Reportagem de Felipe Lessa, aluno de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, realizada via convênio de ensino dual com a Emerge Mag, sob supervisão da docente Jaqueline Lemos.
O Brasil tem 15,8 milhões de empreendedores negros, que representam 52% dos donos de pequenos negócios do país e um crescimento de 17% nos últimos 10 anos, segundo dados da pesquisa Empreendedorismo Negro no Brasil do último trimestre de 2025.
Ainda assim, quando o assunto é inovação, a presença diminui drasticamente: 71% dos fundos de venture capital não têm nenhuma pessoa negra em suas equipes de investimento. Os números são de um estudo da Bain & Company com a BlackRocks Startups.
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Pesquisas do Sebrae (PNAD Contínua/IBGE), Empreendedorismo Negro no Brasil (2024) e estudos da PretaHub trazem um Raio-X do afroempreendedorismo:
- 89% atuam como trabalhadores por conta própria.
- Empreendedores negros recebem rendimentos inferiores aos de empreendedores brancos, segundo a PNAD Contínua analisada pelo Sebrae.
- O acesso a crédito e investimento continua sendo uma das principais barreiras para a expansão dos negócios, segundo estudos da PretaHub.

O resultado é um ecossistema que opera em duas velocidades: a do privilégio, irrigada por crédito barato, e a da resistência, movida à “soberania do improviso”.
DA SOBREVIVÊNCIA À ESTRATÉGIA
Levantamentos recentes do Global Entrepreneurship Monitor (GEM Brasil), analisados pelo Sebrae, mostram que, no estado de São Paulo, empreendedores negros têm maior probabilidade de abrir um negócio por necessidade do que empreendedores brancos, cenário que se intensificou durante a pandemia.
Histórias como a de Léo Oliveira, mostram que essa fronteira está sendo ultrapassada. Nascido em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, Léo, 42, transformou a experiência de office boy em uma startup voltada à gestão de pessoas e inteligência artificial.
O “bichinho do RH” o picou cedo. De assistente de seleção, Léo saltou para multinacionais, passando pela Siemens e LATAM Airlines, onde viveu no Chile, até chegar à gerência de RH da Netflix para a América Latina.
O caminho exigiu muita estratégia. O inglês, barreira comum para jovens da periferia, foi conquistado com esforço extraescolar. “Mesmo entregando resultados melhores, nem sempre eu era promovido. Foi necessário criar estratégias, networking e visibilidade”, diz.

O ponto de virada veio com um investimento ousado: um curso de liderança em Harvard. “No primeiro dia, me senti deslocado entre executivos e ministros. Mas percebi que estava lá porque planejei, paguei e era capaz”, relembra.
Hoje, Léo é fundador da Humanos & IA, uma startup que desenvolveu uma plataforma de inteligência artificial para apoiar líderes e profissionais de RH na tomada de decisões sobre gestão de pessoas, como promoções, feedbacks, desenvolvimento de equipes e retenção de talentos.
A plataforma não substitui a decisão humana. Ela reúne dados, diagnósticos e recomendações para ajudar líderes e profissionais de RH a tomar decisões mais informadas e menos sujeitas a vieses. “Não tomamos a decisão pelo líder. Potencializamos suas escolhas com dados”, explica.
A ECONOMIA NÃO É MONOLÍTICA
Os desafios no afroempreendedorismo não atingem todos da mesma forma. Gênero, território e orientação sexual podem se tornar barreiras na trajetória dos profissionais.
As mulheres negras representam cerca de 24% de todos os donos de negócios do país. No entanto, sofrem a “dupla penalidade”: segundo o Sebrae, elas têm 50% mais chances de ter um pedido de crédito negado do que mulheres brancas, mesmo com taxas de inadimplência menores.
Entre as vozes que se destacam nesse cenário está a de Íris Barbosa Barreira. Sua jornada desafia a lógica corporativa tradicional: começou aos 16 anos como atendente do McDonald’s e, três décadas depois, tornou-se executiva C-level, tendo liderado mais de 100 mil funcionários em 20 países.
Em novembro de 2025, Íris participou do Afro Cubo Day, evento promovido pelo Cubo Itaú focado em fomentar o empreendedorismo negro e debater a diversidade racial no setor de tecnologia. “As pessoas perguntam como fiquei tanto tempo na mesma empresa. Mas não era o mesmo desafio. Foram 15 cargos diferentes”, diz.

Hoje, Íris preside o Instituto Pactuá, focado em acelerar a presença negra na alta gestão através de uma rede de conexões entre profissionais negros em cargos de liderança. Para ela, a excelência técnica deixou de ser apenas mérito para se tornar uma blindagem necessária.
AS TRÊS TRAVAS
Trajetórias como as de Léo e Íris mostram que é possível romper barreiras, mas também evidenciam que ainda são exceções. A pergunta permanece: por que, diante de milhões de empreendedores negros o acesso ao capital continua tão restrito?
Para especialistas ouvidas pela reportagem, a resposta passa por três obstáculos estruturais:
- Viés do algoritmo financeiro
Daniela Garcia é CEO do Capitalismo Consciente Brasil, instituição que atua na educação corporativa e acredita no poder da iniciativa privada para gerar impacto positivo.
Para ela, o mercado financeiro ainda opera com vieses históricos. Quando a maioria dos fundos de investimento é formada por equipes homogêneas, normalmente homens brancos, a tendência é que empreendedores com trajetórias diferentes tenham dificuldade para acessar crédito ou convencer investidores.
O dado da Bain & Company ajuda a entender esse cenário: 71% dos fundos não têm negros na equipe. Quem avalia o risco não entende a realidade de quem pede o recurso. Com isso, grandes ideias são descartadas antes de serem analisadas com profundidade.
- Capacitação descolada da realidade
Outro obstáculo é a forma como o empreendedorismo é ensinado. Se pesquisas, como a GEM Brasil, mostram que empreendedores negros abrem negócios por necessidade, isso deve ser levado em conta.
Para Hannah Salmen, professora de Inovação do IBMEC, os programas de formação têm uma lógica distante da realidade vivida por empreendedores negros e periféricos. “Não adianta falar de pitch para investidor-anjo para quem precisa resolver o fluxo de caixa do dia para comer”, diz.
- O déficit de confiança
A confiança também é um obstáculo para o empreendedorismo negro. “O outro não confia em você e às vezes você também não”, pontuou Íris Barreira.
Essa crise de confiança mina negócios promissores antes que eles decolem, criando um teto de vidro invisível.
O FUTURO
Para ampliar a presença de pessoas negras no cenário das startups, é necessária uma mudança sistêmica, que vá além do empreendedor. O desafio é transformar um sistema que ainda concentra oportunidades e capital em um ambiente mais diverso e acessível.
Iniciativas como Preta Hub, Movimento Black Money e ID_BR, apontam que a mudança passa por quatro pilares: capital acessível, formação contínua, infraestrutura de apoio e poder decisório.

Na prática, isso significa fundos liderados por pessoas negras, bancos revisando seus modelos de risco, acelerações que partam das realidades periféricas e políticas públicas que reconheçam a economia preta como vetor central de desenvolvimento.
Se a população negra movimenta a economia, já está provado que existe potencial. O futuro do afroempreendedorismo pode estar sendo desperdiçado enquanto o acesso ao investimento permanecer desigual.
Para Íris Barreira, “Não precisamos romantizar o esforço. Mas precisamos reconhecer que, quando o sistema fecha portas, a gente aprende a construir as nossas. Agora é hora de abrir caminhos para que ninguém precise correr duas vezes mais para chegar no mesmo lugar”, completa.
Imagem de abertura: Fernando Frazão/Agência Brasil







