trabalham com o que é conhecido como roadie, fazendo técnica de áudio e montando e realizando direção de palco para outras bandas. Já Joana acompanha outres artistas, principalmente como baixista, mas também produz álbuns e peças publicitárias. 

CAMILA E NATIÊ: FATURAMENTO DA BANDA É DIVIDIDO IGUALMENTE ENTRE TODES

“É um desejo nosso ganhar a vida só com esse projeto, mas é muito difícil seguir esse caminho sendo anticapitalista e antipatriarcal”, explica Natiê. Isso significa que, para fazerem um show, é necessário que recebam um cachê que pelo menos pague o valor dos outros serviços que prestam.

Camila também critica a falta de representatividade LGBTQIAPN+ na venda de shows, o que faz com que ela seja a responsável pelo agendamento. “Não estou inserida, não tenho os contatos. De vez em quando conseguimos. Fizemos um show no Sesc Pompéia e no Festival Bicuda, um festival LGBT de Campinas. Foi importante para dialogarmos com esse público”.

Outra crítica é que nenhum homem a indica para fazer trabalhos técnicos. Por isso, quando conseguem vender um show, buscam pessoas não-bináries e mulheres para trabalharem com elus. O cachê é dividido por todes igualmente. “Fazemos questão de todo mundo ganhar igual. Nós dependemos de todes para a coisa acontecer”, explica Natiê.

Por esses motivos, os projetos mais recentes da Clandestinas priorizam as produções audiovisuais, como clipes das músicas mais recentes. Uma delas é Eu sou LGBT, composta por Natiê, que aumentou o público da banda. A audiência, antes composta majoritariamente por pessoas não-bináries e corpos lidos como femininos, agora também alcança homens gays e bissexuais. 

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“A música é uma ferramenta poderosa, que chega nas pessoas. Mais do que dançando, a pessoa está refletindo sobre o que estamos falando”, comenta Natiê. Elu também percebe um momento mais maduro da banda, propondo discussões que celebram as pautas que levantam nas canções. 

Eu sou LGBT fala sobre o empoderamento de se assumir como LGBT e como é fazer parte de um coletivo. Outras músicas que estão para ser lançadas são Jacobine e Convescote. Ambas vão trazer uma linguagem não-binárie.

“Independentemente de aceitarem ou não, criamos poéticas e cantamos com linguagem neutra de gêneros gramaticais”

CAMILA GODOI, baixista DA CLANDESTINAS
CAMILA GODOI: REVITALIZAÇÃO DO PUNK CONTEMPLA CORPES DISSIDENTES

Sua visão é de que a revitalização do punk e do rock como um todo passa por corpos dissidentes ocupando o espaço de protagonismo. “O rock divulgado pela grande mídia e contratado pelos festivais é branco, cisgênero e hétero. Vai cada vez mais minguar. Se olhamos os artistas emergentes, vemos que são corpos e vozes dissidentes”.

Para Natiê, é fundamental, ainda, o público entender o que está ouvindo, pois são eles que têm o poder de trazer mudanças para o cenário, que ainda apresenta inúmeras barreiras. “Se começarem a reagir mais positivamente em obras agregadoras e progressistas, não tem como a indústria negar essa movimentação. E eu preciso acreditar que as coisas estão mudando. Lutamos para isso”.

FOTOS: Rafael Felix
EDIÇÃO: Teresa Cristina

Quem escreveu

Antônio Moraes

Antônio Moraes

Um paulista-mineiro movido por cultura, esportes, gastronomia e espírito urbano. Graduado em jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais, com passagens pelo Instituto Cultural Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG Cultural) e Livraria da Travessa.

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