Quando o logotipo de arco-íris não basta

25/06/2026

Entrevista com organizador da Parada LGBT de Londres debate pinkwashing, patrocínios e o papel das empresas na promoção dos direitos LGBTI+

Um levantamento da NIQ Brasil mostrou que a comunidade LGBTI+ movimentou R$18,7 bilhões no país entre abril de 2023 e março de 2024, um crescimento de 39% em relação à pesquisa anterior. Os dados evidenciam a relevância econômica que a comunidade possui e sua importância no mercado consumidor.

Foi para descrever o poder de consumo da população LGBTI+ que surgiu, entre as décadas de 1980 e 1990, o termo Pink Money, ou “dinheiro rosa”, em tradução livre.

Por outro lado, o recente estudo Custo da Exclusão LGBTI+ no Brasil apontou que a pessoas da comunidade enfrentam desvantagens estruturais em todos os indicadores do mercado de trabalho, como desemprego, informalidade e inatividade. Na intersecção de raça e gênero, mulheres pretas da comunidade são as mais afetadas.

No final das contas, a exclusão LGBTI+ gera uma perda econômica anual de R$ 94,4 bilhões, o equivalente a 0,8% do PIB nacional. Já a perda em arrecadação e aumento de despesas públicas soma R$ 14,6 bilhões (0,124% do PIB). O estudo foi realizado pelo Banco Mundial, em parceria com um consórcio de organizações, como o Instituto Mais Diversidade.

LEIA TAMBÉM: Parada LGBT: o teste do compromisso empresarial.

Num momento em que a comunidade clama por inclusão e distribuição de renda, o que traria ganhos econômicos para toda a sociedade brasileira, houve uma queda de 60% nos patrocinadores privados da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. De 12 empresas em 2023, sobraram apenas 3 em 2026.

MARCOS GOLD: engajamento corporativo evoluiu nos últimos anos em Londres (foto: Divulgação)

O movimento trouxe novamente à tona o debate sobre Pinkwashing (lavagem rosa), conceito que aborda como algumas empresas exploram comercialmente a causa LGBTI+, sem ter um compromisso efetivo com a comunidade.

Em outros países, a realidade é diferente. Em entrevista para a Emerge Mag, Marcos Gold, diretor de engajamento comunitário da Pride in London, a Parada LGBTQ+ da capital inglesa, diz que, nos últimos 10 anos, o engajamento corporativo com o evento cresceu. Hoje, há diferentes formatos de apoios empresariais.

Gold esteve presente na Parada do Orgulho de São Paulo como parte da delegação da Season of Culture, do British Council.

Ele afirma que parceiros corporativos têm um papel importante para a realização do evento. No entanto, alerta: é de suma importância encontrar um equilíbrio para que o apoio das empresas não interfira no caráter político e ativismo que os eventos da comunidade possuem historicamente.

Confira a entrevista na íntegra:

Como as empresas apoiam e se relacionam com a Parada LGBTQ+ de Londres? Tem tido maior ou menor engajamento nos últimos anos?

O engajamento corporativo cresceu ao longo da última década. Marcas e organizações apoiam a Pride in London de diversas formas, desde se tornarem parceiras da parada, participarem com carros alegóricos, realizarem eventos internos e integrarem a iniciativa Pride in the City — demonstrando seu compromisso contínuo com a promoção de mudanças reais e significativas no ambiente de trabalho — até apoiarem o Unity Fund, nosso programa de concessão de recursos para organizações comunitárias LGBTQ+ sediadas em Londres.

Como muitas organizações responsáveis pelas Paradas do Orgulho ao redor do mundo, vimos o engajamento corporativo evoluir nos últimos anos em paralelo ao cenário político global, o que criou desafios adicionais tanto para a nossa comunidade quanto para as empresas.

Ainda assim, continuamos observando um forte interesse de organizações que desejam apoiar o movimento do Orgulho e se envolver com a comunidade LGBTQ+ de maneiras autênticas e impactantes.

Qual é o papel das empresas na realização da Parada hoje? Elas são vistas apenas como patrocinadoras ou também como parceiras na promoção de direitos e inclusão?

Para nós, as parcerias mais valiosas são aquelas que vão além de um único evento ou campanha e contribuem para criar mudanças positivas e duradouras para as pessoas LGBTQ+, ao longo de todo o ano.

Mas esse padrão está se tornando cada vez mais difícil de alcançar, especialmente porque algumas organizações enfrentam pressões internas e externas para reduzir seus compromissos com diversidade, equidade e inclusão (DEI). As que mantêm sua posição e geram um impacto duradouro na comunidade, especialmente quando isso não é fácil.

Como a organização busca equilibrar o apoio financeiro das empresas com o caráter político e histórico da Parada?

As organizações responsáveis pelas Paradas do Orgulho estão constantemente buscando equilibrar escala, sustentabilidade e integridade.

EQUILÍBRIO: organizador, que esteve em São Paulo em junho, busca apoio de empresas sem perder o viés político da causa LGBTI+ (foto: Maçã Verde Filmes)

Grandes eventos públicos, como a Pride in London, exigem recursos significativos para serem realizados de forma segura e acessível, e os parceiros corporativos podem desempenhar um papel importante para tornar isso possível.

Ao mesmo tempo, o movimento do Orgulho tem suas raízes em uma trajetória histórica e política, e essa identidade precisa permanecer no centro de tudo. O segredo é não tratar essas duas dimensões como opostas e garantir que uma nunca enfraqueça a outra.

Portanto, o equilíbrio está em assegurar que o envolvimento corporativo e o ativismo tenham papéis claramente definidos: enquanto o apoio das empresas ajuda a promover inclusão e acessibilidade, o significado da Parada continua fundamentado na comunidade e na sua história.

Há exemplos de boas práticas para garantir que esse apoio seja significativo e não apenas uma ação de marketing?

Um exemplo é o programa Pride in the City, uma iniciativa voltada para empresas, criado para fortalecer a conexão entre o mundo corporativo e seus colaboradores LGBTQ+, promovendo um compromisso durante os 365 dias do ano, e não apenas durante o Mês do Orgulho.

Queremos ver redes de colaboradores financiadas, treinamentos, empresas se posicionando quando isso realmente importa e transparência genuína sobre os pontos em que ainda precisam evoluir. As empresas que fazem isso bem costumam ser também aquelas que enfrentam conversas internas mais difíceis: sobre inclusão de pessoas trans, sobre operações globais em países onde pessoas LGBTQ+ ainda são criminalizadas e sobre a coerência entre suas políticas e a imagem que apresentam em seus carros alegóricos. Um logotipo com as cores do arco-íris em junho é um começo, não a linha de chegada.

Fotografia de abertura: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Quem escreveu

Foto de Matheus Santino

Matheus Santino

Repórter com cinco anos de experiência em jornalismo investigativo, cultural e local. Em 2021, foi aluno do Curso de Jornalismo Ágil da Emerge. Posteriormente, trabalhou na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, Agência Mural de Jornalismo e O Estado de São Paulo. Cocriador do projeto editorial O Novo Getulino, focado em negritude e história da imprensa negra brasileira.

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