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Criatividade para conscientizar e combater o coronavírus nas quebradas

01/06/2020

Desafio do Fundo Baobá e do Desabafo Social fez pipocar iniciativas sociais e artísticas de enfrentamento à pandemia nas áreas de risco – e as melhores ideias foram remuneradas

Desafio do Fundo Baobá e do Desabafo Social fez pipocar iniciativas sociais e artísticas de enfrentamento à pandemia nas áreas de risco – e as melhores ideias foram remuneradas. Conheça algumas das ações.

Há sete meses, Claudinei, morador da favela do Alçapão, no interior de São Paulo, está isolado num cômodo de sua pequena casa. Nesse período, ele sofre com as perdas e os estragos que o coronavírus causou em sua saúde e na sua família. Como isso é possível? É que Claudinei vem do futuro para nos dar um recado.

O áudio futurista, na verdade, é o primeiro episódio da série “Surtos”, que narra a vida de um paciente por meio de áudios que retratam seu negro drama e manda um papo reto sobre a importância e as consequências do coronavírus para aquelas pessoas que decidem pagar para ver quão perigosa o cenário de pandemia pode ser.

A série está disponível no podcast Rap e Afins, apresentado e produzido por Guilherme Gunts e disponível no Youtube e no Spotify. Gunts vive no Jardim Bela Vista, em Mogi das Cruzes, na grande São Paulo. Ele nos explica:

“A inspiração para a série Surtos veio da cultura griô, tradição na qual a transmissão de vivências e saberes culturais de uma comunidade é repassada oralmente, tornando-se um objeto pedagógico. O podcast foi uma forma que encontrei de adaptar a cultura dos griôs para o século XXI”

Vale dizer ainda que nem tudo é ficção nos 13 minutos em que Claudinei conta sua história. Há muito da experiência de Gunts e de sua família ao lidarem com a pandemia. Um exemplo é quando Claudinei narra que ainda não conheceu a neta de sete meses de vida. Na vida real, a mãe de Gunts também não conheceu a filha recém-nascida do produtor de podcast.

Além de contribuir para a conscientização, Gunts também produziu o episódio visando participar do desafio proposto pelo Fundo Baobá, fundo brasileiro dedicado à promoção da equidade racial para a população negra no Brasil, e pelo Desabafo Social, laboratório de tecnologias sociais aplicadas à geração de renda, comunicação e educação.

Ao longo de maio, as organizações selecionaram e remuneram centenas de ações comunitária de enfrentamento do coronavírus em 450 cidades brasileiras. A maio parte das iniciativas tem origem periférica.

Infelizmente, hoje esses locais são os que mais acumulam casos de pessoas infectadas e de mortes por Covid-19. Em São Paulo, todos os 20 bairros onde mais pessoas morreram da doença estão nas regiões periféricas da Capital. Até a publicação desse texto, a cidade de São Paulo tinha mais de 4.300 mortes confirmadas e 65.038 infectados, de acordo com o boletim Diário Covid-19 Edição 66 da prefeitura do município.

LEIA TAMBÉM: Tirinhas de ódio em tempos de pandemia

A LÓGICA DO GIRASSOL

A seleção das iniciativas por parte do Fundo Baobá e do Desabafo Social se deu por meio da plataforma ItsNoon, um aplicativo de interação entre pessoas e suas ideias, como contou a empresária do Desabafo Social Monique Evelle em recente entrevista à Emerge Mag.

Quem participava do desafio podia receber entre R$60 e R$ 350 reais por cada boa ideia. No ItsNoon, o like é um girassol, em que cada uma valia R$ 1.

“Na natureza, quando há luz, o girassol se vira para a luz. Quando não há luz, o Girassol se vira para um outro Girassol. Ou seja, aqui na Itsnoon, se você tem uma ideia, você posta na rede; se você está sem ideia… olhe o que os outros estão postando e se inspire!”, diz um comunicado na plataforma ItsNoon.

Pelo primeiro episódio de “Surto”, Guilherme Gunts recebeu a premiação máxima de R$350,00.

“O apoio proveniente da ItsNoon me ajudou nas contas da casa, além de contribuir para que eu melhorasse meu equipamento de trabalho e produção do podcast”, diz ele. “Eu já tinha uma ideia de fazer algo relacionado ao Covid-19, porém, se não fosse o desafio, provavelmente nunca sairia do mundo das ideias”

Outro projeto que o desafio ajudou a tirar do papel foi do Núcleo Ayé, coletivo negro de estudantes da graduação e pós-graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e responsável por iniciativas como a Semana Preta da FMUSP.

O coletivo participou do desafio com a proposta de trazer ao público entrevistas com os profissionais de saúde e agentes comunitários que atuam na linha de frente no enfrentamento à Covid-19. Rafael Marques Geraldo, estudante de fisioterapia e diretor de projetos Núcleo Ayé, comenta a ideia:

“No geral, o que vemos na grande mídia sobre a doença é a narrativa dos que têm altos cargos na gestão da saúde. Queríamos trazer a narrativa de quem está na ponta, para dialogar com as comunidades e falar sobre o impacto do vírus na saúde da população negra. Consideramos o estado de saúde da população negra como determinante para o agravamento do coronavírus nessa população”

Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 67% dos brasileiros que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde são negros. Pessoas negras também são maioria entre os pacientes com diabetes, tuberculose, hipertensão e doenças renais crônicas no país. Todos esses problemas são agravantes para o desenvolvimento de quadros severos da Covid-19.

A iniciativa do Núcleo Ayé vem num momento em que, além do coronavírus, o Brasil precisa combater as fake news e o descrédito de parte da população na ciência. A respeito disso, Rafael diz que no Brasil sempre foi difícil divulgar ciência.

THAMIRES ALVES, RAFAEL MARQUES, MARIANA NOVAES E LARISSA ALEXANDRE, DO NÚCLEO AYÉ (Foto: Karime Xavier/Folhapress)

“A comunidade acadêmica tem dificuldade de transmitir as informações para a população e, agora, para piorar, temos políticos proclamando discursos anticientíficos quando a ciência é a único remédio que temos para o vírus”, diz ele.

A proposta do Núcleo Aye também recebeu a remuneração máxima na rede do ItsNoon. Com o dinheiro, o coletivo adquiriu fone e um microfone de lapela para realizar as entrevistas.

Um dos primeiros episódios foi com Lula Santos, professor de educação física e líder comunitário da favela São Remo, que fica ao lado do campus da USP na zona oeste da cidade. A entrevista pode ser ouvido na página Preta ID no Instagram. Em breve, o grupo pretende lançar um podcast exclusivo onde concentrará todas as entrevistas.

COMO POSSO AJUDAR

Além do ataque à saúde da população periférica, a pandemia de Covid-19 ocasionou quedas drásticas nas receitas dos trabalhadores, em sua maioria autônomos. Por outro lado, a pandemia também fez nascer uma série de iniciativas solidárias, criadas para facilitar doações para aqueles que estão sendo mais impactos pela doença.

É o caso do Xepa Festival, que também participou do desafio do Fundo Baobá e do Desabafo Social. Idealizado pela Zeferina Produções e realizado em parceria com o Afrotrampos, o objetivo do festival é levar cultura, debates e entretenimento ao público, enquanto arrecada doações financeiras e disponibiliza mentoria para dez empreendedores periféricos.

De acordo com Ciça Pereira, proprietária da Zeferina Produções e do Afrotrampos, a ideia de apoiar pessoas em situação de vulnerabilidade nasceu de uma pesquisa que ela realizou com trabalhadores autônomos sobre os impactos da Covid-19 nos seus negócios. Ciça comenta as dificuldades relatadas pelos 200 respondentes da pesquisa:

“O perfil predominante dos trabalhadores autônomos é de mulheres negras, micro empreendedores individuais (MEI) e empreendedores do setor da beleza. Todos destacaram como o principal problema a impossibilidade dos seus negócios continuarem vendendo durante a quarentena”

Enquanto isso, o público tem se deliciado com uma programação artística e sócio-política de ponta. Já participaram do festival personalidades como Preta Rara, Badsista, Erica Malunguinho e Anielle Franco, irmã de Marielle Franco.

As transmissões acontecem todo domingo pelo Instagram do Xepa Festival. E as doações continuam sendo realizadas, aproveite e faça sua contribuição no link.

FOTOGRAFIA DE ABERTURA: Thiago Papyassu/Unsplash

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