Gyselly Auzier, 32 anos, é natural de Manaus (AM), mas mora em São Paulo há quase dez anos. Depois de experiências traumáticas no mercado publicitário, perdeu a autoestima profissional e não conseguia se “vender” bem durante entrevistas de emprego, o que dificultou sua recolocação no mercado.
Sem renda fixa, Gyselly precisou voltar para sua cidade natal, onde enfrentava diariamente a transfobia e a discriminação. Com síndrome da impostora, passou a se candidatar a vagas muito abaixo de sua qualificação apenas para garantir a subsistência.
A situação começou a mudar quando ela participou do Conexão Transforma, iniciativa de qualificação profissional para pessoas trans ministrada por funcionários voluntários de empresas signatárias do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.
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Ao longo do primeiro semestre, Gyselly participou de simulações de entrevistas e recebeu mentorias on-line. Mais preparada e confiante, conquistou um novo emprego. Há poucos dias, começou a atuar como redatora na campanha do candidato Fernando Haddad ao Governo do Estado de São Paulo.
“Se eu não tivesse sido ajudada, fatalmente teria que me prostituir para ganhar dinheiro. O emprego formal é essencial para nós, que fazemos parte de uma população discriminada.”
Gyselly Auzier, publicitária.

O Conexão Transforma foi coordenado pela comunidade de Impacto Social do Fórum, na liderança da empresa de tecnologia Avanade e pelo escritório de advocacia Veirano, com apoio técnico da Atados, organização social especializada em voluntariado.
Já a Transconvida e a TransEmpregos, organizações voltadas à inserção de pessoas trans no mercado de trabalho, receberam suporte técnico e financeiro.
De acordo com o Censo Brasileiro de Voluntariado Empresarial 2025, do Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE), foram realizadas cerca de 34 mil ações de voluntariado em 2024.
Apesar do volume expressivo, os dados mostram que ações emergenciais, como aquelas voltadas ao enfrentamento de desastres, ainda representam o principal foco do voluntariado empresarial, respondendo por 92% das iniciativas. Por sua vez, 41% das ações de voluntariado não são orientadas por diretrizes de diversidade, equidade e inclusão.
Na Avanade há 13 anos, Patrícia Valloni é líder de Negócios Responsáveis, área que reúne iniciativas de impacto social e de Diversidade e Inclusão. Segundo ela, é comum que empresas mantenham separados os departamentos de voluntariado e diversidade — desafio que o Conexão Transforma buscou superar.
“A Avanade e a Veirano financiaram o projeto, mas abrimos espaço para que outras empresas participassem, criando um ecossistema capaz de reunir competências complementares.”
Patrícia Valloni, líder de Negócios Responsáveis da Avanade.
A escolha pelo público trans foi justamente pelas barreiras para ingressar no mercado de trabalho. Ao todo, o Conexão Transforma teve programação de 320 horas, contou com 39 voluntários, participação de seis empresas e impactou diretamente 25 pessoas trans.

Christiane Sauerbronn é coordenadora de ESG da Veirano, onde trabalha há 11 anos. Segundo ela, a participação da empresa no programa foi um desdobramento natural de uma trajetória de compromisso com a diversidade e a promoção de oportunidades. Há dez anos, a Veirano mantém um programa de diversidade e inclusão e, desde 2019, é parceira da TransEmpregos.
“Mais do que implementar políticas e processos, buscamos construir uma cultura de acolhimento e respeito.”
Christiane Sauerbronn, coordenadora de ESG da Veirano.
POR QUE IMPORTA O VOLUNTARIADO COM FOCO LGBTI+?
A pesquisa “A inserção e as características das pessoas trans no assalariamento formal“, lançada em outubro de 2025 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostrou que apenas 24% das pessoas trans estão inseridas no mercado formal de trabalho no Brasil. Além disso, uma pessoa trans assalariada recebe, em média, 32% menos do que a média dos trabalhadores formais identificada na Rais 2023.
Rafael Gifalli, fundador da Transconvida, afirma que as barreiras continuam sendo numerosas.
“Os desafios vão desde empresas que não sabem lidar com a questão do banheiro até vagas que exigem qualificações irreais, como MBA e inglês fluente, para quem nunca teve oportunidade profissional”, explica.
Desse modo, o projeto buscou fortalecer o acesso de pessoas trans ao mercado de trabalho por meio de quatro frentes de atuação:
- Mentoria: voluntários apoiaram pessoas atendidas pela TransEmpregos em processos seletivos e na criação de perfis no LinkedIn.
- Oficinas de empregabilidade: encontros coletivos sobre elaboração de currículo e simulações de entrevistas.
- Campanha de doação: mobilização voltada à Transconvida para auxiliar a organização em dificuldades financeiras imediatas.
- Frente de tecnologia: voluntários desenvolveram melhorias na usabilidade da plataforma mobile da TransEmpregos.
Além disso, o projeto demonstrou capacidade de adaptação. A princípio, a proposta era realizar workshops para pessoas atendidas pela Transconvida. Desde 2020, a organização promove cursos de qualificação profissional e já atendeu 116 pessoas, das quais 58% estão empregadas.
No entanto, a Transconvida estava com a programação suspensa por falta de recursos financeiros. Diante desse cenário, houve a criação de uma campanha de doação, que despertou o interesse de outras empresas. Em seguida, voluntários passaram a colaborar na comunicação da iniciativa.
“Não sei editar vídeos nem imagens. Por isso, foi essencial contar com profissionais qualificados para comunicar a campanha e captar recursos”, afirma Rafael Gifalli.
Com as novas doações, a Transconvida lançará, em agosto, um curso intensivo de qualificação profissional com duração de três meses.

De acordo com Raphael Pagotto, secretário-adjunto do Fórum, da intenção inicial ao entendimento do contexto, passando pelos ajustes, implementação e avaliação dos resultados, um programa de voluntariado bem estruturado gera benefícios concretos para as empresas e gera impacto positivo na sociedade.
Depois do sucesso do Conexão Transforma, o Fórum tem buscado apoio de outras empresas para realizar as próximas edições.
“Uma vez que os desafios que cercam a comunidade LGBTI+ são estruturais e estruturantes, precisamos criar parcerias e soluções organizadas para avançar na agenda de diversidade corporativa”
Raphael Pagotto, secretário-adjunto do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.
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COMO É FEITO UM PROGRAMA DE VOLUNTARIADO
O voluntariado exerce papel estratégico dentro da responsabilidade social corporativa ao permitir uma contribuição rápida e efetiva para as comunidades do entorno da empresa.
Para os colaboradores, promove engajamento e motivação, especialmente entre gerações mais jovens. Segundo Jana Rosa, gerente de Redes e Comunidades da Atados, trata-se de uma relação em que todos ganham.
“As ONGs acessam recursos e conhecimentos técnicos, enquanto os voluntários desenvolvem habilidades como empatia, comunicação e liderança.”
Jana Rosa, gerente de Redes e Comunidades da Atados.
Para Jana, antes de tudo, empresas interessadas em estruturar programas de voluntariado devem compreender sua estratégia social e identificar temas que dialoguem com seu setor. Além disso, deve-se ouvir os colaboradores para entender quais causas fazem sentido para eles.
Nesse processo, alguns cuidados são fundamentais. A liderança precisa apoiar a iniciativa e servir de exemplo, atuando também como voluntária. Dessa forma, o programa passa a fazer parte da cultura organizacional.
Outra recomendação é começar com ações mais simples, como campanhas de doação, ampliando gradualmente a complexidade das iniciativas à medida que a organização ganha maturidade.

Nos programas voltados à diversidade, a capacitação dos voluntários é indispensável. Antes que as atividades iniciem, é importante promover treinamentos que expliquem os objetivos do projeto e preparem os participantes para lidar adequadamente com o público atendido.
“É preciso preparar o voluntário para que ele saiba lidar com o público de forma respeitosa e eficiente”, afirma Jana.
No caso da Avanade e da Veirano, as empresas já tinham diversidade e inclusão incorporadas à cultura organizacional.
Segundo Christiane, na Veirano a mobilização dos voluntários ocorreu por meio de comunicações institucionais internas, como newsletter e divulgações do programa Veirano Transforma, responsável pela frente de voluntariado.
Na Avanade, a mobilização inicial ocorreu por meio do Prism, grupo de afinidade LGBTQI+ da empresa.
Patrícia explica que a empresa já possuía uma cultura de voluntariado consolidada, mas que a Atados desempenhou papel essencial ao assumir a coordenação operacional do projeto, incluindo a gestão dos treinamentos.
“O retorno das pessoas que atuaram como mentoras tem sido muito positivo”, afirma.
SERVIÇO
TransEmprego
Plataforma de empregabilidade e banco de currículos para pessoas transgêneras. Anuncie vagas da sua empresa.
Transconvida
Associação sem fins lucrativos de capacitação profissional e oportunidades de trabalho para pessoas trans. Contribua com a organização.
IMAGEM DE ABERTURA: Gabriel Dalton/Unsplash, com tradução de IA.







