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Opal Tometi: “As pessoas negras sabem que seus direitos estão sendo violados”

16/08/2019

Opal Tometi, cofundadora do Black Lives Matter, fala do papel da mulher na luta racial e comenta os governos racistas de de Trump e Bolsonaro.

Opal Tometi é uma das fundadoras do Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”). O movimento, nascido há seis nos Estados Unidos, combate o racismo institucional do país, expressado em diferentes formas de opressão, como a seletividade penal do judiciário e a truculência policial contra a população negra.

Filha de imigrantes nigerianos, Opal também é escritora e ativista pelos direitos humanos, atuando há mais de 15 anos junto a comunidades de refugiados. Hoje, ela também é diretora da Aliança Negra por uma Imigração Justa (Baji, na sigla em inglês).

Há algumas semanas, ela participou de um debate articulado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), organização não-governamental que desenvolve projetos para a promoção da equidade de raça e de gênero.

O evento fez parte da programação do Julho das Pretas, um desdobramento da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

BATE-PAPO COM OPAL FOI ORGANIZADO PELO CEERT E TEVE PARTICIPAÇÃO DE HELOÍSA MENDES, DA UNEAFRO (À ESQUERDA) E MEDIAÇÃO DE NEON CUNHA, DA MARCHA DAS MULHERES NEGRAS (AO CENTRO)/Foto: João Bertholini

A conversa foi mediada por Neon Cunha, da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

O debate também contou com participação de Sandra Silva, coordenadora da Mandata Quilomba, da Deputada estadual Erica Malunguinho; Angela Mendes, da Articulação Nacional das Negras Jovens Feministas; e Heloísa Rodrigues, da integrante da UneAfro.

Numa iniciativa em parceria com o Ceert, a Emerge Mag reproduz os principais trechos da conversa. Leia a seguir:

Qual foi o cenário, com raízes históricas e estruturais, que motivou o surgimento do Black Lives Matter?

Opal Tometi: O Black Lives Matter (BLM) começou porque nós estávamos fartos do silêncio em torno do genocídio do povo negro e do racismo que acontece nos Estados Unidos. O racismo é um fenômeno mundial, bem como o patriarcado, a transfobia, a homofobia e o preconceito com pessoas deficientes.

Nos Estados Unidos, lidamos com essas incontáveis histórias do povo preto sendo alvo de vigilantes, de seguranças, da polícia e etc. Nós estávamos de saco cheio de perceber que por termos um presidente negro (Barack Obama era presidente na época), muita gente achava que devíamos parar de falar sobre racismo. Eu ouvia “por que vocês estão reclamando? Está tudo bem agora. Vocês têm a Oprah, a Beyoncé, Michael Jordan e todas essas grandes estrelas negras.”

Mas, na real, sabíamos que o nosso povo estava sofrendo com a pobreza, a marginalidade e o baixo nível de educação – e estava sendo morto nas ruas.

Sabíamos que, desde que fomos tirados da África e arrastados para as Américas, juntamente com o genocídio dos povos originários, o povo negro, assim como os indígenas, sempre resistiu e lutou por sua sobrevivência e liberdade.

Tivemos organizações desde a época das abolições, passando pela luta por direitos civis nos anos de 1960.

“O Black Lives Matter surgiu porque muitos de nós já eram organizados em grupos por todo os Estados Unidos. Nós já éramos líderes de grupos de resistência preta nas nossas próprias comunidades”

O ponto de partida para o começo do BLM foi o assassinato de Trayvon Martin, um garoto de 17 anos que foi morto por George Zimmerman, que tinha 34 anos e foi absolvido. E, para muitos de nós, essa foi a gota d’água. Nós víamos esse episódio como se fosse nosso, porque poderia ser nosso filho, poderia ser nosso irmão, poderia ser qualquer um de nós. E o fato de que alguém aleatório matou alguém da nossa comunidade por puro racismo e saiu impune nos fez pensar que era o menino de 17 anos que estava sendo julgado pelo seu próprio assassinato. E nós estávamos fartos.

Inicialmente, o BLM tinha como intenção espalhar uma mensagem de amor e apoio ao povo negro. Uma mensagem para nós mesmos para inspirar o envolvimento em organizações que já existiam ou para iniciarmos novas. Um ano depois, formalizamos a nossa organização.

Depois, tivemos o caso em que Mike Brown, um garoto negro, foi morto pela polícia em Ferguson, Missouri. Os negros de lá foram para as ruas e manifestaram sua raiva e preocupação acerca do que estava acontecendo. Houve um enfrentamento com uma força policial militarizada. Era como uma zona de guerra que a gente vê em outras partes do mundo, mas estava acontecendo no Centro Oeste dos Estados Unidos. E o que nós aprendemos com esse episódio é que o povo negro tinha que continuar lutando.

Quais as singularidades do BLM devido ter nascido nos Estados Unidos?

ALICIA GARZA, OPAL E PATRISSE CULLORS: FUNDADORAS DO BLACK LIVES MATTER/(Foto: Divulgação)

Tenho ciência de que o contexto social de cada país é diferente, o contexto em que estamos inseridos nos faz criar níveis diferentes de ativismo.

No entanto, sabemos que o povo negro está em luta no mundo todo e é disso que o BLM se trata: de pessoas negras de todo o mundo que sabem que seus direitos estão sendo violados todo dia, em maior ou menor grau.

Eu tenho entendimento que a luta do povo negro do Brasil se difere da minha. Nos Estados Unidos, podemos ter mais recursos e acessos, a nossa cultura nacional é mais hegemônica e disseminada no mundo. Porém, temos que nos conectar com nossos irmãos no mundo todo e lutar com e por eles, pois o nosso governo incentiva o fascismo no mundo todo.

Também temos que estar atentos ao que está acontecendo ao redor do mundo e refletir: será que eu sou complacente com isso? Como a nossa cultura, como americanos, é culpada por isso? Porque, no fim das contas, todo o povo negro precisa se ajudar.

As mulheres negras, transexuais e queers negros sofrem por questões específicas, mas todos sofremos por sermos pretos.

“O BLM foi fundado por três mulheres pretas [além de Opal, participaram Alicia Garza e Patrisse Cullors]. Eu me incomodo como muitas vezes isso não é divulgado da forma como deveria. Sofremos com o patriarcado e sabemos como a liderança feminina é muitas vezes apagada da história”

Eu me incomodo como muitas vezes isso não é divulgado da forma como deveria. Sofremos com o patriarcado e sabemos como a liderança feminina é muitas vezes apagada da história.

Nós sempre contribuímos, demos nosso sangue e suor, nos sacrificamos por nossos movimentos e sabemos que, quase sempre, os homens cisgêneros e héteros levam crédito pelo nosso trabalho, pegam o microfone, aparecem na TV e ficam com o dinheiro.

As pessoas não cuidam das mulheres negras como cuidam uns dos outros. Por isso eu decidi vir ao Brasil para a Marcha das Mulheres Negras – e também fazer pesquisas com imigrantes – pois as mulheres negras estão na linha de frente e, quase sempre, nossas preocupações, necessidades e opiniões políticas não são levadas a sério como deveriam.

“Acredito que todas as políticas têm de ser construídas a partir do ponto de vista do mais marginalizado para que englobe a todos – e isso quase nunca é feito”

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Qual o panorama as comunidades de imigrantes negros no Brasil?

Toda minha história de militância foi originalmente construída trabalhando com os povos imigrantes nos EUA. Nos últimos 15 anos, pesquiso imigrantes e refugiados negros nos EUA para entender as suas experiências e como a política racista e xenófoba e os impostos os afetam.

Os imigrantes pretos nos EUA são rotineiramente criminalizados e o que eu encontrei no Brasil é basicamente o mesmo.

“Os imigrantes pretos não recebem o mesmo tratamento que outros imigrantes, eles não recebem o mesmo apoio da mídia e das pessoas. E isso é bastante triste porque há uma população de imigrantes muito grande em São Paulo, como os haitianos”

Por sua vez, o imigrante africano sofre muito nas mãos de outros imigrantes, como turcos e chineses – a começar pelo tratamento nos porões de navios. Ao chegarem aqui, são vítimas de um sistema que nega acesso à cidadania. Muitos desses imigrantes ficam destinados à marginalidade – sem falar da brutalidade policial que a comunidade refugiada e africana está exposta.

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Qual a potência e impacto das jovens negras feministas?

A voz das mulheres negras dentro dos movimentos já está acontecendo. Ao mesmo tempo, temos que nos certificar de que não estão usando a figura da mulher feminista negra apenas como um símbolo, um enfeite. É crucial que nós sigamos as lideranças de mulheres negras. Se fizéssemos mais isso, a luta antirracista estaria mais avançada do que está agora.

Temos que aproveitar a oportunidade que estamos tendo agora, com todos os grupos de mulheres pretas feministas, e seguir o que elas estão propondo em relação a políticas públicas e questões estruturais da sociedade.

Eu sei que muitas vezes a questão dos recursos financeiros ou midiáticos que ampliem as nossas vozes pode ser um desafio, mas nós conseguimos. Também vejo que, no atual momento, a mulher negra é mais celebrada e podemos aproveitar para mostrar o que realmente queremos e como queremos ser vistas e ouvidas.

Como se fortalecer em época de governos Trump e Bolsonaro?

Não chegamos até aqui sem termos vivenciado governos parecidos com o que temos hoje.

Houve alguns governos um pouco mais progressistas, em que tivemos avanços em nossas lutas, mas logo em seguida entrava um governo totalmente contrário e o cenário voltava ao que era anteriormente. 

OPAL E NEON: “CORRE COM NÓIS OU CORRE DE NÓIS”

Nos EUA, por exemplo, tivemos várias organizações de luta, como o BLM, e mesmo assim o Trump foi eleito. E, ainda assim, nós não paramos. Precisamos ter a audácia de ir às ruas para lutarmos pelo que consideramos certo.

Como movimento social, eu acredito que temos que começar a criar alianças entre os que são mais afetados por essas políticas e esses governos. Nos EUA está acontecendo atrocidades com imigrantes, que estão sendo presos em jaulas, sem poder tomar banho ou escovar os dentes. Seus direitos humanos estão sendo totalmente violados. Crianças estão sendo separadas de seus pais. É esse tipo de violação que está sendo disseminada ao redor do mundo por causa desses líderes.

Falarei sobre o Trump porque, infelizmente, é a realidade que vivo. Ele incentiva a xenofobia e a misoginia. Ele sabe o poder que está dando para pessoas que só estavam esperando um aval para destilar ódio, racismo, xenofobia e todos os outros tipos de preconceito. O número de crimes de ódio está quebrando todos os recordes nesse momento nos EUA e eu sei que algo similar está acontecendo no Brasil. Então, temos que ser persistentes nesses dias difíceis.

Como lidar com discursos de ódio?

Sabemos que o povo negro é massacrado e morto pela polícia desde sempre. Ao mesmo tempo, o racismo tem feito nossa qualidade de vida ser diminuída, como em questões relacionadas à saúde, moradia e educação. Então, tudo o que colocamos como pauta é baseado em nossas próprias experiências. E é isso que importa: as experiências.

Eu estou sendo bem prática nos últimos tempos. Metade da nossa população está em situação de vulnerabilidade social, nas ruas ou nas prisões. Essa é a metade das experiências que eu escuto diariamente do meu povo. Então, nós temos que nos fazer escutar, temos que deixar claro qual o tipo de transformação que a nossa comunidade precisa e merece.

“Ao mesmo tempo, temos que nos certificar de que estamos cuidando de nós mesmos. É importante cuidar da nossa saúde emocional e da nossa espiritualidade”

Lidamos com um bombardeio de agressões físicas e psicológicas diariamente – inclusive só de ouvir o Trump ou o Bolsonaro. Eu chorei quando fiquei sabendo que o Bolsonaro tinha ganhado as eleições, pois percebi que a violação de direitos que nós estávamos enfrentando nos EUA estava vindo para o Brasil.

Então, eu acredito que temos que ir à terapia, temos que ler, meditar e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para nos mantermos saudáveis mentalmente. Ir na balada dançar um pouco ajuda também [risos]. As pessoas têm que ter divertimento e alegria na vida delas, porque é essa diversão e alegria que nos empodera e nos deixa saudáveis e com energia para continuar na luta.

TRADUÇÃO: Everton Madeira

IMAGENS: James Hartley (topo) e João Bertholini

Quem escreveu

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Italo Rufino

Jornalista pós-graduado em marketing com dez anos de experiência. Trabalhou na revista Exame PME (Editora Abril), nos sites Diário do Comércio e Projeto Draft e na ONG de urbanismo social A Cidade Precisa de Você. Natural de Diadema (RMSP). Pai de uma criança de 10 anos. Fundador da Emerge.

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