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Identidade e autoexpressão por trás da maquiagem

23/08/2018

Os maquiadores Vale Saig (na foto, ao lado da performer Deva Sitara) e Noah Corrêa mostram o impacto sociocultural que blush, bases, sombras e batons têm na construção e afirmação da liberdade individual

Quem acessa os perfis de Vale Saig e Noah Corrêa nas redes sociais não imagina que até o começo da vida adulta – hoje eles têm 31 e 27 anos, respectivamente – ambos não davam a menor bola para cosméticos.

Ela, por indiferença e falta de representação, já que eram raras as mulheres ao seu redor que faziam uso de maquiagem. Ele, por sua vez, por crer na lógica do senso comum, que diz que maquiagem é “coisa de mulher”.

Hoje, os dois mal se reconhecem no espelho quando estão sem uma base, uma perfeita combinação de cores saturadas e iluminador no rosto.

E o que mudou? O desejo de ressignificar o papel que a mídia e a indústria deram aos cosméticos, onde é fomentado um padrão estético pré-estabelecido – e não uma expressão de personalidade e verdadeira essência.

Para o paraense Noah, virar esse jogo inclui criar uma relação mais intimista e de valorização do eu. Ele explica:

“Um batom não é só um batom, mas também um objeto capaz de materializar em cor, forma e textura todo o nosso ser e imaginário”

A argentina Vale vai na mesma linha, focando também na ruptura: “Me ensinaram que quando se escolhe dar ênfase ao olho, a boca precisa ser mais básica – e vice-versa”, diz ela. “Mas não precisamos ficar presos a todas essas regras da maquiagem comercial”.

NOAH DURANTE PINTURA CORPORAL: MAQUIAGEM COMO TRAÇO DA CULTURA DE UM POVO (Foto: Leandro Tupan)

Atualmente, Noah e Vale trabalham como maquiadores profissionais em São Paulo. Por meio da irreverência e criatividade, eles vêm fincando seus nomes no cenário artístico brasileiro.

Vale já maquiou, entre outras personalidades, a cantora Elza Soares. Assinou ainda a maquiagem do clipe de Privê, estreia solo de Mateus Carrilho, ex-integrante da Banda Uó.

Ela também chamou atenção da Adidas. Recentemente, a marca a contratou para a campanha da coleção Originals, em parceria com a Casa 1, lançada para celebrar a diversidade e a igualdade.

Desde janeiro, Vale dá aula de automaquiagem para os residentes do centro de acolhida. Ela também está desenvolvendo um projeto semelhante voltado para pessoas com câncer.

Paralelamente, Noah costuma assinar a direção de maquiagem de peças do Circuito Sesc de Teatro.

Ele também é um dos participantes do concurso de maquiagem artística do programa Superbonita, do canal GNT, apresentado por Karol Conka.

O jovem atua ainda como maquiador em agências de modelos, como a Divo Mgmt, que representa modelos que já foram capa das revistas L’Officiel Brasil e Harper’s Bazaar. Noah também assinou a maquiagem do clipe de estreia do cantor congolês Gloire Ilonde, radicado no Brasil desde 2011.

CORES E MAIS CORES

As criações desses maquiadores trazem tons vibrantes e incrivelmente coloridos, típicos do color blocking (no caso de Noah, soma-se a textura). O conceito consiste em combinar diferentes cores e matizes, criando um look ousado e intenso – como é possível nas fotos da performer Deva Sitara, clicada por Kalinca Maki, editora de fotografia de Emerge Mag.

No entanto, não há um estilo de maquiagem que prevaleça nos dias de hoje. Apesar da indústria continuar a produzir novas convenções, o trabalho de novos maquiadores tem empoderado mulheres e homens para causar rupturas nesses padrões.

Por esse motivo, nos últimos anos, foi possível ver nas ruas uma mistura de todos os estilos do século XX, potencializados por uma maior liberdade de expressão. Hoje, temos o romantismo e a elegância do início dos anos 20; a delicadeza sexy dos anos 1960; a irreverência dos anos 80 e a “apatia natural” em tom de protesto dos anos 90. Essa última, por exemplo, é levada para as passarelas da São Paulo Fashion Week pelas mãos da maquiadora Amanda Schön, jovem referência no segmento.

Para Noah, a ideia de beleza e uso de cosméticos não deve ser enxergada como algo trivial.

“Quem acredita que a maquiagem é algo frívolo ainda não compreendeu o seu simbolismo e impacto cultural e sociológico. É uma causa social, a defesa da liberdade de ser o que quiser ser”.

IMPACTOS AMBIENTAIS

Apesar da maquiagem existir desde 1800, foi o século XX que solidificou a cosmetologia como ciência, democratizando o acesso aos produtos estéticos. É neste período, por exemplo, que o maquiador Max Factor, considerado o pai da maquiagem moderna, cria uma série de produtos portáteis que se tornam indispensáveis no nécessaire feminino.

A PERFORMER DEVA SITARA: MAQUIAGEM QUE COLORE, TRATA, PERFUMA E PROTEGE A PELE (Foto: Kalinca Maki)

A modernidade também fez dos cosméticos um lucrativo segmento de mercado. Hoje, o setor resiste até a crises econômicas, como a que ainda aflige o Brasil. A indústria da beleza, que inclui cosméticos e similares, cresceu 4,8% em 2016, somando R$ 102,2 bilhões em vendas.

A estimativa é que o campo continue crescendo e movimente R$ 115 bilhões em 2020, de acordo com Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos.

Para além dos lucros – e bem mais importante do que as cifras – nosso tempo tem suscitado verdadeiras revoluções na composição e fabricação de cosméticos.

Jovens consumidores estão mais sensíveis e conscientes e há uma preocupação com a presença de ingredientes sintéticos e testes em animais.

Isso ocorre porque a maioria das maquiagens tradicionais possui insumos que fazem mal à saúde da pele e ao organismo humano.

O parabeno, que fixa a maquiagem na pele, por exemplo, quando acumulado, pode causar infertilidade e câncer. Metais pesados usados em pigmentos de sombras, batons e máscaras de cílios podem causar alergias e enxaquecas.

Noah e Vale são exímios representantes dessa geração que espera que maquiagens sejam multifuncionais: colore, trate, limpe, perfume e proteja. Também é primordial que sejam naturais e sustentáveis, de modo que viabilizem beleza e saúde num único tubo.

Para Noah, o Brasil sai na frente quando o assunto é sustentabilidade, uma vez que a nossa flora é diversa. Também por isso, ele dá preferência às marcas nacionais. “Muitas vezes a gente acaba esquecendo a riqueza da nossa terra e da capacidade da nossa própria indústria”, diz.

Fundada na França em 1991, a Ecocert é uma prestigiada certificadora de produtos naturais. De acordo com a entidade, um cosmético in natura precisa ter em sua fórmula 95% de ingredientes de origem orgânica.

No entanto, há desafios. Um deles é encontrar fixadores naturais que tenham desempenho similar aos de ingredientes oriundos de petróleo e derivados. Enquanto a solução tecnológica não vem, talvez seja necessário mudar o hábito de uso e o apreço por uma maquiagem que dure um dia inteiro.

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UM SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA

Em 2015, o canal da vlogueira Júlia Tolezano, o “JoutJout, Prazer”, ganhou repercussão nacional com o vídeo “Não tira o batom vermelho”. No filme, ela apresenta e questiona exemplos dos comportamentos abusivos mais comuns em relacionamentos afetivos. Um deles é a desaprovação do uso de batom vermelho por parte de alguns homens às suas parceiras mulheres. O argumento: “a mulher fica parecendo uma puta”.

VALE SAIG: NÃO HÁ PORQUE NOS PRENDER AS REGRAS DA MAQUIAGEM COMERCIAL

Não é de hoje que as mulheres têm a cor dos seus lábios cerceada.

Na Inglaterra medieval, pelo simples ato de usar esse tal batom vermelho, uma mulher podia ser punida por lei, além de ser vista pela onda inquisitorial do cristianismo como pecaminosa, diabólica e farsante.

O homem também poderia separar-se de sua esposa no dia seguinte ao casamento se acreditasse que ela o enganou com o uso de maquiagem.

Séculos mais tarde, em 1912, foram as sufragistas de Nova York que ressignificaram novamente o uso da maquiagem. No dia 6 de maio daquele ano, elas tomaram as ruas da cidade exibindo lábios pintados de vermelho.

O cerne da manifestação era o direito ao voto. Mas a historiadora inglesa Madeleine Marsh, autora do livro “Compacts and Cosmetics”, que apresenta a história da beleza por meio dos cosméticos, entende que o batom vermelho foi o símbolo daquela rebelião.

O movimento despertou uma geração de mulheres e criou a força para reconhecer seus direitos como indivíduos sociais e como sexo tão forte quanto o masculino, diferente do que séculos de domínio patriarcal as fizeram acreditar.

Toda a biografia da maquiagem e dos cosméticos é surpreendentemente tumultuada. Mas o resultado positivo é que por trás de cada boca pintada há uma rica e única história de identidade, autoexpressão e libertação. Além, claro, da eterna dificuldade de escolher, caso elas queiram, o tom perfeito do batom vermelho para a próxima revolução.

IMAGEM DE TOPO: Kalinca Maki

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