Reportagem de Maria Eduarda Xavier e Pedro Carrascosa, alunos de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, realizada via convênio de ensino dual com a Emerge Mag, sob supervisão da docente Jaqueline Lemos.
O disco de vinil nasceu em 1948, com a missão de substituir o disco de 78 rotações na indústria musical. No Brasil, o formato chegou em 1951 e se tornou extremamente popular, sobretudo nas décadas seguintes. O primeiro disco lançado em vinil no país foi “Carnaval”, uma coletânea de marchinhas.
Atualmente, mais de 70 anos depois, o “bolachão”, apelido para os discos de vinil, parece estar mais na moda do que nunca. Na pequena loja Celsom Discos, no Piqueri, Zona Norte de São Paulo, Celso Luiz Marcílio vive o vinil todos os dias. São 25 anos de experiência com discos, sendo 18 dedicados exclusivamente ao formato.
Celso perdeu a visão total aos 31 anos e, antes de abrir a loja de discos, trabalhava em banco financeiro e comercial. Anteriormente, a Celsom ficava em uma galeria perto do centro de São Paulo, mudando para o Piqueri pouco depois da pandemia.
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Quem costuma ir em lojas de discos sabe que o ritual para escolha é algo importante. Porém, na Celsom, o gesto tem um algo a mais comparado com outras lojas. Celso costuma compartilhar sua trajetória dentro do universo fonográfico, junto com dicas e preferência de artistas e álbuns. O lojista é uma enciclopédia da música e conhece a história de todos os álbuns que vende. Para ele, o vinil nunca deixou de fazer sentido culturalmente.
“O formato é preservado pela nostalgia, visual, encartes e história que vem dentro de cada álbum. Um disco não é só música. É registro, memória e arte. A música não envelhece.”
Celso Luiz, dono da Celsom Discos.
A pequena loja, na periferia da cidade, tem um clima familiar e nostálgico. Nas redes sociais, Celso costuma fazer vídeos compartilhando seleções de discos e contando histórias sobre os álbuns.
Celso comenta que o vinil fez parte da formação cultural do país, das famílias, da publicidade, do cinema e dos rituais domésticos. Isso, segundo ele, explica por que o retorno não soa como modismo.

“O vinil nunca morreu porque ninguém o matou bem matado. Abandonado por um tempo, voltou mais forte. O que não morre de verdade sempre renasce.”
Celso Luiz, da Celsom Discos.
A fala de Celso é real. Segundo o relatório Mercado Brasileiro de Música 2024, da Pro-Música Brasil, as vendas físicas registraram crescimento de 25,6% em 2025, gerando R$24 milhões.
As pesquisas dos anos anteriores mostram que, desde 2023, o vinil tem sido o principal responsável por esse crescimento e se consolidou como protagonista da mídia física no país.
Os dados acompanham a tendência mundial. O Global Music Report 2026, da IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica), mostra que o setor global de música gravada cresceu +6,4% em 2025, com o vinil se destacando com crescimento de 13,7% e registrando o 19º ano consecutivo de alta. Na América Latina, o Brasil lidera a retomada: a região cresceu 17,1%, e o país, sozinho, alcançou 14,1%, alcançando o 8º lugar mundial.
OS NOVOS OUVINTES DE VINIL
Outra característica da nova fase que o vinil vive no Brasil é a juventude abraçando cada vez mais o formato. Se antes o estereótipo do colecionador era o de um senhor conhecedor de raridades, hoje a presença de jovens é marcante e transformadora.
Marcelo Carioca, de Santa Catarina, é responsável pelo Abreu Colecionismo, um dos maiores leilões online de disco de vinil do país. Ele conta que observa a mudança de perto. “Todo mês entram 20 ou 30 novos compradores. Muitos têm 16, 17 anos. Essa galera nova busca o som do vinil, talvez porque a vida moderna é muito corrida. A pessoa coloca um disco para relaxar, para ter um momento mais ‘descolado’.”

O colecionador diz que até seu filho, de 27 anos, mergulhou no hobby e gosta de montar e reformar equipamentos. Para ele, o jovem hoje não compra apenas o disco, mas também o contexto. “Essa geração vem para fortalecer e prolongar a vida do vinil. Eles querem ler as letras, saber quem é o artista, entender a influência. Às vezes o cara chega aqui dizendo que só gosta de ‘música nova’, aí mostro que muito do que ele ouve hoje vem de 1938. Eles ficam chocados”, diz.
A convivência entre gerações cria um contraste interessante dentro do mercado. Marcelo diz que o colecionador novo quer o medalhão e busca discos como Alucinação de Belchior ou o clássico Clube da Esquina. Já o colecionador antigo busca outras coisas, muitas vezes mais baratas, por saber garimpar e conhecer músicas além da moda.
DIFICULDADES DO SETOR
Durante a pandemia, quando lojas físicas fecharam, o comércio digital se tornou decisivo. Segundo Celso, ele só sobreviveu na pandemia pela credibilidade já construída e diz que teria fechado se não fosse a confiança dos clientes fiéis.
Mas ele também aponta o lado obscuro do comércio online. “O e-commerce te dá alcance, mas te escraviza. A comissão é alta, a concorrência é enorme. Tem gente vendendo disco sem saber o que é vender disco. E quem paga o pato é o consumidor”, desabafa.
Apesar do crescimento, Celso alerta que o setor é muito menor do que parece. “Eu conheço mais de 40 lojas no centro de São Paulo. Dessas, só umas oito vivem exclusivamente de vender discos. O resto tem outro trabalho. Quem acha que vai ficar rico vendendo vinil está iludido”, diz.
O lojista explica que, hoje, o consumo é limitado e que os maiores compradores são assalariados, então, se o salário aperta, o disco é a primeira coisa a sair do orçamento para dar lugar a outros produtos.
O FUTURO DO VINIL
A economia global também interfere no mercado do vinil. Discos importados, antes baratos, encareceram. Celso diz que o que antes era US$1, hoje é US$10 e que a taxa de importação faz muita gente desistir.
Portanto, em um país em que o consumo cultural depende muito das oscilações econômicas, não é possível projetar qual será o futuro do vinil e se essa retomada irá se sustentar nos próximos anos.“É difícil prever. Depende da economia do país e do mundo. Os discos são caros em qualquer lugar”, afirma Celso.
Ainda assim, o fluxo contínuo de jovens colecionadores entrando no mercado é um forte indicativo de vitalidade. Marcelo enxerga esse movimento de forma ainda mais positiva. “O vinil voltou para ficar. Todo mês tem novato entrando. A galera quer qualidade, quer história. Quer segurar a música na mão”, diz.

Para quem está entrando agora no universo dos discos, tanto Celso quanto Marcelo destacam que o mais importante é cultivar paciência e consciência. O processo de montar uma coleção deve ser prazeroso, não impulsivo.
Celso enfatiza que o colecionador iniciante precisa aprender a equilibrar desejo e planejamento. “Disco não é gasto, é investimento emocional. Tenha calma. Compare preços, atendimento, credibilidade. Não seja ansioso”, diz.
Assim, entre incertezas macroeconômicas e o entusiasmo duradouro do público, o vinil parece seguir firme — sustentado tanto pela nostalgia quanto pela renovação geracional que o mantém vivo.
Fotografia de abertura: Valter Campanato/Agência Brasil.







