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Heranças afro-indígenas na moda de Isaac Silva

05/07/2021

Estilista fala de como o mercado de moda nacional está abrindo os olhos para a diversidade e equidade racial

Historicamente, a moda sempre acompanhou as mudanças sociais e culturais e, desta forma, a representatividade na moda é uma oportunidade de transformação estrutural. Quando o assunto é moda brasileira, nada melhor que conversar com Isaac Silva, estilista baiano radicado em São Paulo e fundador da marca referência em representatividade afro-indígena.

Logo de cara, percebi que Isaac mantém firme o seu posicionamento, presente nos temas de suas coleções, nos modelos de seus castings e em suas roupas democráticas que podem ser utilizadas por pessoas de qualquer gênero e tipos de corpos. Em paralelo ao posicionamento político, também é notável as altas doses de afeto e carinho depositado nas peças (eu amo). Isaac comenta:

“Falar da cultura afro-brasileira e indígena é resgatar e manter viva as minhas origens, a minha verdade”

Assim como boa parte dos brasileiros, a pandemia afetou (e muito) a vida de Isaac. Em 2020, a loja da marca ficou de portas fechadas por cinco meses; o tempo mais longo do que o imposto pelas medidas de restrição foi uma escolha própria do estilista para assegurar a saúde de seus funcionários e clientes. Neste tempo, Isaac fortaleceu as vendas online e explorou novos canais, como Facebook, onde passou a atender uma clientela de mais de 45 anos, até então desconhecida.

Isaac também firmou uma parceria com a Havaianas, que resultou na coleção “Axé, Boca da Mata”, assinada pelo estilista, que foi apresentada na última edição do São Paulo Fashion Weed, no final de junho. De acordo com Isaac, a parceria é uma oportunidade para que outras grandes empresas invistam e colaborem com marcas pequenas, o que o estilista considera uma maneira de mostrar que o mercado acredita de fato na moda brasileira e está engajado em distribuir renda e influência.


A nova coleção da Isaac Silva é composta por chinelos e roupas repletas de referências em indígenas e de origem africana. “Axé, Boca da Mata” traz elementos da religiosidade e espiritualidade, somados ao respeito pela natureza, componentes da cultura dos dois povos representados. O preto e branco, cores sempre presentes na marca, e o verde que exalta as matas e florestas são fundos para estampas de olho de cabra junto à figa, o logo da Isaac Silva. A coleção também tem reinterpretações de elementos gráficos da capulana africana, tradicionalmente usada em Moçambique, grafismos indígenas, estampas animais e elementos sagrados nas religiões de matriz africana. Outra forte inspiração é Cabocla Jurema, entidade espiritual conhecida por expressar a fusão de culturas no misticismo afro-indígena.

A modelo rondoniense Zaya, de 20 anos, foi uma das modelos do casting da Isaac Silva (ela aparece ao centro na imagem que abre a galeria abaixo). Natural de Porto Velho, Zaya herdou as raízes indígenas da avó materna, descendente do povo Kamurape, um dos mais afetados pela invasão de garimpeiros em Rondônia. Zaya também é cofundadora do coletivo Indígenas na Moda, que reúne jovens criativos de diversos territórios e povos para empoderar a presença e construção de novos espaços para indígenas na indústria da moda brasileira. A jovem comenta:

“O coletivo Indígenas na Moda impulsiona a autoestima e o orgulho dos jovens indígenas e nos ajuda a criar outras perspectivas possíveis para além dos danos causados pelo processo de invasão, colonização e etnocídio contra os povos originários”


Na edição 51 do SPFW, Isaac foi um dos mentores do Projeto Sankofa, que reuniu oito marcas independentes de empreendedores negros e indígenas (e fora dos circuitos das passarelas) para participar da semana de moda e ter acompanhamento de estilistas consolidados no mercado. A marca pupilada por Isaac foi a marca Az Marias, de moda ancestral, sustentável e urbana que produz roupas para mulheres de corpos reais – ou seja, também tem uma moda brasileira ativista.

Veja abaixo trechos da conversa que tive com Isaac sobre equidade racial na moda, democratização do setor e perspectivas para 2021:

Emerge Mag: Qual o impacto da implantação de cotas para negros e indígenas nos desfiles?
Isaac Silva: É importante termos cotas na moda pois só com elas vamos conseguir quebrar as barreiras que dificultam o acesso de negros e indígenas no mercado. Teremos um número maior de marcas, estilistas, modelos e outros profissionais criativos nas equipes de criação, o que eleva a geração de renda e de negócios. É uma mudança onde todos irão ganhar.

Porque a escolha em moda afro-indígena?
Eu gosto de trazer a brasilidade para a moda. Falar da cultura afro-brasileira e indígena é resgatar e manter vida as minhas origens, a minha verdade. Os povos originários merecem respeito por suas contribuições e ensinamentos e, infelizmente, pelas opressões que sofreram.

Respeito ao meio ambiente é uma forte característica da cultura afro-indígena. Como você aborda a sustentabilidade nas suas criações?
Para reduzir o impacto da produção das roupas no meio ambiente, a Isaac Silva utiliza tecidos sustentáveis. Enquanto estilista e como marca, trabalho com fornecedores nacionais e tecidos da indústria nacional, pois precisamos trabalhar com eles para sustentar a indústria local. Outra questão é a mão de obra utilizada na produção. Todas as roupas da Isaac Silva são feitas sem terceirização, tudo nasce na nossa própria oficina, que emprega três funcionários imigrantes.


A cada novo desfile e coleção você amplia o horizonte com uma moda ativista. A moda se faz com política?
As minhas escolhas como estilistas à frente de uma marca também são escolhas políticas. A moda é um instrumento poderoso para falar de política – e ela tem que ser política, pois é uma maneira de atingir as pessoas. Se não trazermos uma moda política, a moda acaba.

Quais são as perspectivas para a democratização dos eventos de moda, agora em formato digital?
Acho importante o evento continuar online pois se torna um pouco mais democrático. Mas o desfile presencial vai voltar quando a pandemia estiver controlada e com todos vacinados, pois o evento presencial é necessário para o virtual acontecer. Estamos passando por um dos momentos mais marcantes das nossas vidas; e esse período que demanda sensibilidade. Ao mesmo tempo, há muita vontade de viver e produzir filmes, coleções e desfiles, tanto presencial quanto online – e querer viver tem sido a minha inspiração.

Fotografias: Rafael Félix e Flora Negri.

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