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O “novo normal” dos grupos de teatro da periferia

07/06/2021

produtora gueto cine

Após um ano de pandemia, artistas fora do circuito de grandes lives patrocinadas contam as alternativas para continuar vivendo de arte

Após um ano de pandemia, artistas fora do circuito de grandes lives patrocinadas contam as alternativas para continuar vivendo de arte

*Reportagem desenvolvida por Luiz Fellipe Perreira, alune do curso de Jornalismo Ágil da Emerge Mag.

Poucos dias antes do Governo de São Paulo anunciar a primeira quarentena, no dia 21 de março do ano passado, o Grupo Canteiro de Teatro se apresentava na Fábrica de Cultura Capão Redondo para uma plateia de 50 pessoas. Naquela época, o coletivo seguia trabalhando normalmente e com a agenda cheia; até porque não havia orientações da prefeitura dizendo o contrário. Porém, eles tiveram que se retirar de cena. Com a chegada da pandemia, os integrantes do coletivo paralisaram os trabalhos e ficaram três meses sem se ver. “Num momento, estávamos com diversos planos e, de repente, nem sabíamos mais se o grupo ia se manter de pé”, diz Letícia Johanson, integrante do Grupo Canteiro. “E para ficar mais complicado, percebi que foi uma questão tanto coletiva quanto individual: “o que faremos? Como se manter artista?”.

O caso do Grupo Canteiro é similar a relatos de outros coletivos entrevistados – e temos convicções e provas. De acordo com a pesquisa Percepção dos Impactos da Covid-19 nos Setores Cultural e Criativo do Brasil, divulgada em dezembro, 48,8% dos agentes culturais perdeu 100% da sua receita entre maio e julho. O estudo também aponta que o setor das Artes Cênicas é o mais prejudicado a longo prazo. Vale destacar que mesmo antes da pandemia o setor cultural já estava numa desestruturação e fragilidade institucional aprofundada no Governo Bolsonaro, com queda de investimentos e censura.


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LIVES, ZOOM E WHATSAPP

Passado mais de um ano da 1ª onda de Covid-19 no Brasil, como estão se virando os artistas da periferia, que dependiam de seus trabalhos para sobreviver? Sim, aqueles que não conseguem mobilizar lives cheias de patrocinadores (e piadas transfóbicas) e nem tem iPhones, notebook novo e internet de fibra.

Grande parte desses coletivos e artistas desenvolve projetos com verba pública, via editais como Vai, PROAC e Fomento à Periferia, e muitos espetáculos, que tinham sido aprovados em 2019, precisavam seguir o plano de trabalho e orçamento. É importante frisar que o fazer artístico requer muito planejamento prévio. De uma forma burocrática e não tão agradável, artistas sempre estão pensando no futuro – e a incerteza generalizada causada pela pandemia foi um obstáculo diferente de tudo que os contratados e os supervisores de projeto poderiam imaginar.

Entre a cruz e a espada, a alternativa foi se jogar no mundo digital. É o caso do grupo de teatro Bando Jaçanã, da zona norte de São Paulo, que adaptou todas a montagem e ações planejadas em espaços físicos de seus espetáculos para a internet. Sarah Queiroz, integrante do grupo de teatro, comenta:

“Migrar para o digital foi um processo complicado. As artes do palco são artes da presença. O teatro é um jogo de conexão em que um passa a deixa para o outro. E no online há desafios de fluidez no jogo, como o ator perder a conexão com a internet ou o microfone travar no meio da cena”

Além disso, temos que considerar que os artistas entrevistados moram em territórios de periferia e, em poucos meses, tiveram que investir em equipamentos para realizar o seu ofício, que antes necessitava somente da sua presença. Outra questão é ter espaços livres de ruídos, uma vez que a residência é dividida com mais moradores, o que requer negociação – isso quando a família consegue negociar, né. Calma, pior que tá fica. Há também os ruídos do entorno, como música alta na rua; cachorros latindo; obras e festas. E, por fim, pense nos ramramram de moto justo na hora que você tem ensaio (#çofro).


Para Dani Santos, dançarina do grupo T2 Jova Crew, a migração para o online foi desmotivadora. “Na dança, o público é parte do trabalho do artista”, diz ela. “Falta o calor das reações e aplausos.”

Do outro lado da tela, o público enfrenta dores similares. A começar pelos mesmos problemas de conexão e falta de estrutura para se manter trabalhando em casa – isso considerando somente quem tem a vantagem de fazer home office, uma vez 86% da população brasileira que está trabalhando não consegue exercer sua função de forma remota, de acordo com uma pesquisa da IDados. Dessa forma, a produção online dos coletivos atinge poucos usuários, seja por eles não terem tempo livre quanto equipamento ou simplesmente por não seguirem os coletivos nas redes sociais. Talvez, um dos fatores mais desoladores seja, de fato, a falta interesse, pois a maior parte do público periférico tem preocupações bem maiores do que procurar os artistas do bairro na internet. Para fechar o ciclo, muitos acabam consumindo apenas conteúdo da grande mídia e o que os algoritmos selecionam para eles.


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COMO ASSSIM “PERSPECTIVA PARA O PÓS-PANDEMIA”?

O Gueto Cine é uma produtora audiovisual e fotográfica. Além de realizar gravações de espetáculos, o coletivo realizava exibição de filmes e debates em espaços abertos, como o da imagem que abre esta reportagem. Uma vez que os evento geravam aglomeração (#saudades), o trabalho se tornou inviável. Nos últimos meses, o Gueto Cine tem inscrito projetos para editais (no momento, não está comtemplado por nenhum).

E quais as expectativas para o pós-pandemia? A resposta é pouco acalentadora. Os integrantes do coletivo afirmam que a realidade será dura para se manter artista na periferia. Haverá sobrecarga de trabalho, menor remuneração e muita concorrência nos editais, que, em quantidade insuficiente, não darão conta da demanda.

“Estamos muito preocupados com o amanhã”, diz Alexandre, do Gueto Cine, que traz uma reflexão: Como pensar no pós-pandemia se ainda estamos dentro dela e sem perspectivas de melhora próxima; com média diária de quase 2.000 mortes por Covid-19 e vacinação a passos lentos.

“Assim como para os artistas, o futuro é muito incerto para toda a periferia”, finaliza ele.

FOTOGRAFIAS: Gueto Cine, Grupo Canteiro de Teatro, Bando do Jacanã e T2 Jova Crew. Todas as imagens foram produzidas antes da pandemia.

Esta reportagem integra o projeto Mapeamento de Artistas, Ativistas e Coletivos Culturais Edição 2021 da Emerge Mag, realizado com apoio da Lei Aldir Blanc na Cidade de São Paulo, da Secretaria Municipal de Cultura/Prefeitura Municipal de São Paulo e do Governo Federal.

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Redação Emerge Mag

Revista digital de cultura, direitos humanos e economia criativa interseccional e estúdio criativo de Diversidade, Equidade, Inclusão e Impacto Social.

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