Do Underground ao Mainstream: dinheiro, identidade e liberdade no rap

10/08/2026

Artistas discutem as diferenças entre o rap underground e o mainstream e como dinheiro e identidade influenciam suas trajetórias

Reportagem de Caique Santos e Lucas Aspesi, alunos de jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, realizada via convênio de ensino dual com a Emerge Mag, sob supervisão da docente Jaqueline Lemos.

Nas letras de rap, é comum ouvir as palavras “Underground” e “Mainstream”. Os artistas usam os termos para classificar diferentes estilos de rap: o underground mantém maior ligação com a raiz do gênero e aposta em músicas autênticas e criativas, fora da lógica do mercado. Geralmente, artistas independentes lançam suas músicas sem vínculo com grandes gravadoras.

O mainstream segue a outra via, com músicas mais comerciais e mais parecidas com o pop, utilizando tendências sonoras e estéticas. São músicas que atingem mais pessoas, com formatos simples e aparecem nas TVs, rádios e paradas de sucesso na internet.

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De acordo com D$ Luqi, rapper underground, o que difere artistas dos dois estilos é o dinheiro e os contatos. “Eles [Mainstream] têm mais dinheiro e mais contato, quem está embaixo não têm nenhum dos dois. É algo que cria esse apartheid musical”, diz.

D$ LUQI: a falta de contatos e dinheiro são obstáculos para rappers underground (foto: arquivo pessoal).

Iku The Kid, rapper de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, é crítico à logística do Mainstream. Para ele, o cenário faz músicas para virar produto.

“Não me imagino fazendo algo genérico dessa forma. A arte é algo que enriquece a nossa cultura.”

Iku The Kid, rapper

Yung Exu, rapper underground de Cubatão, afirma que a sonoridade das cenas é bem discrepante. Ele comenta que, para vender e continuar popular, o mainstream mantém o mesmo estilo e fecha portas para novas ideias.

Para ele, artistas mainstream expressam o que faz sucesso e não seus sentimentos. “O rapper mainstream é a imagem do produto, mas, às vezes, nem é ele que está fazendo a música. Quem manda é a indústria fonográfica”, afirmou Yung Exu.

O DINHEIRO POR TRÁS DA MÚSICA

Os artistas entrevistados comentam que músicos de ambos os cenários têm seu retorno financeiro vindo principalmente de suas performances em eventos e acessos em plataformas digitais como o Spotify, Apple Music, Deezer e entre outros.

Segundo o “Relatório Global da Música 2026”, publicado em Março de 2026 pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), as receitas de streaming representam 69,9% da receita global da música gravada, ultrapassando os US$22 bilhões. No site Loud and Clear, o Spotify afirma que, em 2025, pagou mais de US$ 11 bilhões em royalties para artistas com músicas na plataforma.

Porém, viralizar nas plataformas de streaming não significa necessariamente viver de música. Cada plataforma tem uma política de pagamento de royalties que varia de país para país.

DINHEIRO: Iku The Kid e D$ Luqi em show no Rio de Janeiro. Apresentações são uma das formas de retorno financeiro dos rappers (foto: arquivo pessoal).

Segundo o site Chartlex, voltado para o marketing musical e a promoção de artistas independentes, em 2026 o Spotify paga entre R$0,016 e R$0,028 por stream no Brasil. O país é o terceiro maior mercado 

Outro ponto crucial é a distribuição das músicas. A maioria dos músicos underground depende de distribuidoras independentes, porém, isso envolve gastos e mesmo empresas que publicam o material gratuitamente, ficam como uma parte dos royalties.

No caso da OneRPM, muito conhecida no meio do rap nacional, o valor retido depende do formato em que a música foi distribuída. A empresa paga 85% dos royalties de streams e 70% para monetização do YouTube e gerenciamento de canais, ficando com a porcentagem restante.

Enquanto artistas underground trabalham no modo “faça você mesmo”, para músicos do mainstream o processo é mais fácil, já que a distribuição faz parte de uma estrutura institucional gerida pelas grandes gravadoras.

LIBERDADE PARA FALAR DE FÉ E POLÍTICA

Mas a diferença entre os dois cenários não está apenas na forma como os artistas ganham dinheiro. Para os rappers entrevistados, estar no underground significa preservar a liberdade para abordar temas políticos, sociais e religiosos.

Para a rapper Bubblekilla, as raízes políticas e periféricas do rap são constantemente utilizadas para desvalorizar o gênero e perseguir artistas e ouvintes, como já aconteceu com o samba e com o funk.

Segundo a artista, a visão mudou a partir do momento em que os ritmos se mostraram rentáveis. “Até um tempo atrás, todo mundo odiava funk. Hoje em dia já é diferente, está no TikTok e na TV com dancinhas virais. Antigamente os MCs eram marginalizados, mesmo os famosos, como o MC Daleste”, diz.

Procurando fugir dos moldes do mainstream, músicos do underground estão expressando sua autenticidade através da espiritualidade, em especial, com temas ligados a religiões de matriz africana.

Para os artistas, incorporar a espiritualidade e a fé na arte não é uma estratégia de marketing, mas sim um elemento imprescindível, identitário e ato político de existência na vida desses rappers.

Yung Exu e Iku The Kid, por exemplo, têm contato com os orixás e as entidades, algo explícito no nome artístico dos dois. Ambos explicam que a arte é um começo para abordar tópicos políticos com a audiência.

“As religiões de matriz africana sempre foram perseguidas pela política. Antigamente era muito pior, não tinham tantas pessoas para falar pela gente.”

Yung Exu, rapper

Para Iku The Kid, a arte pode ajudar a combater a intolerância religiosa. “Acho que a tendência é acabar. As novas gerações estão criando mais humanidade. As pessoas são mais humanas do que nós achamos”, reflete. 

MAINSTREAM É O DESTINO DESEJADO?

Embora muitos artistas underground migrem para o mainstream, nem sempre consideram essa transição uma evolução ou um privilégio. Apesar da melhora financeira que o processo pode trazer, muitos músicos do cenário não enxergam como um objetivo e não têm pretensão de fazer parte do mainstream.

Para D$ Luqi, sempre é possível viver de música, isso só depende de como cada um vive. “É uma coisa muito única. Existem pessoas que vivem com R$500, enquanto outras não conseguem viver com 5 mil. Então, não tem esse negócio de ‘quando você começa a viver de música’. Você vai viver de música se você quiser viver de música”, comenta.

Os sonhos e objetivos dos rappers underground vão além do dinheiro. Iku The Kid comenta que sonha em poder viajar o Brasil, enquanto Yung Exu conta que gostaria de ver seus familiares bem através da sua arte.

O produtor musical Prensativo conta que o seu maior sonho é usar o lado mercantil da arte para democratizá-la. Ele diz que muitos jovens sonham em viver de música, mas acabam desistindo por não ter acesso à bons equipamentos e estúdios.

O artista quer usar o dinheiro das músicas para montar um grande estúdio com equipamentos de ponta, deixando que todos utilizem mesmo que não gere retorno financeiro. “Eu quero ter dinheiro para fazer isso e fazer a história acontecer. Montar uma gravadora onde você pode fazer suas músicas com qualidade de estúdio profissional”, diz.

Foto de abertura: Arquivo Pessoal

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Revista digital de cultura, direitos humanos e economia criativa interseccional e consultoria de diversidade e impacto social (ESG).

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