O que mudou 18 meses após proibição de celulares nas escolas públicas

18/06/2026

Estudantes relatam mais interação e foco, enquanto educadores buscam equilibrar tecnologia, aprendizado e convivência.

Aprovada em 13 de janeiro de 2025, a Lei nº 15.100/2025 regulamenta a restrição do uso de aparelhos eletrônicos portáteis para todos os alunos da educação básica, abrangendo escolas públicas e privadas em todo o território nacional.

A medida, que veta o uso de qualquer dispositivo eletrônico nas salas de aula, exceto para fins pedagógicos e com expressa permissão docente, chocou a princípio, mas tem se tornado uma nova rotina escolar.

A mudança imposta gerou um intenso debate entre a comunidade acadêmica e estudantil, com a negação natural de uma geração nativa digital que se vê desconectada.

É o caso de Kyara Ferreira, estudante da E.E. Doutor Francisco Brasiliense Fusco, no Jardim Umarizal, Zona Sul de São Paulo. Para a jovem, a maioria dos alunos reagiu negativamente à proibição. “O argumento de que é para socializar mais no intervalo é questionável, pois tirar o celular de forma abrupta e forçar a interação não vai melhorar em nada o ambiente escolar”, afirma.

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No entanto, as opiniões divergem entre alunos. Apesar da insatisfação, alguns percebem um aumento de foco, produtividade e interação social. É o que relata Robert Alexandre Moura, estudante da E.E. Ana Rosa de Araújo, na Vila Inah, Zona Sul da cidade.

“Depois da proibição, os alunos estão mais interativos uns com os outros. No intervalo, não se vê mais tanta gente no celular, virou um ambiente mais sociável.”

Robert Alexandre Moura, estudante. 

Ele afirma que a adaptação às novas regras não foi simples e que as mudanças ocorreram de uma hora para outra, o que trouxe dificuldade para alguns estudantes.

MAIS INTERATIVOS: alunos socializam mais durante o intervalo após a proibição de celulares (foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência-Brasil)

Um levantamento divulgado em maio de 2025 pela Equidade.info em parceria com a Frente Parlamentar Mista da Educação mostrou mudanças significativas no comportamento dos estudantes após a proibição.

Segundo o estudo, lançado 5 meses após a medida, 51% dos alunos deixaram de levar o celular para a escola. Entre os que ainda levavam, os índices variam conforme a faixa etária: 63% estavam no Ensino Médio, contra 31% no Fundamental II.

Entre os alunos que ainda utilizavam o aparelho na escola, 65% relataram usar para finalidades pedagógicas. Quase 56% dos alunos disseram ter dificuldade em diminuir o tempo de uso do celular, mesmo após as regras em vigor. O levantamento ouviu 1.057 estudantes, dos Ensinos Fundamental II e Médio, além de professores e gestores, em 149 escolas.

Para os especialistas responsáveis pelo levantamento, esses números indicam que a adaptação à nova lei está em andamento, embora ainda encontre resistência entre os mais velhos.

DESAFIO PARA PROFESSORES

ESCOLAS PÚBLICAS: em unidades com menos estrutura, o aparelho era utilizada para pesquisas e tarefas escolares. (foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Em escolas com maior estrutura tecnológica, a adaptação tem ocorrido de forma mais tranquila, com professores substituindo o celular por tablets, plataformas digitais ou atividades planejadas especificamente para manter o dinamismo da aula.

Já em unidades sem equipamentos suficientes, o desafio é maior: a proibição retira uma ferramenta que vinha sendo usada para pesquisas, organização de tarefas e comunicação entre estudantes e famílias, sem que exista necessariamente uma alternativa viável.

Thais Rabanéa, docente do ensino fundamental, afirma que professores têm recorrido às plataformas oferecidas pela rede pública como alternativa ao celular. Em sua disciplina, ela utiliza tablets uma vez por semana para atividades no Matific, plataforma digital de aprendizagem de matemática e educação financeira.

“Dá para ensinar o uso responsável, não apenas restringir. Pesquisas, atividades e jogos educativos funcionam bem.”

Thais Rabanéa, professora do ensino fundamental.
CARINA ZACARIAS: para pesquisadora, celular pode potencializar processo pedagógico (foto: acervo próprio).

Para a professora, o uso pedagógico das tecnologias é possível quando há orientação clara, sabendo controlar o momento de usar o aparelho e o da aprendizagem.

A docente ainda comenta que, entre seus alunos, a adaptação às restrições foi gradual, com bastante resistência no início e uma melhor aceitação agora.

Apesar disso, o impacto na relação professor-aluno é uma preocupação, uma vez que a frustração dos estudantes é frequentemente direcionada aos professores. “Os alunos se revoltam, achando que nós, professores, é que proibimos eles de usarem o celular”, explica.

Para Carina Zacarias, pesquisadora em educação e doutora em Ciências Sociais, não se deve substituir a socialização, o diálogo e a troca de professor e aluno por vídeos.

Segundo a educadora, a tecnologia deve ser tratada de forma mais didática e fazer parte de um planejamento de aula.

“O celular, em um ambiente pedagógico, pode potencializar o trabalho do educador”, diz.

O QUE DIZEM OS PAIS SOBRE CELULARES NAS ESCOLAS

O debate sobre a proibição do celular na educação básica revela mais do que uma simples questão de disciplina: expõe o desafio de integrar a nova geração a um ambiente escolar que busca o foco e a interação social.

A eliminação das distrações que podem afetar no ensino é a principal preocupação dos pais e responsáveis dos alunos. É o que diz uma pesquisa do Datafolha de outubro de 2024.

Segundo os dados, a maioria da população a partir dos 16 anos é a favor da proibição do celular nas escolas: 62% apoiam a decisão. Entre pais de crianças de até 12 anos, o número de pessoas favoráveis chega a 65%.

O levantamento ainda mostra que 76% acreditam que o uso de celulares prejudica mais do que ajuda no aprendizado. O número vai para 78% entre os que são pais de crianças. Ainda assim, 43% dos pais de crianças de até 12 anos confirmam que os filhos já possuem celular, e até 18 anos, 50%.

FAVORÁVEIS: pais de crianças e adolescentes apoiam a proibição de celulares nas escolas. (foto: Toma Silva/Agência Brasil)

O instituto entrevistou presencialmente 2.029 pessoas, com 16 anos ou mais, em 113 municípios do país.

O debate é acalorado e as opiniões dos diversos atores envolvidos ainda não chegaram a um denominador comum, 18 meses após a medida entrar em vigor.

Enquanto alunos e professores ainda se ajustam à nova realidade, a análise especializada aponta que o sucesso da medida não reside apenas na restrição, mas na capacidade das escolas de preencher o vazio tecnológico com metodologias ativas e no ensino do uso responsável.

Fotografia de abertura: José Cruz/Agência Brasil.

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Revista digital de cultura, direitos humanos e economia criativa interseccional e consultoria de diversidade e impacto social (ESG).

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