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O encontro entre o grafite e a arquitetura na favela

05/04/2021

roger tai

Raça e classe definem a forma de se morar na cidade de São Paulo. O artista visual Roger Tai cria maquetes que trazem as memórias da construção civil feita na periferia

“Periferia é periferia” já diziam os Racionais MC ‘s em 1997. Apesar de todas as mazelas, dificuldades e tentativa de silenciamento pelo sistema, as quebradas se mantêm como grande potência. Nessa resistência diária, uma de suas tecnologias sociais é usar a criatividade para gerar renda e ter alternativas de vida. O artista visual Roger Tai é exemplo desse corre. Grafiteiro desde 1998, Roger é morador do Jardim Campos, no Itaim Paulista, com infância que traduz a realidade da maioria das famílias da região: mãe-solo, três crianças e pai ausente.

Recentemente, Roger Tai compartilhou sua trajetória e questionamentos na exposição Arquitetura do Gueto, que reuniu obras autorais na Casa de Cultura do Itaim Paulista. A exposição reúne pinturas em tela, projeções e maquetes hiper-realistas – de lugares da periferia que com certeza você já passou em frente – criadas a partir de resíduos de descarte irregular, como móveis e plástico reciclável.

As obras têm como inspiração a estrutura das casas tortas (e firmes) de concreto com tijolos a mostra feita pela própria comunidade – cada uma com uma história que traduz a forma como a periferia se fez. Roger conta que quando criança via senhores, grande parte nordestinos, erguendo casas de alvenaria na favela com muita destreza. A própria casa de Roger, construída nos anos 90, foi obra de seu Dito, pedreiro conhecidos nas ruas do Jardim Campos. “No dia de encher laje, os parentes e vizinhos se reuniam para trabalhar e beber em meio ao cheiro de torresmo frito que perfumava o ar”.

Porém, Roger destaca que ao iniciar as pesquisas sobre arquitetura urbana brasileira, não encontrou referências sobre metodologias de construção civil feita nas favelas. “Nos livros que li, não havia nada”, diz o artista, que também tem como referência arquitetos como Oscar Niemeyer, “que tem obras impressionantes, porém, em lugares elitizados”.

Este fenômeno de apagamento histórico que Roger revela se relaciona com a falta de representatividade negra e periférica no mundo da arquitetura, tema de estudo de uma nova geração de arquitetas e urbanistas paulistanas, como Sheroll Martins, Gabriela de Matos, Maíra Fernandes e Gisele Brito. Elas afirmam que raça, gênero e classe definem a presença e a invisibilidade das pessoas nos grandes centros urbanos (e na produção acadêmica), o que cria abismos, físicos e sociais, entre áreas nobres da cidade e as periferias. Este projeto de segregação urbana com base sociorracial permite, por exemplo, a escolha do poder público em não investir em saneamento básico, moradia e serviços médicos e educacionais nas comunidades, ao mesmo tempo que permite ações truculentas da polícia.

VEJA TAMBÉM: Coletivo fomenta presença de mulheres no grafite

TEMPOS PANDÊMICOS

Até o começo de 2020, a agenda de trabalho de Roger estava cheia. Ele trabalha com grafiti e estilização de ambientes e tem como clientes empresas com escritórios e que desenvolvem eventos. O artista já criou cenário no Festival Lollapalooza; na Arena Corinthians; no Rock in Rio 2017; no Carnaval de Salvador 2018; shows musicais de diversos artistas e live paint em festas.

Porém, com a pandemia, Roger e outros milhares de artistas independentes estão com os trabalhos paralisados. De acordo com a pesquisa “Impactos da Covid-19 nos Setores Culturais e Criativos do Brasil“, 35% dos artistas brasileiros tiveram perda de renda de 35% em média, entre março e abril de 2020.

Neste momento reflexivo dentro de casa, Roger conta histórias de sua adolescência quando sonhava em ser caminhoneiro. O fascínio era tanto que ele desenha caminhões nos cadernos. A migração do papel para os muros aconteceu com a ajudinha do grafiteiro Tom, que ao ver Roger sempre admirado e curioso por seus desenhos, o chamou para ser seu ajudante. No mundo do grafiti, essa passagem é como se fosse um ritual, onde o grafiteiro mais jovem poderá descobrir técnicas e adquirir experiência na rua ao lado de um mestre. Décadas depois, Roger ainda tem Tom como uma referência artística e inspiração de vida, tanto é que agora é ele que tem pupilos. Roger mantém um projeto de oficinas e palestras de artes visuais para crianças da comunidade. “A educação oferece aos jovens perspectivas de vida fora da criminalidade, da droga e da hiper sexualização”, afirma ele.

FOTOGRAFIAS: Rafael Felix

Esta reportagem integra o projeto Mapeamento de Artistas, Ativistas e Coletivos Culturais Edição 2021 da Emerge Mag, realizado com apoio da Lei Aldir Blanc na Cidade de São Paulo, da Secretaria Municipal de Cultura/Prefeitura Municipal de São Paulo e do Governo Federal.

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