Parada LGBT: o teste do compromisso empresarial

12/06/2026

Embora em menor escala e investimentos, caravanas de funcionários, ações de inclusão e apoio institucional à causa continuaram presentes.

Em 2015, Eduardo Carregoza foi pela primeira vez à Parada LGBT, escondido da família e sem revelar aos colegas de trabalho. Aos 18 anos, ele ainda não havia se autodeclarado gay publicamente e tinha um temor real de que algum conhecido o identificasse durante o ato na Avenida Paulista. 

No último domingo, durante a 30ª edição da Parada, Eduardo estava lá outra vez, e agora bem mais confortável. O temor perdeu tanto lugar para o orgulho que Eduardo levou para a avenida mais de 40 colegas de trabalho. Todos vestiam coletes com o logo da empregadora, a NTT Data. Há cinco anos, o desenvolvedor é líder do grupo de afinidade LGBTI+ da empresa de tecnologia. 

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A caravana organizada por Eduardo com os colegas da empresa acontece desde 2023. A ideia surgiu após ele realizar intercâmbios em unidades da NTT Data no Japão e na Alemanha, onde já havia movimentos organizados de funcionários para participar das paradas locais. 

“O foco da caravana é oferecer conforto, segurança e acessibilidade para os funcionários da empresa, incluindo aqueles que não são ‘assumidos’ fora do ambiente de trabalho”. 

Eduardo Carregoza, líder do grupo de afinidade LGBTI+ da NTT Data.

De acordo com Patrícia Perobello, coordenadora de diversidade na NTT Data, a caravana é tratada com a seriedade que a causa merece. Os funcionários realizam uma inscrição prévia e participam de uma reunião com orientações sobre segurança. Alguns foram pela primeira vez à parada e outros também levaram a família. 

“No domingo, nos encontramos na Paulista, distribuímos coletes e bandeirinhas e caminhamos juntos pela lateral mais tranquila da via”, conta Patrícia.

CARAVANA DA NTT DATA: departamento de diversidade organiza participação dos funcionários na Parada LGBT de São Paulo desde 2023 (foto: divulgação).

Esse ano, a NTT Data promoveu algumas ações durante a caminhada. Houve distribuição de brindes e convites para inscrição em cursos gratuitos oferecidos pela empresa e para participação no Congresso Tech Queer, realizado em parceria com o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, movimento empresarial de atuação permanente que reúne mais de 150 empresas com compromissos públicos à favor da diversidade e inclusão.

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O congresso aborda empregabilidade, inovação e representatividade da comunidade LGBTI+ no segmento de tecnologia. A próxima edição do evento acontece no dia 25 de junho (inscrições aqui).

Desde de 2023, a NTT Data tem um departamento dedicado à diversidade, equidade e inclusão (DEI).  Atualmente, pessoas LGBTI+ representam 9,1% do quadro de funcionários da empresa. Em cargos de liderança, somam 5%. Por sua vez, mulheres representam 33%, pessoas negras, 18,1%, e pessoas com mais de 50 anos, 9%.

“É uma mudança cultural ver os profissionais vestindo a camisa da empresa durante a Parada. Mostra que estamos no caminho certo do acolhimento e pertencimento”, diz Patrícia.

Entre outras empresas com funcionários organizados na Parada estão Zurich, AXA, Capgemini, EY, Accor e Philip Morris, sendo que esta última também foi patrocinadora oficial do evento. 

UM ATO DE CELEBRAÇÃO E LUTA POLÍTICA

A Parada LGBT+ de São Paulo é considerada uma das maiores do mundo. De acordo com o Monitor do Debate Político da USP/Cebrap em parceria com a ONG More in Common, o evento reuniu 36,8 mil pessoas em seu horário de pico. 

Com temática explicitamente política — “A rua convoca, a urna confirma” —, a edição de 2026 quis mostrar que, além de celebração do orgulho, a Parada é sobre resistência, união e luta por garantia de direitos. 

Como era de se imaginar, houve turbulências. Em maio, num nítido ataque à Parada, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou em 1ª votação um projeto de lei que proibia crianças e adolescentes em eventos públicos ou privados que “façam alusão ou fomentem práticas LGBTQIA+”. 

A RUA CONVOCA, A URNA CONFIRMA: tema da Parada 2026 de São Paulo reflete clamor para união e luta por direitos (foto: Elaine Cruz/Agência Brasil).

O projeto também exigia que os eventos da comunidade LGBTI+ fossem realizados apenas em locais fechados. Mesmo aprovado às vésperas da parada, o texto precisava passar por uma segunda votação, o que não aconteceu a ponto de interferir no ato do último domingo. 

Para Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, famílias, incluindo crianças e adolescentes, sempre fizeram parte da Parada. Nesse sentido, a tentativa de excluir menores de idades no evento é negar a existência das famílias LGBTI+ — ou invisibilizar o fato de que pessoas da comunidade tem, sim, mãe, pai, filhos, maridos e esposas que os amam e querem estar juntos. 

Em entrevista ao Blog Vencer Limites, do Estadão, Reinaldo afirmou que os direitos humanos são indivisíveis e quando se ataca um direito, ele é negado em diferentes dimensões da vida das pessoas, desde família e convivência comunitária ao emprego e à educação. Embora afirme que o foco de atuação do Fórum é no meio empresarial, ele defende que a causa LGBTI+ também deve se expressar nas urnas, com cidadãos e cidadãs escolhendo os rumos do país em que vivem. 

“O meio empresarial, prejudicado pela discriminação de qualquer segmento da população, deveria ser mais atuante na promoção dos direitos humanos.”

Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+

L’OREAL BRASIL SE MANTÉM COMO PATROCINADORA OFICIAL

Além da tentativa de boicote pelo legislativo paulistano, a Parada também passou por problemas com a falta de patrocinadores. Apesar de completar três décadas, a Parada registrou uma queda de 60% nos patrocinadores privados, indo de 12 empresas para apenas 3 em dois anos.

Em entrevista para o Estadão, Nelson Matias Pereira, presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), relacionou a queda dos patrocínios às pressões globais contra a agenda de diversidade.

Para ele, a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos em 2024, e a sua política anti-diversidade, fez com que empresas que apoiavam o evento apenas pelo potencial de consumo da comunidade LGBT+ (pink money) decidissem encerrar a participação. 

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Em um momento em que vereadores da cidade estão atacando a Parada, a retirada de apoio por parte das empresas mostra que muitas são coniventes com o movimento organizado contra a diversidade, uma vez que a redução de recursos pode inviabilizar o evento.

Em contraste com esse cenário de retração dos patrocínios, a L’oréal Brasil manteve sua participação na parada deste ano através do produto Cicaplast, hidratante da marca La Roche Posay.

A empresa é patrocinadora do evento há quatro anos. Signatária do Fórum de Empresas LGBTI+ há oito anos, a L’oréal escolheu o Cicaplast devido à forte identificação com a comunidade LGBT+, que adotou organicamente o produto. A ideia foi reforçar a conexão da empresa com o público.

Em uma publicação no Linkedin, o presidente da L’oréal Brasil, Marcelo Zimet, afirmou que valores corporativos só têm impacto quando saem do discurso e se transformam em decisões, investimentos e presença contínua. O executivo compartilhou fotos de funcionários da L’oréal com a camiseta da empresa durante a parada, além de faixas com o nome da empresa e do produto em um dos trios elétricos. 

“Reafirmamos um compromisso que a L’oréal constrói há mais de duas décadas: promover um ambiente onde todas as pessoas possam ser quem são, dentro e fora da empresa”, escreveu. O presidente ainda afirmou que a empresa estará na parada no ano que vem.

Por sua vez, a empresa de educação Cogna realizou um café da manhã em sua sede na Avenida Paulista. Num esquenta para a Parada, o evento reuniu 40 pessoas e contou com um debate com lideranças empresariais. O café da manhã foi realizado em parceria com o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.

Raphael Pagotto, secretário-adjunto do Fórum, explica que, quando se trata de empresas, pessoas que trabalham dentro das empresas e consumidores que compram dessas empresas, uma característica da diversidade humana não pode ser motivo para gerar desigualdades.

“A gente luta para que todas as pessoas tenham acesso, dignidade e sejam livres e iguais em direitos. É necessário igualdade nas diferenças.”

Raphael Pagotto, secretário-adjunto do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.
CAFÉ DA MANHÃ NA SEDE DA COGNA: esquenta para a Parada LGBT de São Paulo, evento contou com lideranças empresariais e debate (foto: Kalinca Maki).

DIFERENÇAS DO APOIO EMPRESARIAL ENTRE SÃO PAULO E LONDRES

Para comemorar os 30 anos da Parada em São Paulo, a APOLGBT-SP, organização sem fins lucrativos que organiza o evento; British Council, organização governamental inglesa; e a instituição Diversa Arte e Cultura se uniram para promover um intercâmbio cultural entre o Brasil e o Reino Unido durante o evento.

A iniciativa reuniu artistas, ativistas e organizadores de Paradas do Orgulho da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Entre as lideranças que vieram para o Brasil estava Marcos Gold, diretor de engajamento comunitário da Pride in London, a Parada LGBTI+ da capital inglesa.

Segundo Marcos, o engajamento corporativo cresceu nos últimos 10 anos na capital inglesa. Por lá, marcas e empresas apoiam a Pride in London em múltiplos formatos, como patrocínios, participação em carros alegóricos e realização de eventos do mês do Orgulho.

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Há também a Pride in the City, iniciativa que funciona como um programa de associação e capacitação que conecta empresas a pessoas LGBTI+ com foco em empregabilidade. Participar da Pride In The City é requisito obrigatório para expor a marca da empresa no desfile. Entre as empresas participantes estão IKEA, Lidl, Barclays, Deutsche Bank e Hilton Hotels.

Outra modalidade de apoio é o Unity Fund, programa de concessão de recursos para organizações comunitárias, sediadas em Londres, que atendem pessoas LGBTI+. 

“As parcerias mais valiosas são as que realizam mudanças positivas e duradouras para a comunidade ao longo de todo o ano, e não em um único evento ou campanha.” 

Marcos Gold, diretor de engajamento comunitário da Pride in London.

Fotografia de abertura: Paulo Pinto/Agência Brasil.

Quem escreveu

Foto de Matheus Santino

Matheus Santino

Repórter com cinco anos de experiência em jornalismo investigativo, cultural e local. Em 2021, foi aluno do Curso de Jornalismo Ágil da Emerge. Posteriormente, trabalhou na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, Agência Mural de Jornalismo e O Estado de São Paulo. Cocriador do projeto editorial O Novo Getulino, focado em negritude e história da imprensa negra brasileira.

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