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Egressas do sistema prisional batalham por espaço na sociedade

09/05/2023

Egressas do cárcere relatam dificuldades de ingressarem no mercado de trabalho e como encontram no teatro espaço para mostrar seu valor.

Reportagem de Alex Lima, Giovana Paiva, Giovanna Sousa, Ingrid Souza Kaic Ferreira, Larissa Almeida, Laura Santos, Mariana Gouveia e Milena Soares, alunos do curso de Jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, parceira da Emerge Mag.  Com colaboração e edição de Karol Pinheiro.

Dados da quinta edição de World Female Imprisonment List, levantamento global sobre mulheres presas realizado pelo ICPR (Instituto de Pesquisa em Políticas Criminal e de Justiça), em 2022, demonstram que o Brasil é o terceiro país com a maior população feminina carcerária do mundo, atrás, apenas, do Estados Unidos e China. Quando essas mulheres deixam a prisão, uma das maiores dificuldades enfrentadas é a reinserção no mercado de trabalho. 

Em um sistema social que já é discriminatório para mulheres, o estigma de ter passado pelo sistema prisional torna a tarefa ainda mais árduas, já que essas mulheres concorrem com pessoas que não possuem uma ficha criminal e, em geral, maior grau de escolaridade.

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Dulcilene Araújo Gonçalves, de 40 anos é mãe de dois filhos, e teve duas passagem pelo sistema prisional. A reportagem ela destacou que sua principal dificuldade após deixar o cárcere foi justamente a de arranjar um emprego. Hoje, ela trabalha como faxineira de um hortifruti, mas o emprego só foi conquistado graças à intervenção da cunhada e da irmã.

“Existe uma restrição de empresas quando digo que sou ex-presidiária. Mesmo dizendo que quero mudar, trabalhar e mostrar minha diferença para o mundo, as oportunidades não vem”, contou Dulcilene. 

O advogado criminalista Emerson Limeira corrobora dizendo que isso realmente ocorre, pois em empresas que oferecem vagas de outras funções, no momento em que são solicitados os antecedentes criminais e é constatada uma ocorrência, a empresa rejeita a candidata. “Mesmo sendo proibido por lei, muitas empresas rejeitam os candidatos alegando que seu perfil não corresponde à vaga”, explica Emerson.

As dificuldades da recolocação da mulher carcerária no mercado de trabalho estão diretamente ligadas a forma como a sociedade as julga.  Dulcineia diz que a maior parte dos serviços oferecidos às mulheres que já foram presas acabam se limitando sempre à área da limpeza, ou seja, aos serviços que ninguém quer.

“Não nos dão oportunidades de crescer nas empresas, desconfiam da gente. Mas como posso demonstrar meu valor, se não me dão a oportunidade de provar?”

Dulcilene Araújo Gonçalves

SOL PARA TODAS

Murilo Gaulês, fundador da Cia. dxs Terroristas, coletivo artístico que defende o Abolicionismo Penal, movimento que aponta as diversas falhas dos sistemas penais modernos e busca alternativas mais eficientes e humanas para ressocializar infratores, sublinha a necessidade de criar uma relação de confiança e diálogo para as egressas se desenvolverem.

Murilo é favor de trocarmos o verbo punir, por responsabilizar, reparar e educar. “As pessoas precisam ser responsabilizadas e reparar por seus atos, mas não podemos reduzi-las apenas a isso”, sublinha Murilo ao fazer eco as palavras da escritora Chimamanda Ngozie Adichie, que num dos Ted Talks mais viral falou sobre o perigo de uma história única.

Acostumado a trabalhar com sobreviventes do sistema prisional – é assim que ativistas da luta antiprisional se referem as pessoas que tiveram passagem pelo cárcere – Murilo Gaulês está na direção do espetáculo  “Anjos de Cara Suja – O sol é, ou deveria ser, para todas”, que está em cartaz na Casa F.U.R.I.A (Frente Unificada de de Resistência Abolicionista), primeiro centro cultural para pessoas LGBTIA+ sobreviventes do sistema prisional do brasil. 

A peça de teatro é um espetáculo-manifesto, onde travestis sobreviventes do sistema prisional compartilham suas histórias. Em uma hora e dez de espetáculo, o público assiste às recorrentes tentativas de desumanização que o cárcere visa provocar. Mas também é apresentado à coragem e a criatividade dessas mulheres, capazes de criar dentro e fora das prisões, soluções para superar em comunidade suas dores.

Anjos de Cara Suja – O sol é, ou deveria ser, para todas foi uma peça pensada para oito sobreviventes do cárcere, mas hoje participaram do elenco apenas por três: Carla Mendes, Ema Alves e Savannah Conceição.

Murilo conta que as baixas devem-se à própria dificuldade delas de se reinserir na sociedade. São pessoas que não tiveram acesso à rotina escolar, familiar e de trabalho. Geralmente, o primeiro contato com rotinas foi na cadeira, de maneira forçada e autoritária.

“Leva um tempo para elas entenderem a necessidade de cumprir horários e toda a dinâmica do trabalho teatral. Temos essa compreensão, mas não as isentamos de responsabilidade”

Murilo Gaulês

“Anjos de Cara Suja – O sol é, ou deveria ser, para todas” é um projeto contemplado pelo Lei de Fomento ao Teatro da Secretaria Municipal de São Paulo e consistiu numa série de de ações formativas e de elaboração criativa. A rapper Ema Alves falou à reportagem sobre como foi para ela participar dessa experiência. “Eu acho que eu evolui muito como artista depois deste projeto”. Carla Mendes corrobora: “Antes daqui, para mim só existia a prostituição. Mas no processo eu fui me identificando e me apaixonando pela atuação”.

Apesar de conscientes do poder e da beleza do que construíram no projeto,  elas não se iludem com os palcos. “Se um diretor chegasse em mim hoje e perguntasse se eu aceitaria fazer um monólogo, eu aceitaria porque eu sei que dou conta de fazer. Mas a verdade é que ainda não há muitas oportunidades para pessoas como eu”, afirmo Savannah Conceição, ao relembrar casos de transfake, prática de colocar pessoas cis para interpretar pessoas trans, nas dramaturgias.

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WALIDAH IMARISHA: POETA FOI INSPIRAÇÃO PARA O GRUPO (Foto: Dn Agostini)

“Anjos de Cara Suja – O sol é, ou deveria ser, para todas” nasceu do contato da Cia. dxs Terroristas com a poesia revolucionária de Walidah Imarisha. Professora de Estudos da negritude na Universidade de Portland, Walidah é criadora do gênero literário de “ficção visionária”, que utiliza elementos de ficção científica, fantasia e utopia para projetar futuros possíveis e desejáveis para as sociedades humanas, inspirando leitores e escritores a pensar em alternativas para os problemas e desafios do presente.

Os conceitos e práticas são exatamente o que Murilo, Ema, Carla e Savannah fazem hoje e convidam o público a fazer junto com elas, durante e depois de seu espetáculo.

SERVIÇO
“Anjos de Cara Suja – O sol é, ou deveria ser, para todas”
Casa F.U.R.I.A (Rua Paranhos Pederneiras, 286, Vila Guilherme)
Sextas, sábados e domingos às 19h.
Grátis
Mais informações: www.instagram.com/ciadxsterroristas/

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Redação Emerge Mag

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