Saúde mental deixa de ser benefício e vira obrigação nas empresas

21/05/2026

Atualização da NR-1 obriga empresas a prevenir riscos psicossociais e reforça debates sobre cultura, gestão e diversidade.

Antes tratada como diferencial oferecido pelas empresas, a saúde mental no ambiente de trabalho passou a ser uma exigência legal no Brasil. Agora, departamentos de recursos humanos terão que considerar fatores de risco psicossociais na rotina corporativa.

Na prática, isso significa identificar, prevenir e remediar situações como excesso de carga de trabalho, falta de autonomia, assédio moral e sexual, metas inalcançáveis e relações interpessoais tensas — fatores que podem desencadear estresse, ansiedade e Síndrome de Burnout.

A medida integra a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), conjunto de diretrizes de Segurança e Saúde no Trabalho que institui o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). O sistema orienta as empresas na identificação e análise de perigos presentes no ambiente corporativo. Em resumo: a NR-1 estabelece as regras gerais; o GRO organiza o processo de gestão de riscos; e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) documenta as ações adotadas.

VEJA TAMBÉM: Empresas usam benefícios inclusivos para reduzir desigualdades.

A atualização, estabelecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), entrou em vigor em abril de 2025 em caráter educativo. No entanto, a partir de 26 de maio, empresas poderão ser fiscalizadas e autuadas em caso de descumprimento.

UMA TENDÊNCIA GLOBAL

CECÍLIA MARGUTTI: empresas não devem ter NR-1 apenas como custo.

A nova regulamentação acompanha uma tendência mundial. O Guia de Informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho, lançado pelo MTE junto com a medida, cita diretrizes recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

As estimativas globais apontam que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e à ansiedade.

No Brasil, dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos por burnout cresceram mais de 800% em quatro anos: passaram de 823 casos, em 2021, para 7.595 em 2025.

Para Cecília Margutti, advogada e líder da área de Pessoas e Cultura do escritório Stocche Forbes, o principal desafio é fazer as empresas deixarem de enxergar a NR-1 apenas como custo.

“Ao perceber que o investimento é baixo perto do retorno em produtividade e redução de turnover, as empresas verão que a NR-1 é um favor para elas. Com uma boa gestão de pessoas, é possível cumprir as exigências tranquilamente.”

Cecília Margutti, advogada e líder da área de Pessoas e Cultura do escritório Stocche Forbes.

Mas o que acontece com empresas que ainda não se adaptaram?

Segundo Cecília, em caso de denúncia ou ação judicial, fiscais poderão exigir o mapeamento dos riscos psicossociais e o PGR. Inicialmente, o foco das inspeções deve estar no engajamento da liderança com a agenda.

Ainda assim, as exigências valem para empresas de todos os portes.

VEJA TAMBÉM: Grupos de afinidade fomentam os direitos humanos nas empresas.

COMO EQUILIBRAR PRODUTIVIDADE E SAÚDE NA PRÁTICA

A atualização da NR-1 traz desafios na correta relação de diagnóstico, organização de ações e o monitoramento contínuo dos riscos psicossociais. Como a norma não funciona como uma “receita de bolo”, é necessário considerar a cultura organizacional, o tamanho da empresa e características específicas de cada ambiente de trabalho. 

De acordo com Isis Borge, diretora-geral da Assigna, empresa do Talenses Group especializada em empréstimo de mão de obra especializada (staff loan), o diagnóstico não pode ser tratado como uma simples pesquisa de clima organizacional.

“O diagnóstico precisa identificar perigos, avaliar riscos, definir medidas de prevenção, acompanhar planos de ação e registrar evidências”, explica.

Segundo ela, um caminho prático é o RH formar um grupo responsável pelo tema envolvendo funcionários de gestão de pessoas, saúde e segurança do trabalho, jurídico, compliance e lideranças de áreas críticas.

A partir daí, a empresa deve mapear áreas e profissionais mais expostos aos riscos. Isso pode ser feito por meio do cruzamento de dados já existentes, como absenteísmo; afastamentos; turnover; pedidos de desligamento; denúncias em canais de ética. Essa leitura ajuda a identificar onde o diagnóstico precisa ser aprofundado. 

Na sequência, é necessário ouvir os trabalhadores de maneira estruturada e segura, utilizando questionários, entrevistas, grupos focais e análises qualitativas da rotina.

“O ponto central é garantir confidencialidade e criar um ambiente em que as pessoas consigam relatar situações reais sem medo de retaliação”, afirma Isis.

Isis Borge, diretora-geral da Assigna.

Uma empresa pode descobrir, por exemplo, que determinada área apresenta alto índice de ansiedade, afastamentos ou rotatividade. Mas, segundo a especialista, o diagnóstico precisa ir além dos sintomas e investigar as causas. “A NR-1 não trata apenas de bem-estar subjetivo. Ela exige olhar para os riscos relacionados ao trabalho.”

Depois da identificação dos problemas, os riscos devem ser classificados considerando gravidade, probabilidade, grupos expostos e capacidade de controle da organização.

Essas informações precisam constar no inventário de riscos ocupacionais e estar conectadas a um plano de ação com responsáveis, prazos, medidas preventivas e indicadores.

Segundo Isis, um erro comum é responder a todos os problemas com palestras ou campanhas de conscientização, quando muitas vezes a origem do problema está no próprio modelo de gestão ou cultura da empresa.

“É preciso implementar medidas práticas, diretamente relacionadas aos riscos identificados.”

Outro ponto de atenção: o diagnóstico da NR-1 não deve ser um retrato arquivado anualmente. O monitoramento precisa ser contínuo, com atualização sempre que houver mudanças relevantes na organização. O PGR deve funcionar como um documento vivo, com histórico, acompanhamento e evidências de gestão.

“A empresa que seguir as regras corretamente vai melhorar a qualidade da gestão, reduzir o adoecimento e construir ambientes de trabalho mais sustentáveis”, conclui Isis.

RODA DE CONVERSA NA STOCCHE FORBES: integração entre saúde física, social, emocional e financeira dos funcionários.

EMPRESAS QUE JÁ TINHAM CULTURA DE CUIDADO E DIVERSIDADE SAEM NA FRENTE

Uma coisa é certa: empresas que já possuem programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) tendem a implementar as novas exigências com mais facilidade do que aquelas que historicamente trataram segurança psicológica com desdém.

Um exemplo positivo é o próprio escritório Stocche Forbes. A empresa já mantinha um programa voltado à saúde física, social, emocional e financeira dos colaboradores, estruturado em três etapas: escuta, análise e revisão.

Em 2024, o escritório fortaleceu o programa — chamado Fluir — com a criação da pesquisa Vibes, um diagnóstico semestral de riscos psicossociais. A pesquisa avalia oito fatores alinhados às exigências da NR-1: demandas e ritmo de trabalho; autonomia; suporte e colaboração; reconhecimento; equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; clima e segurança psicológica; relações interpessoais; bem-estar.

Entre as perguntas feitas aos colaboradores na pesquisa estão: “Quando você atravessa um período de pressão intensa, percebe que há espaço para sinalizar essa situação?” e “Com que facilidade você consegue se desconectar do trabalho ao final do expediente?”.

A participação na pesquisa é voluntária, anônima e aberta a todos os funcionários. Na edição de agosto de 2025, 253 colaboradores participaram — uma taxa de adesão de 68,2%.

LEIA MAIS: Diversidade é bom para as pessoas e para os negócios.

Com base nos resultados gerais e por áreas, o programa é revisado a cada semestre. O objetivo é evitar que sofrimentos organizacionais passem despercebidos, especialmente em um ambiente de alta cobrança como o jurídico.

“Para nós, monitorar clima, bem-estar e saúde psicológica é uma escolha estratégica que começou antes da atualização da NR-1”, afirma Cecília.

Desde 2021, por exemplo, a Stocche Forbes também mantém o programa Café com Desenvolvimento, no qual gestores realizam reuniões individuais para conhecer funcionários para além do desempenho profissional. Inicialmente focado em estagiários, o projeto foi ampliado para outros níveis de senioridade.

Já o programa Rotas promove rodas de conversa mediadas por uma psicóloga externa para profissionais em início de carreira. Há dois formatos. Um é voltado a estagiários no último ano da faculdade, período marcado por TCC, OAB, expectativa de formatura e efetivação. O outro é destinado a advogados recém-formados, que muitas vezes assumem responsabilidades antes de se sentirem preparados.

Os resultados são positivos. Dados da pesquisa Vibes apontam que 94,6% dos estagiários recomendariam o escritório para um colega. “Uma gestão mais humanizada e uma cultura percebida como segura e inclusiva reduzem o turnover entre jovens profissionais”, diz Cecília.

FÓRUM DE EMPRESAS LGBTI+: Empresas com programas de diversidade e inclusão são mais propensas a ter ambientes de trabalho mais saudáveis (foto: Kalinca Maki).

IMPACTOS DA NR-1 NA COMUNIDADE LGBTI+

Para Reinaldo Bulgarelli, secretário-executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, a atualização da NR-1 pode se tornar uma aliada importante da diversidade corporativa.

À frente do movimento empresarial que reúne mais de 150 empresas, Reinaldo, que aparece ao centro na foto acima, afirma que a antiga versão da norma era focada apenas no corpo físico do trabalhador.

“A nova NR-1 trouxe a visão de gente. As pessoas não são apenas um corpo que se machuca. Existe também o lado psíquico, que não quer tropeçar em piadas ou comentários ofensivos.”

Reinaldo Bulgarelli, secretário-executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.

Segundo ele, ao fortalecer a ética corporativa e a qualidade das relações interpessoais, a norma beneficia diretamente pessoas LGBTI+ inseridas nas organizações. Ambientes mais seguros tendem a permitir que trabalhadores tragam suas histórias de vida e perspectivas singulares para enriquecer projetos e relações profissionais.

Reinaldo, porém, faz um alerta. Existe o risco de empresas antiéticas tentarem associar grupos minorizados a maior vulnerabilidade emocional ou menor desempenho.

Nesse caso, a resposta deve ser outra: pessoas pertencentes a grupos historicamente discriminados frequentemente desenvolvem fortes capacidades de adaptação, resiliência e inovação.

A atualização da NR-1, portanto, cria uma escolha ética para as empresas: associar determinados grupos ao adoecimento ou usar a norma para aprimorar gestão, relações e cultura organizacional.

Mulher lésbica, Cecília afirma que a NR-1 fortalece a proteção de pessoas LGBTI+, negras e mulheres ao incentivar ambientes mais seguros. Dentro dessa perspectiva, em janeiro, a Stocche Forbes apoiou o lançamento do Pacto Assédio Zero nas Organizações, iniciativa do Me Too Brasil voltada ao acolhimento de vítimas de violência sexual.

Entre os pilares do pacto estão a defesa da segurança psicológica, do respeito e da dignidade como obrigações éticas e legais no ambiente de trabalho.

Participam da iniciativa organizações como o Movimento Mulher 360, que reúne mais de 150 empresas e parceiros.

“Empresas que resistem à NR-1 provavelmente sabem que seu ambiente não é seguro e não querem lidar com isso.”

Cecília Margutti, do escritório de advocacia Stocche Forbes.

Quem escreveu

Foto de Matheus Santino

Matheus Santino

Repórter com cinco anos de experiência em jornalismo investigativo, cultural e local. Em 2021, foi aluno do Curso de Jornalismo Ágil da Emerge. Posteriormente, trabalhou na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, Agência Mural de Jornalismo e O Estado de São Paulo. Cocriador do projeto editorial O Novo Getulino, focado em negritude e história da imprensa negra brasileira.

Inscreva-se na nossa

newsletter

MATÉRIAS MAIS LIDAS

ÚLTIMAS MATÉRIAS

NEWSLETTER EMERGE MAG

Os principais conteúdos, debates e assuntos de cultura, direitos humanos e economia criativa interseccional no seu e-mail. Envio quinzenal, às quartas-feiras.