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A ativista que gostamos é candidata a deputada estadual: Neon Cunha

27/09/2022

Neon Cunha diz que sua candidatura é uma convocação coletiva à vida e transformação social num período decisivo para o Brasil.

Entrevista/Editorial

Mulher, negra, ameríndia e transgênera, nesta ordem de importância. É assim que a ativista independente Neon Cunha se apresenta. Criada em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo, ela é funcionária pública há mais de 40 anos. Ao longo de sua trajetória, acompanhou diversas mudanças políticas: da transição da ditadura aos movimentos sindicais do ABC, das diversas cenas culturais de rua à organização dos movimentos LGBTQIA+ e de mulheres negras.

Filha de empregada doméstica com coração de poeta – sua mãe contava que viu o céu brilhar e mudar de cor quando a filha nasceu –, Neon tem herança ancestral, mas ficou no passado. Nos últimos anos, ela foi parceira fundamental da estilista Isa Isaac Silva (já perfilada pela Emerge). Ela cocriou o conceito de várias coleções da marca homônima, entre elas a que homenageou Xica Manicongo, a primeira travesti não-indígena do Brasil, que viveu por aqui por volta de 1591.

Lembra do vídeo clipe da música “Oração”, de Linn da Quebrada? Neon é uma das estrelas vestidas de branco, ao lado de Liniker e Urias, entre outras. A ativista também é articuladora da Marcha das Mulheres Negras, que desde 2011 acontece no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e de Tereza de Benguela (25 julho). Na edição de 2019, Neon foi responsável por mediar um debate com Opal Tometi, uma das fundadoras do Black Lives Matter, “Vidas Negras Importam” (o evento teve cobertura da Emerge).

A ativista também foi conselheira da Mandata Quilombo, da Deputada Estadual Erica Malunguinho, eleita em 2018 sendo a primeira mulher transgênero da Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP). Sobre seu reconhecimento social, Neon afirma que tem muitas responsabilidades diante das causas de gênero, cultura e classe. “Me atualizo todos os dias nas urgências do agora de tantas pessoas que tem seus direitos negados”, diz ela.

Há poucos dias do pleito, Italo Rufino, diretor de redação da Emerge Mag, conversou com Neon Cunha, além de acompanhá-la na Caminhada São Paulo Negra, organizada pela plataforma de experiências de turismo Guia Negro. Sua candidatura a deputada estadual é uma convocação coletiva à vida e transformação social, em um momento decisivo para o Brasil. Para ela, a responsabilidade afetiva com o coletivo e a honestidade são fundamentos da política solidária, na qual acredita, adota e pretende levar ao parlamento.

“A cultura e as artes estão em tudo. São sobre possibilidades, sobre o nosso direito de termos utopias, de pensarmos além”

NEON CUNHA

Veja, abaixo, os melhores trechos da entrevista exclusiva de Neon Cunha para Emerge Mag:

EMERGE MAG: Quais são suas propostas chave rumo à ALESP?

Neon Cunha: Importante todes saberem que assumi o compromisso de seguir parte dos caminhos de lutas travados pela Mandata Quilombo de Erica Malunguinho. Vou dar continuidade em temas como a defesa do Estado laico e o respeito às religiões de matriz africana; cultura e periferias; mulheres e população LGBTQIAPN+; segurança pública; educação e atenção às pessoas em situação de rua. Malunguinho trabalhou esses temas sempre fundamentando em raça e gênero – o que darei continuidade. E isso acontece porque aprendi com o movimento de mulheres negras. Ao pensar políticas para este público da base, estamos beneficiando toda a sociedade. 

“Uma das nossas prioridades mais importantes é atender a população que está em situação de rua, principalmente a população LGBTQIAPN+”

O aumento no número de pessoas morando nas ruas é uma denúncia por si só. O acesso à saúde pública de qualidade, com maior preparo das equipes para atender essa população, também é necessário. É impossível não falarmos também da urgência que é combater as diversas ferramentas utilizadas para a manutenção do genocídio da população negra, promovido pelo próprio estado inclusive. Ou seja, segurança pública, acompanhamento das polícias e da pauta do encarceramento em massa também serão prioridades. Para mulheres e população LGBTQIAPN+, quero trabalhar para a consolidação e ampliação de direitos. Nossas pautas são todas pensadas de forma direta nas pessoas, em quem não tem direito à humanidade. 

NEON CUNHA E ERICA MALUNGUINHO: MUDANÇAS SOCIAIS VIA ORGANIZAÇÃO COLETIVA (Foto: Divulgação

Quais são suas propostas específicas para as artes, a cultura e a economia criativa?

Tenho formação em artes, e sei a importância que isso tem como parte de um processo político mesmo, de pensarmos além. Gostaria muito de ver o ensino de artes como imprescindível na formação escolar. Além de entender que a promoção cultural e o seu acesso devem acontecer em todas as regiões e cidades, não tendo apenas como prioridade os centros e a capital.

“Importante ressaltar que há um movimento de cultura forte que surge das margens, das periferias e favelas, que já fazem política fora da institucionalidade. Quero ouvi-los e considerar todo acúmulo que já existe”

Quais são as maiores incongruências existentes hoje na ALESP?

A política institucional precisa mais da política das ruas do que o contrário. As grandes mudanças sociais sempre acontecem nas ruas, vem da gente, das pessoas se organizando coletivamente para que haja avanços. Isso não muda. Uma ativista independente, como eu, não se esquece de tudo isso. Estarmos cada vez mais nas casas legislativas é trazermos cada vez mais a política institucional para a política na prática. Hoje, a ALESP serve quase integralmente apenas para chancelar a política do governador – não pode continuar assim. Os deputades eleites, enquanto representantes do povo, precisam conseguir mais autonomia para trabalhar. Enquanto conselheira que fui da Mandata Quilombo de Malunguinho, sei que muitas indicações feitas ao governo sequer recebem respostas. Falta até espaço para o diálogo.

Caso eleita, como vislumbra tornar a casa mais justa, democrática e representativa?

Como mulher negra, sei que nunca estou sozinha. Darei continuidade ao trabalho feito junto aos movimentos sociais por Erica Malunguinho e tantas outras que estão na política institucional. Serei parte no processo de mudança da casa, da nossa democracia. A Erica criou um quilombo na ALESP, composto só de pessoas pretas e LGBTQIAPN+. Vamos continuar isso.

“Tenho gostado mais de pensar em favelizar os espaços. Cada vez mais trazer o modo coletivo de fazer”

ORAÇÃO, DE LINN DA QUEBRADA: CELEBRAÇÃO A VIDA, CUIDADO E PROTEÇÃO (Foto: Gabriel Renne)

Qual o impacto da cultura na sua formação?

A cultura e as artes estão em tudo. Entendi, desde muito cedo, a importância da estética, de como poderia usar da moda para ocupar o meu espaço, por exemplo. Arte e cultura são sobre possibilidades, sobre o nosso direito de termos utopias, de pensarmos além. Quando eu movi um processo pedindo o reconhecimento de nome e gênero sem passar por um processo patologizante, coloquei como condição um impasse:

“Se me fosse negado o direito de eu mesma dizer a mulher que sou, então tinha o direito à morte assistida, pois aquilo seria uma proibição da minha existência. Isso, para mim, também é produzir enquanto artista”

O que te tira o sono?

A urgência de tempos melhores.

O que te motiva a acordar?

A urgência por tempos melhores – e a certeza que posso contribuir neste processo.

INFORMAÇÕES ELEITORIAS

Neon Cunha
Número: 50700
Deputada Estadual – São Paulo.
Partido: PSOL

FOTO DE ABERTURA: Divulgação

Quem escreveu

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Italo Rufino

Jornalista pós-graduado em marketing com dez anos de experiência. Trabalhou na revista Exame PME (Editora Abril), nos sites Diário do Comércio e Projeto Draft e na ONG de urbanismo social A Cidade Precisa de Você. Natural de Diadema (RMSP). Pai de uma criança de 10 anos. Fundador da Emerge.

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